
Quando o debate sai da narrativa e entra na planilha
A semana em Brasília avançou em várias frentes que mexem diretamente com o setor produtivo: jornada de trabalho, crédito, pesca, rotulagem de alimentos e proteção sanitária.
No centro desse movimento está uma mensagem clara das entidades do agro e da indústria: modernizar é necessário, mas sem desorganizar a economia real.
Enquanto o Congresso discute redução da jornada, cadeias produtivas alertam para efeitos colaterais como aumento de custos, pressão sobre preços e risco de informalidade.
Em paralelo, o Legislativo avança em pautas estruturais do agro da proteção à tilapicultura à rotulagem de alimentos lácteos enquanto Santa Catarina segue mostrando que muitas vezes o estado antecipa debates, que só depois chegam ao plano nacional.
Setor produtivo entrega manifesto pela modernização da jornada de trabalho
A Coalizão de Frentes Produtivas recebeu na sede da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), na terça-feira (3), representantes das principais confederações nacionais para discutir a modernização da jornada de trabalho no Brasil.
O encontro reuniu parlamentares e lideranças empresariais preocupadas com os efeitos econômicos de mudanças abruptas na legislação trabalhista.
O presidente da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo, deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), afirmou que o tema não pode ser tratado apenas sob o viés eleitoral.
“Precisamos ser responsáveis com o nosso país. O cidadão não vai querer essa proposta quando descobrir que o alimento vai ficar mais caro, o combustível vai ficar mais caro e os custos vão subir.”
O presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), defendeu que trabalhadores também participem da construção de soluções.
“Se temos convicção de que determinadas mudanças podem prejudicar os trabalhadores, por que não chamá-los para o debate? Eles precisam estar entre nós.”
Na mesma linha, Domingos Sávio (PL-MG), da Frente do Comércio e Serviços, criticou a polarização.
“Virou uma armadilha política nos colocar entre o bem e o mal. O debate precisa ser responsável.”
Já Júlio Lopes (PP-RJ), presidente da Frente do Brasil Competitivo, reforçou que o foco precisa ser a competitividade da economia brasileira.
Durante o encontro, o sociólogo José Pastore apresentou análise sobre os possíveis impactos da proposta. Segundo ele, mudanças abruptas podem gerar repasse de custos aos preços, automação acelerada e redução do emprego formal.
Manifesto pela responsabilidade econômica
O encontro culminou na entrega de um manifesto das entidades produtivas defendendo que a discussão sobre jornada de trabalho seja conduzida com base técnica, previsibilidade e diálogo institucional.
A presidente-executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e do Instituto Pensar Agro (IPA), Tania Zanella, destacou que o documento expressa a unidade do setor produtivo.
“Assinamos e apresentamos esse manifesto para trazer unicidade a essa discussão e estamos juntos para amadurecer e buscar melhores alternativas para essa modernização. O passo é importante, mas precisamos de coerência.”
Segundo as entidades, o objetivo é garantir qualidade de vida ao trabalhador sem comprometer a preservação do emprego formal, que hoje reúne cerca de 38,9 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, segundo o IBGE.
Projeto nacional quer proibir importação de tilápia
Seguindo o exemplo de Santa Catarina, onde a Justiça estadual validou medidas sanitárias contra a entrada de tilápia importada, um projeto, em análise na Câmara, também propõe proibir a importação do peixe no Brasil.
O PL 6331/2025, de autoria do deputado Dilceu Sperafico (PP-PR), inclui na restrição peixes vivos, alevinos e produtos processados.
O objetivo é reduzir riscos sanitários e proteger a cadeia produtiva nacional.
Santa Catarina aparece como exemplo nesse debate. O estado é o 4º maior produtor de tilápia do país, com cerca de 59 mil toneladas por ano, movimentando aproximadamente R$ 500 milhões e gerando renda para 30 mil famílias.
A produção se concentra em pequenas propriedades e tem forte apoio de melhoramento genético conduzido pela Epagri.
Nova portaria define regras para pesca da tainha em 2026
Os ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente publicaram portaria que estabelece as regras para a captura da tainha nas regiões Sul e Sudeste.
