04/06/2026

Trump mira gigantes da carne e coloca JBS no centro de nova guerra comercial contra o agro brasileiro

Carne, comércio e poder

Junho começa com um alerta importante para o agronegócio brasileiro. Enquanto o governo federal tenta reconstruir pontes comerciais com os Estados Unidos e reverter restrições impostas pela União Europeia, a principal cadeia exportadora do país volta ao centro das tensões internacionais.

A abertura de uma megainvestigação do governo Donald Trump contra as maiores processadoras de carne dos Estados Unidos, incluindo as brasileiras JBS e National Beef, colocou a proteína animal brasileira no meio de um debate que mistura inflação dos alimentos, segurança nacional, concentração econômica e disputa geopolítica.

Ao mesmo tempo, Santa Catarina segue ampliando sua importância logística com novos investimentos no Porto de Itajaí, enquanto o Brasil corre contra o tempo para atender exigências sanitárias da União Europeia e preservar mercados estratégicos para carnes, aves, ovos e mel.

Trump mira gigantes da carne e coloca JBS no centro da ofensiva americana

A reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em Washington ocorreu sob a sombra de uma investigação que preocupa diretamente o agronegócio brasileiro.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu uma ampla apuração sobre as chamadas “Big Four” da carne – JBS Foods USA, National Beef, Tyson Foods e Cargill – responsáveis por cerca de 85% do processamento de carne bovina no mercado americano.

O argumento oficial é investigar possíveis práticas anticompetitivas, concentração excessiva de mercado e eventual coordenação de preços. Mas, nos bastidores a discussão vai muito além da concorrência.

Durante o anúncio da investigação, o conselheiro de Comércio e Manufatura da Casa Branca, Peter Navarro, destacou repetidamente o fato de duas das quatro gigantes serem controladas por grupos brasileiros. A declaração mais dura veio da secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, que afirmou que a forte presença brasileira no setor representa risco à segurança alimentar e à segurança nacional americana.

Rollins foi além e citou diretamente a JBS ao afirmar que uma das empresas brasileiras possui “histórico documentado de corrupção internacional e atividades ilícitas”, associando ainda o setor a investigações sobre cartéis e violações trabalhistas.

A ofensiva ocorre num momento delicado para Trump. Com a inflação dos alimentos ainda pressionando o consumidor americano e as eleições legislativas se aproximando, a Casa Branca busca mostrar reação ao aumento do preço da carne nos supermercados.

União Europeia rejeita proposta brasileira e aumenta pressão sobre exportadores

Se os Estados Unidos apertam de um lado, a União Europeia aumenta a cobrança do outro.

O bloco europeu rejeitou a proposta brasileira de transição para adequação às novas regras sobre uso de antimicrobianos em animais destinados à exportação. O governo brasileiro havia sugerido uma adaptação gradual, mas Bruxelas decidiu manter as exigências originais.

A preocupação é grande porque a decisão afeta diretamente produtos de origem animal, incluindo carne bovina, aves, ovos e mel.

O principal desafio está na rastreabilidade. A União Europeia quer comprovação sanitária completa durante toda a vida do animal. No caso da pecuária brasileira, isso significa acompanhar o histórico do bovino desde a cria até o abate, muitas vezes passando por diversas propriedades rurais.

O governo brasileiro trabalha para apresentar as adequações até setembro e tenta evitar prejuízos em um dos mercados mais exigentes do mundo.

JBS amplia operação em Itajaí e reforça corredor logístico de exportação

Enquanto a companhia enfrenta pressão internacional, a JBS amplia sua presença logística em Santa Catarina.

A JBS Terminais anunciou investimento de R$ 9 milhões para internalizar totalmente a operação logística do Porto de Itajaí. O aporte inclui a compra de 25 caminhões que passarão a operar exclusivamente no transporte interno entre cais e área de armazenagem.

Além disso, duas novas linhas internacionais serão incorporadas ao terminal, conectando Santa Catarina a mercados estratégicos dos Estados Unidos, Caribe, Mediterrâneo, Norte da África e Europa.

Com a expansão, o Porto de Itajaí passará a operar 12 linhas regulares internacionais, o maior número já registrado em sua história.

Segundo o presidente da JBS Terminais, Aristides Russi Junior, desde outubro de 2024 já foram investidos aproximadamente R$ 230 milhões na retomada das operações do porto, que permaneceu praticamente paralisado por quase dois anos.

Gigante chinesa avalia investir na produção de suínos no Brasil

Outra movimentação relevante ocorre no mercado internacional de proteínas.

A Muyuan Foods, uma das maiores produtoras de suínos da China, iniciou estudos para instalar operações no Brasil. As conversas envolvem principalmente os estados de Mato Grosso e Goiás, regiões estratégicas pela oferta de milho e soja, principais insumos da atividade.

A possível entrada da companhia reforça o interesse chinês em ampliar presença direta na produção mundial de proteínas.

Suinocultura catarinense enfrenta queda de preços

Enquanto isso, os produtores catarinenses vivem uma realidade bem menos otimista.

Segundo a Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), o preço-base do suíno acumulou queda de 17,2%, reduzindo significativamente a rentabilidade das granjas.

O setor estima prejuízos que podem chegar a R$ 150 por animal comercializado. Entre os fatores apontados estão excesso de oferta, custos ainda elevados de produção e valorização do real frente ao dólar, que reduz a competitividade das exportações.

Governo libera mais vacinas e tenta conter preocupação na pecuária

O Ministério da Agricultura e Pecuária também anunciou a liberação de mais 12,3 milhões de doses de vacinas contra clostridioses. Desde março, o volume disponibilizado ao mercado já supera 39 milhões de doses.

A medida busca reduzir os efeitos do desabastecimento registrado nos últimos meses e garantir proteção sanitária aos rebanhos, especialmente em estados com forte presença pecuária.

A guerra da carne ganhou um novo capítulo

O agronegócio brasileiro começa junho olhando para fora da porteira. A investigação aberta pelo governo Donald Trump contra gigantes da proteína animal reacende tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos e coloca a JBS no centro de uma disputa que mistura mercado, política e segurança nacional.

Do outro lado do Atlântico, a União Europeia mantém pressão sobre as exportações brasileiras e exige novas garantias sanitárias.

No meio desse tabuleiro, Santa Catarina amplia sua importância logística com novos investimentos no Porto de Itajaí e reforça seu papel estratégico para as exportações. Mais do que uma disputa por mercados, o que está em jogo é a posição do Brasil na nova geografia global dos alimentos.

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