13/03/2026

Sexta-feira 13 no agro: entre a agenda do setor e o azar de Brasília


Com o Congresso em ritmo de marcha lenta e o diesel em modo bomba-relógio, a bancada do agro tenta transformar a Agenda Legislativa de 2026 em rota de proteção para quem produz. A coluna Política e Agro esteve no lançamento, na Câmara.

O agro entrega a pauta e cobra ação

Em plena quarta-feira, 11 de março, com ares de prévia para uma sexta-feira 13, nada supersticiosa e bastante concreta, o agro ocupou o plenário da Câmara dos Deputados para fazer o que Brasília anda esquecendo de fazer com frequência: falar de produção, previsibilidade, competitividade e segurança para quem sustenta boa parte da economia brasileira.

A coluna Política e Agro esteve no Congresso acompanhando in loco a sessão solene de lançamento da Agenda Legislativa do Agro 2026, documento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que reúne 100 proposições em tramitação e consideradas estratégicas para o setor.

Mais do que uma cerimônia protocolar, o ato serviu como recado político. O setor produtivo foi ao Parlamento não para posar na foto, mas para cobrar ação. E com razão.

O ambiente externo pesa: guerra, tensão geopolítica, pressão sobre combustíveis, fertilizantes e custos logísticos.

O ambiente interno tampouco ajuda: ano eleitoral, ruído institucional, sessões escassas e um Congresso que, quando deveria acelerar, parece especializado em perder tempo. No meio disso tudo, o campo segue fazendo o que Brasília adora discursar e nem sempre consegue compreender: produzir, apesar do caos.

Foi nesse contexto que o presidente da CNA, João Martins, entregou a agenda ao presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), à senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a parlamentares como o catarinense Rafael Pezenti (MDB-SC), entre outros nomes ligados à defesa do setor.

O gesto teve peso político e simbólico. Na prática, a CNA apresentou ao Congresso um mapa do que precisa andar e do que precisa parar de atrapalhar. João Martins resumiu o espírito da entrega ao defender a necessidade de um Congresso “comprometido com o agro”, lembrando que o setor precisa de apoio para continuar produzindo em um cenário de turbulência.

A agenda não é peça de vitrine

O documento consolida 100 propostas entre mais de 8,7 mil acompanhadas pela área institucional da CNA. Dessas, 62 contam com apoio integral da entidade, 24 recebem apoio com ressalvas e 14 enfrentam oposição da confederação.

A divisão em dois grandes eixos mostra que o agro não está olhando apenas para dentro da porteira: de um lado, estão segurança jurídica e estabilidade do ambiente de negócios; de outro, competitividade e presença no mercado internacional, incluindo infraestrutura, relações internacionais, produção, ciência e tecnologia.

Traduzindo para bom português: sem regra clara, sem logística, sem crédito, sem previsibilidade e sem custo minimamente administrável, não existe potência agropecuária que resista só de discurso bonito.

O agro entrega a pauta. Agora quer entrega de volta

No lançamento, João Martins foi direto ao ponto: a CNA não foi ao Congresso apenas celebrar mais uma edição da agenda, mas apresentar uma proposta concreta ao Parlamento, com críticas construtivas e indicativos do que funciona e do que precisa ser corrigido.

A fala tem endereço. Em Brasília, todo mundo gosta de dizer que o agro é motor do país. O problema é quando chega a hora de abastecer esse motor com segurança jurídica, crédito, seguro e logística.

A recepção da FPA foi de alinhamento total. Pedro Lupion afirmou que as prioridades da bancada são as mesmas da CNA e ressaltou a sintonia com o Instituto Pensar Agropecuária (IPA).

Mas fez o alerta que interessa: o problema não é falta de pauta, é o ambiente político contaminado, num ano eleitoral e de “bagunça institucional”, nas palavras dele, que trava o andamento dos temas relevantes.

Em outras palavras, o agro chegou com a lição pronta; agora quer saber se o Congresso vai trabalhar ou continuar em modo dispersão premium.

Lupion, Tereza e o recado incômodo: o problema já não cabe mais dentro da porteira

A sessão solene mostrou uma percepção comum entre as lideranças do setor: o cenário para 2026 é temeroso, tanto interna quanto externamente. Lupion reconheceu que a agenda é mais do que um guia legislativo é quase um inventário das dificuldades do dia a dia do campo. Endividamento crescente, escassez de crédito rural e seguro insuficiente seguem no centro da preocupação da bancada.

