O desfile da Acadêmicos de Niterói homenageando o presidente Lula (PT) na Sapucaí traz nuances que vão muito além da festa. É inegável que Lula tem tamanho e legitimidade para ser enredo, mas a política não perdoa a falta de pragmatismo. Em um ano eleitoral, a exposição na avenida, carregada de revanchismo, parece mais uma casca de banana colocada nos próprios pés do que uma celebração estratégica.

O que se viu no Rio de Janeiro foi uma espécie de desforra política, destacando rancores do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e ataques diretos aos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) – ridicularizado ao ser caricaturado como o palhaço Bozo.
Se a militância saiu de alma lavada, o resultado prático para o Palácio do Planalto tende a ser o desgaste. A oposição, liderada pelo partido Novo e pelo presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), já articula a judicialização no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando propaganda antecipada. A própria ministra Cármen Lúcia, embora tenha negado a censura prévia, deixou o aviso de que qualquer sinal de pré-campanha será punido.
Esse cenário me remete ao episódio de 2015 envolvendo o então deputado federal Jorginho Mello em Joaçaba. Na época, a Acadêmicos do Grande Vale anunciou um enredo sobre a trajetória de Jorginho, mas o Ministério Público Federal questionou a homenagem com base no princípio constitucional da impessoalidade. Diferente do caso de Niterói, onde o financiamento é mais pulverizado, em Joaçaba a dependência de verba pública é direta. Jorginho foi prudente: percebeu a dimensão do desgaste e declinou da homenagem, evitando um estorvo jurídico em sua biografia.
Lula fez o caminho inverso. Ao aceitar a homenagem e se emocionar na avenida, ele deu combustível para a batalha de narrativas que a oposição adora travar. Nomes como Michelle Bolsonaro e Nicolas Ferreira já usam o desfile para fustigar o governo, focando especialmente na estigmatização de setores conservadores e evangélicos retratados na avenida. Flávio Bolsonaro fez vídeo se dirigindo ao que chamou de 10% que não são simpatizantes nem de Lula e nem de Bolsonaro – dizem que é esse o eleitorado que vai decidir a eleição presidencial.
Por sua vez, o pós-desfile de Lula e do PT é tímido nas redes sociais, elogiando genericamente o Carnaval pelo país e os desfiles das quatro escolas de samba que se apresentaram no Rio de Janeiro no domingo. Antes do desfile, dirigentes pediram à militância não usasse marcas do partido e slogans que pudessem ser entendidos como pré-campanha para evitar o crime eleitoral.
No fim das contas, a homenagem produziu um desgaste desnecessário em troca de um ganho nulo. Só quem ganhou foi a Acadêmicos de Niterói, que teve um destaque incomum para uma escola que vinha de divisão inferior. Em política, ser homenageado em ano de eleição pode ser um presente de grego, e Lula, ao contrário do que Jorginho fez no passado, preferiu o risco da Sapucaí ao silêncio estratégico.