Para 2026, o volume total autorizado é de 8.168 toneladas, cerca de 20% superior ao limite do ano anterior.
A norma também define:
• distribuição de cotas por modalidade de pesca
• mecanismos de monitoramento
• controle da atividade pesqueira
A medida é estratégica para comunidades pesqueiras do litoral catarinense e gaúcho.
Seguro-defeso entra em debate no Congresso
A comissão mista que analisa a MP 1.323/2025, que mudou as regras do seguro-defeso, ouviu representantes de associações de pescadores nesta semana.
As entidades afirmam que o novo modelo tem prejudicado trabalhadores que dependem do benefício no período de reprodução das espécies.
Entre as mudanças estão:
• biometria obrigatória
• verificação em duas etapas no gov.br
• entrevistas para habilitação do benefício
O governo afirma que as medidas buscam combater fraudes, mas o setor cobra ajustes para evitar exclusão indevida de pescadores artesanais.
O relatório final da medida provisória deve ser votado ainda neste mês.
Câmara avança na regulamentação do uso da palavra “leite”
O plenário da Câmara aprovou proposta que regulamenta o uso da palavra “leite” em embalagens e rótulos de alimentos.
O projeto estabelece que o termo seja reservado a produtos de origem animal, provenientes da secreção mamária de mamíferos, evitando que produtos vegetais utilizem denominações semelhantes.
De autoria da senadora Tereza Cristina, a proposta busca impedir que termos como “leite vegetal” ou “queijo vegetal” confundam o consumidor.
O relator Rafael Simões (União-MG) afirmou que o objetivo é garantir transparência.
“Estamos lidando com uma matéria de grande relevância econômica e social. O que buscamos é dar clareza ao consumidor.”
A Frente Parlamentar da Agropecuária orientou voto favorável, com ressalvas técnicas para garantir alinhamento com o regulamento sanitário.
O presidente da bancada, Pedro Lupion, destacou a importância da segurança jurídica.
“Somos favoráveis à clareza na rotulagem e à proteção do consumidor, mas é indispensável que a legislação esteja alinhada às normas sanitárias já consolidadas.”
Extensão rural de SC celebra 70 anos com homenagens
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) realizou sessão especial para celebrar os 70 anos da extensão rural no estado.
Durante a cerimônia, instituições estratégicas do cooperativismo catarinense receberam homenagens, entre elas:
• Fecoagro
• Ocesc
• Faesc
• Fetaesc
As entidades foram reconhecidas pela parceria histórica com o sistema de extensão rural desenvolvido pela Epagri, considerado um dos pilares da produtividade agrícola do estado.
A sessão foi proposta pelo deputado Oscar Gutz, do Alto Vale do Itajaí, e contou com a presença do agrônomo Glauco Olinger, fundador da antiga Acaresc, hoje Epagri, que aos 103 anos emocionou o plenário ao discursar em forma de poesia sobre a relação entre ciência, campo e sociedade.
Ketrin Raitz medeia painel no principal evento de marketing político do país
Brasília recebe entre hoje e amanhã, 5 e 6, a 7ª edição do Reboot, seminário que reúne alguns dos principais nomes da comunicação política do Brasil.
O evento terá participação da jornalista Ketrin Raitz parceira da coluna Política e Agro e diretora de operações do Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP).
Ela será mediadora do painel “Mulheres do CAMP”, na sexta-feira (6), dedicado ao debate sobre o espaço feminino na comunicação política e nas campanhas eleitorais.
Entre os participantes confirmados, também estão:
• João Santana, ex-marqueteiro de Lula e Dilma
• Duda Lima, ex-marqueteiro de Jair Bolsonaro
• Felipe Nunes, fundador da Quaest
• Antoni Gutiérrez-Rubí, estrategista internacional
• João Tocha, consultor português
Brasília decide, o agro acompanha
Nesta semana, o Congresso discutiu jornada de trabalho, crédito, pesca, rotulagem e proteção sanitária.
Temas diferentes, mas conectados por uma mesma pergunta: como equilibrar regulação, competitividade e emprego?
O agro acompanha cada decisão de perto porque no fim das contas, quando a lei muda em Brasília, a conta chega primeiro no campo.






