13/03/2026

João Rodrigues desfritou o ovo; entenda a articulação no PSD para a desistência da desistência

Alguns anos atrás ouvi de João Rodrigues (PSD) uma expressão que guardei para mim: desfritar o ovo. O que vimos na manhã desta sexta-feira, quando o prefeito de Chapecó anunciou a manutenção de sua pré-candidatura ao governo do Estado após a declaração do aliado Eron Giordani, presidente estadual do PSD, que seria aberto um processo de expulsão contra o prefeito Topázio Neto (PSD) por infidelidade partidária, foi o ovo sendo desfritado ao vivo na frente das câmeras.

Upiara Boschi analisa as articulações que levaram à continuidade da pré-candidatura ao governo de João Rodrigues (PSD) ao governo de SC
Foto: Divulgação.

Na noite de ontem, João Rodrigues estava fora do jogo. A pá de cal no projeto havia sido a entrevista coletiva improvisada pelo ex-senador e ex-governador Jorge Bornhausen para dizer que o PSD buscaria um plano B, que não aceitava o ultimato dado pelo prefeito chapecoense no grupo de WhatsApp da executiva estadual do partido e em entrevista a Sol Urrutia. Naquele momento, o “ele ou eu” dito por João Rodrigues levava a uma opção política pela permanência de Topázio Neto, mesmo apoiando publicamente a reeleição do governador Jorginho Mello (PL).

Poucas horas depois, o MDB catarinense se reunia em Florianópolis para mais um dos encontros macrorregionais da legenda em busca de um rumo após ter sido desalojado da chapa majoritária que vai embalar a candidatura de Jorginho Mello. No começo do encontro, o presidente estadual e deputado federal Carlos Chiodini recebeu telefonema de Eron Giordani. A informação: João Rodrigues anunciaria a imprensa na manhã de hoje a desistência da candidatura ao governo e a desfiliação do PSD.

A busca por nomes alternativos já estava em curso, incluindo o deputado estadual Napoleão Bernardes e o ex-governador Raimundo Colombo. Seria transmitida a ideia de que a decisão de João Rodrigues seria pessoal, não partidária, que o projeto do PSD continuava sendo a construção de uma alternativa a Jorginho e de um palanque robusto para a pré-candidatura presidencial do governador paranaense Ratinho Junior (PSD).

A desistência de João Rodrigues foi tema de discursos e de conversas paralelas no evento emedebista. Chiodini encerrou o encontro com um discurso cauteloso, enquanto era incentivado por outras lideranças a apresentar-se como candidato. Dias antes, previamente à crise, o PSD oferecera a vaga de vice e uma das vagas ao Senado em sua chapa aos emedebistas. No União Brasil, a perplexidade era semelhante. Dias antes, João Rodrigues e Eron Giordani articulavam como atrair pré-candidatos a deputado estadual para o potencializar a chapa do partido.

O ovo começou a ser desfritado ainda na noite de quinta-feira, mas a conclusão do processo de desfritura foi concluído pouco antes da manifestação à imprensa marcada para as 9 horas desta sexta. Envolveu conversas de Eron Giordani com Gilberto Kassab, que autorizou publicamente que Topázio mantivesse o apoio a Jorginho, e de Ratinho Junior com João Rodrigues, garantindo que será mesmo candidato a presidente – apesar das pressões para que seja vice de Flávio Bolsonaro (PL).

Convencido de que sem um gesto para João Rodrigues o palanque do PSD em Santa Catarina implodiria e de que era tarde para construir uma alternativa, Kassab concordou com o respaldo à pré-candidatura. Ao seu estilo, pediu que fosse quebrada a mínima quantidade de pratos possível.

Aos jornalistas, João Rodrigues abriu a fala com Eron Giordani ao lado, deixando de lado logo de cara a ideia de manifestação pessoal, não partidária. Repetiu o ultimato sobre a presença de Topázio Neto no partido e condicionou a essa questão sua permanência no partido e como pré-candidato a governador. Passou a palavra a Eron, que anunciou a abertura do processo de expulsão do prefeito da Capital por infidelidade partidária – não apenas por apoiar Jorginho, segundo o dirigente, mas também por atrapalhar articulações para a construção das chapas do PSD e do União Brasil.

A abertura de um processo de expulsão é um gesto que não precisa necessariamente ser consumado, mas é um sinal claro de que há limites na atuação do prefeito da Capital como cabo eleitoral de um adversário do partido.

Depois ouvir o que queria, João Rodrigues fez do ato, palanque. Rasgou elogios a Jorge Bornhausen, em uma tentativa clara de reaproximação. Disse não ter medo de enfrentar Jorginho e conclamou MDB, União Brasil e Progressistas a seguirem com ele. O ovo estava desfritado. E a desistência da desistência acabou ganhando mais holofotes do que naturalmente teria o próprio evento de renúncia à prefeitura de Chapecó, que continua marcado para 21 de março.

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