Não sei se foi na revista Placar ou na biografia do Garrincha, a primeira que li na vida, mas sei que eu era criança e nunca esqueci dessa história que li, atribuída ao meia Gerson (não o que vive saindo do Flamengo, o original), em uma disputa de cara e coroa para definir a saída de bola em uma partida do Botafogo. Ele escolheu cara e chutou a moeda antes que caísse no chão.
– Deu cara.
E assim ganhou o cara e coroa.
Lembro dessa história, que pode ter falhas da memória infantil nunca revisitada, sempre que vejo tentativas de ganhar uma disputa no grito. Lembrei da cena ao receber os relatos da reunião de lideranças do Progressistas (PP) para definir desde já o apoio à reeleição do governador Jorginho Mello (PL). Houve até um princípio de tumulto ao final, porque o secretário-geral Aldo Rosa e Amaro Lúcio, fiel escudeiro do senador Esperidião Amin, divergiam sobre o que deveria ser o encaminhamento daquele encontro que reunia principalmente pré-candidatos a deputado estadual e federal.
Amin havia saído mais cedo, após uma fala em que não apontava nem para Jorginho Mello e nem para o palanque ainda em suspenso do prefeito chapecoense João Rodrigues (PSD). Se tem algo que marca a longa trajetória do senador catarinense é a capacidade de aproveitar os hiatos decisórios alheios para construir seu momento de decisão – geralmente no limite dos prazos dados pela legislação. Prestem atenção, ele está fazendo isso de novo.

Claro que o PP tem suas diferenças de visão. O grupo do Oeste, liderado pelo deputado estadual Altair Silva, que estar próximo, se possível coligado com João Rodrigues. Não é à toa e nem despropositado. A região é a única do Estado em que Jorginho não lidera as pesquisas, mostrando a força do prefeito de Chapecó como cabo eleitoral.
Por outro lado, os pepistas do Sul do Estado, especialmente o grupo de Pepê Collaço, querem a adesão imediata ao projeto do governador, mesmo que para isso Amin precise lançar uma candidatura avulsa ao Senado, fora do palanque oficial de Jorginho, ocupado desde já pela deputada federal Caroline de Toni (PL) e por Carlos Bolsonaro (PL). O desejo de Collaço não é à toa e nem despropositado. O PL retribuiria o empenho deixando de lançar candidaturas de peso na região de Tubarão.
A condução do secretário-geral Aldo Rosa às questões do partido é nitidamente dirigida ao acordo com Jorginho, seja qual for, mesmo que o PP sozinho não possa entregar nada. Há uma federação com o União Brasil em que o presidente estadual e deputado federal Fábio Schiochet é persona non grata na Casa d’Agronômica porque, da mesma forma, dirige as questões do partido de forma nitidamente dirigida para o outro lado. A decisão, seja qual for, será conjunta ou será de Brasília.
Por isso, a reunião de ontem me lembrou a moeda chutada por Gerson antes de revelar-se se cara ou coroa. Não era um encontro da executiva estadual, não era uma pré-convenção. Era uma pesquisa presencial. Nela, ficou claro que a maioria dos pré-candidatos a deputado estadual e federal do PP prefere estar com Jorginho a estar contra ele. Isso tem peso, isso tem significado. Mas não é uma deliberação, como alguns prometeram ao governador e outros noticiaram. Na impossibilidade de deliberar e na necessidade de entregar alguma coisa, decidiram o que não estava em questão: o PP continua na base de apoio do governador Jorginho Mello na Assembleia Legislativa.
Logo depois do encontro, Pepê Collaço e Aldo Rosa levaram prefeitos pepistas da Amurel e da Amrec para um jantar na Casa d’Agronômica. Na mesma hora, Amin concedia entrevista ao vivo para mim e para o colunista Fabio Gadotti no podcast SCC Upiara sobre os mais diversos temas. Jogou com o tempo, com os prazos. Mandou sinais para PSD e MDB, o antigo rival – “aprendemos a nos suportar”, brincou o senador. Ninguém faz Amin dizer o que não quer, mas consegui tirar uma resposta dele sobre a possibilidade de concorrer de forma avulsa ao Senado:
– Concorrer avulso não é projeto. Lá na frente, se nada der certo, pode até acontecer. Mas avulso em março, não dá.
No Progressistas, antigo PPB, ex-PPR, velho PDS, eterna Arena, só quem pode chutar a moeda na hora do cara e coroa é Esperidião Amin Helou Filho.






