
O agro brasileiro começou a semana com um recado claro: o Brasil exporta mais, mas ganha sob pressão.
Em fevereiro, os embarques do setor atingiram US$ 12,05 bilhões, o maior valor da série histórica para o mês, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
O saldo da balança comercial do agro passou de US$ 10,5 bilhões.
No papel, é um resultado robusto.
Na prática, é um desempenho que convive com custos em alta, margens comprimidas e um cenário internacional cada vez mais instável.
Quem segura a conta é a soja.
Soja puxa e sustenta o agro
O complexo soja liderou as exportações em fevereiro, com US$ 3,78 bilhões, o equivalente a 31,4% de tudo o que o agro brasileiro vendeu ao exterior no mês.
Na sequência aparecem:
- proteínas animais: US$ 2,7 bilhões
- produtos florestais: US$ 1,27 bilhão
- café: US$ 1,12 bilhão
- complexo sucroalcooleiro: US$ 861 milhões
A China segue como principal destino, com 30,5% das compras, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos.
Segundo o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o desempenho reflete a expansão da produção nacional.
“O Brasil caminha para uma safra recorde nos produtos vegetais e produção crescente nas proteínas animais, ampliando o excedente exportável.”
Ou seja: o agro continua fazendo a sua parte.
O problema está do outro lado da porteira.
Boi, algodão e trigo: mercado pede estratégia
Enquanto a soja puxa os números, outras cadeias entram na segunda quinzena de março pedindo cautela.
Análise da Markestrat Group aponta recomposição de preços em três frentes: boi gordo, algodão e trigo.
No trigo, o movimento é de valorização, impulsionado por ajustes recentes e incertezas sobre área plantada.
No algodão, o mercado acompanha o desenvolvimento da safra e o cenário internacional.
Já na pecuária, há sinal de sustentação, com menor pressão de oferta e melhora na rentabilidade do confinamento.
Mas um fator continua no radar de todos:
o custo.
E, principalmente, o diesel.
Diesel volta à pauta com atraso e pressão
O debate sobre combustível segue no centro da agenda do agro.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve discutir amanhã (19) o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, pauta que já deveria ter avançado e foi adiada.
A discussão ocorre em meio à escalada do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio e à pressão do setor por previsibilidade.
Hoje, a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) prevê avanço gradual da mistura até B20 em 2030.
Mas o setor já quer mais.
Segundo a AliançaBiodiesel, formada pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e pela Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), a capacidade instalada já permitiria chegar a 21,6%.
O problema não é técnico.
É decisório.
FPA liga o alerta geopolítico
A tensão internacional também entrou oficialmente na pauta política.
Na reunião-almoço de ontem, 17, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) debateu os impactos do conflito no Oriente Médio sobre o agro.
Energia, fertilizantes e logística internacional foram apontados como os principais pontos de risco.
A leitura da bancada é clara: a crise não é localizada.
É sistêmica.
FAESC pede corte de imposto sobre diesel em SC
Em Santa Catarina, o alerta virou pedido formal.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC) solicitou ao governo estadual a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o diesel.
O argumento é direto: o combustível já carrega uma carga tributária média de 38,4%.
Para o presidente da entidade, José Zeferino Pedrozo, o momento exige resposta imediata.
“Os efeitos desse cenário sobre os custos de produção e a atividade econômica nacional geram grande preocupação.”
A entidade defende uma redução temporária como forma de aliviar o custo logístico, conter a inflação e preservar a atividade no campo.
No fundo, é o agro dizendo ao Estado:
o problema já chegou na porteira.
Mercosul–UE: Congresso promulga acordo
No meio da turbulência, Brasília tenta avançar na agenda comercial.
O Congresso Nacional promulgou ontem, terça-feira (17), o decreto que ratifica o Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia.
O tratado prevê:
- redução de tarifas para 91% dos produtos importados pelo Mercosul
- e para 95% dos produtos europeus
A expectativa é que o acordo entre em vigor em até 60 dias.
No papel, é avanço.
Na prática, o agro ainda observa com cautela os impactos sobre competitividade.
Maçã catarinense vira vitrine para a agricultura familiar
Enquanto grandes temas dominam Brasília, o interior mostra outro movimento.
A Cooperativa de Agricultura Familiar (CAF) Serrana, do Espírito Santo, visitou regiões produtoras de maçã em Santa Catarina para conhecer tecnologia, manejo e organização produtiva.
A agenda reforça os efeitos da Lei nº 15.226/2025, que ampliou de 30% para 45% a obrigatoriedade de compra de alimentos da agricultura familiar.
Na prática, a política pública está criando mercado.
E fortalecendo cooperativas.
Exporta mais, pressiona mais
A fotografia da semana é clara.
O agro brasileiro bate recorde de exportação.
Mas enfrenta:
- custo logístico elevado
- diesel pressionado
- incerteza internacional
- e decisões políticas ainda lentas
A soja sustenta o resultado, mas não resolve o problema.
Porque, no fim das contas, o Brasil continua fazendo muito bem o que sempre fez: produz, exporta e gera superávit.
O que ainda falta é fazer tudo isso com previsibilidade e segurança jurídica.
Boa quarta, Agroamigos!






