Conheço o trabalho do Leo Abreu desde a Brewmille, sua primeira operação em Florianópolis, no bairro Coqueiros. De lá pra cá, em todas as suas empreitadas seguintes (passando pelo sucesso que foi o Ferro e agora com a bodega Por Dios e o Abreus Pizza Shop), tudo que ele faz mostra uma notável intuição criativa na cozinha. Não lembro de já ter comido um prato enfadonho ou cansativo em suas casas; tudo tem sempre muito sabor. O Brewmille foi um dos primeiros restaurantes da cidade que me trouxe essa feliz constatação.

Quando adentrei o grande galpão de pé-direito alto do Armando, fui recebida ao som de Texas Sun, do Khruangbin, uma banda que adoro e tenho ouvido bastante. Já começou me ganhando ali. Eram 19h de uma terça-feira e a casa abria as portas para o início do serviço; os atendentes circulavam ajustando os detalhes finais e recebendo as pessoas.

Enquanto aguardava minha amiga chegar, caminhei pelo ambiente, observando e assimilando os detalhes. A decoração traz elementos mais clássicos em cantinhos estratégicos, suavizando a atmosfera industrial e trazendo mais aconchego. A cozinha é ampla e aberta com uma bancada vistosa e o bar fica posicionado ao fundo.

Pasta, Bar e Brasa, é assim que o Armando se define. O pequeno menu comporta entradas, massas feitas na casa e proteínas na brasa e quem comanda a cozinha é o ótimo Arthur Viveiros (ex-Ludum e Rocca). Somando esse conjunto à proposta do galpão, não tem nada igual em Floripa. A verdade é que tem muita gente fazendo um trabalho incrível com a gastronomia da cidade.

O projeto surgiu como uma evolução da visão de Leo Abreu sobre a gastronomia atual: um cardápio enxuto e inteligente, pratos menores e compartilháveis que utilizam ingredientes locais e de pequenos produtores, além de um ambiente informal.

Vamos ao que provei por lá e, só de falar dessa entrada, eu já salivo. O Feijão Branco (R$ 54) com caldo de porco, Aji Panca (uma pimenta andina da culinária peruana), mexilhões, lula nativa e gremolata (salsa, casca de limão e alho) foi uma das coisas mais gostosas que comi nos últimos tempos. Veio com dois pedacinhos de focaccia para mergulhar. O feijão estava consistente, mas ainda úmido, bem cozido e brilhoso. O prato traz um fundo de sabor bem apurado com o toque marítimo dos frutos do mar. Espero que permaneça no cardápio por muito tempo, pois não vejo a hora de repeti-lo.

Entre os drinks autorais, provei o Seiva (R$ 39). Gin Verve, néctar Hidromel demi-sec, manga, erva mate 1401 e solução salina. Fresco como a água do mar. A solução predominou no paladar.

Minha amiga pediu o Veludo (R$ 46) com café Leve Cafeína, água de coco, amendoim tostado, Spiced Rum Docca e Amaro Cola San Basile. Clarificado com leite de amêndoas. Confesso que estava um pouco preconceituosa com esse drink, pelo tanto de ingredientes e por achar que ele seria enjoativo. Fui precipitada; gostei tanto, que acabei roubando uns goles. O café trouxe um amargor que equilibrou com os demais ingredientes. É doce na medida, exótico e reconfortante como uma boa memória.

O Crudo Picante de Peixe do Dia (R$ 68) já se revela pelo nome: é realmente picante. O olhete era o peixe da vez, servido com curry verde, óleo de pimenta peruana e picles de erva doce. Uma ótima escolha para quem aprecia um crudo fresco bem feito com picância pronunciada.

Não poderia deixar de provar uma massa. Escolhi o Spaghetti Manteiga e Alho (R$ 82) com salsinha, limão, lula à dorê bem crocante, alho confitado com pimenta calabresa, emulsão de açafrão, conserva de mostarda e cebolinha. A massa estava em um ponto que gosto, quase um al dente. É notável a beleza na construção em cada camada de sabor e textura desse prato. Delicioso.

O Chorizo com Salsa Verde (R$ 110 – 300g) feito na brasa veio em um ponto perfeito, bem rosado no meio e suculento. A salsa verde finíssima trouxe uma gostosa acidez herbal que levantou o prato. Ao lado, uma folha de acelga grelhada na brasa, acompanhada de um vinagrete de melado e balsâmico. A composição ganhou crocância e um toque adocicado, criando bons contrastes. Compartilhamos tudo e a mesa ficou naquela bagunça gostosa de provar várias opções, simultaneamente, entre um gole de drink e outro. Não sobrou espaço para as sobremesas, que provarei em outra ocasião.

O Armando funciona há pouquíssimo tempo, desde janeiro de 2026, e tudo que eu comi é o início de uma história que ainda está em construção. O cardápio está naquela fase de testes, sentindo a aceitação do público; alguns pratos ficam, outros saem e novidades chegam. Isso também reflete a inquietação do proprietário, que pode aparecer a qualquer momento com um ingrediente fresco e maravilhoso e criar um novo prato ali mesmo, como se o restaurante fosse realmente a extensão de sua casa. E, de certa forma, é exatamente o que sentimos ao estar lá.
*valores praticados em fevereiro de 2026
Serviço:
Armando Pasta, Bar e Brasa
Endereço: Rod. Antônio Luiz de Moura Gonzaga, nº 4.530, Rio Tavares
Horário de funcionamento: Terça a Domingo, das 19h às 23h30