Tereza Cristina tratou do ponto que tende a dominar cada vez mais o debate: geopolítica e geoeconomia. Segundo a senadora, esses temas “vão estar na nossa mesa todos os dias”.

E vão mesmo. O impacto da tensão internacional não para no diesel: alcança fertilizantes nitrogenados, logística, comércio exterior e o custo final da produção. Quando Tereza diz que “o custo não vai fechar”, não é figura de linguagem é aviso de quem conhece a conta por dentro.

Pezenti dá o recado de SC: agenda não é enfeite de gabinete

Entre os discursos do lançamento, um dos mais diretos veio do deputado catarinense Rafael Pezenti (MDB-SC), que se auto definiu como “terrivelmente colono”.

E foi exatamente o tipo de fala que o produtor rural entende sem precisar de tradução simultânea de Brasília. Ao afirmar que o documento “não pode ficar empoeirado nos gabinetes” e precisa virar “missão de serviço” até o fim de 2026, Pezenti resumiu a cobrança que pairava no plenário: menos aplauso performático e mais entrega concreta.

A frase mais forte foi também a mais incômoda para quem gosta de fazer política em modo vitrine: “usar essa tribuna, discursar bonito e bater palma para o produtor não vale nada”. Vale o trabalho efetivo, disse o parlamentar, para garantir a sobrevivência de quem está na ponta.

Santa Catarina, que conhece bem o peso de logística cara, crédito apertado e custo de produção nas alturas, estava ali representada não apenas na foto, mas na cobrança.

Diesel vira emergência política e econômica

Se a geopolítica entrou de vez na pauta do agro, o diesel é hoje seu termômetro mais imediato. A CNA encaminhou ofícios ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) pedindo a redução imediata e temporária de tributos incidentes sobre o diesel da importação à comercialização.

No pedido, a entidade mira a desoneração de PIS, Pasep, Cofins e ICMS.

A conta apresentada pela CNA ajuda a explicar a gravidade. Os tributos federais somam cerca de 10,5% do valor do diesel comercializado, enquanto os estaduais acrescentam, em média, 38,4% ao preço final. Em meio ao plantio e à colheita da segunda safra, o combustível deixa de ser apenas item de planilha e passa a ser fator de risco econômico.

A entidade sustenta que a redução temporária poderia aliviar custos de produção, moderar preços ao consumidor e até contribuir para um ambiente macroeconômico mais estável.

Em resumo: quando até a colheita começa a depender da geopolítica, Brasília já passou da hora de sair do comentário e entrar na solução.

Zé Trovão reage e apresenta quatro medidas contra a crise do diesel

O deputado Zé Trovão (PL-SC) levou o tema para o front legislativo e anunciou quatro iniciativas diante do risco de alta e desabastecimento de diesel.

  1. Projeto de Lei para criar mecanismos de estabilização de preços em momentos de crise internacional
  2. Indicação ao Governo Federal pedindo ação administrativa imediata
  3. Requerimento de Informação ao Ministério de Minas e Energia
  4. Solicitação de Audiência Pública com ministro e presidente da Petrobras

Zé Trovão resumiu o tom: o Brasil não pode ficar refém da instabilidade internacional nem deixar que o setor de transportes pague sozinho a conta da crise. “O Brasil precisa de segurança energética e respeito com quem carrega esse país nas costas.”

É a velha máxima atualizada: quando o combustível sobe, não é só o caminhão que sente é a cadeia inteira.

Infraestrutura rural avança

Na mesma quarta, a Comissão de Viação e Transportes aprovou o PL 4673/2024, que cria o Programa de Infraestrutura Rural Sustentável, de autoria do deputado Adriano do Baldy (PP-GO).

O programa prevê:

  • construção de novas estradas vicinais
  • manutenção permanente
  • uso de tecnologias sustentáveis

O relator, Neto Carletto, destacou que estradas vicinais são o elo entre produção e consumo.

O projeto segue agora para a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR).

Ou seja: se Brasília quiser mesmo mostrar serviço ao campo, pode começar pelo básico que falta há décadas estrada que permita sair da porteira sem transformar logística em penitência.

Sorte ou pressão?

O agro lançou sua agenda em plenário cheio.

Mas o cenário não é trivial:

  • guerra no radar
  • diesel pressionado
  • crédito restritivo
  • ano eleitoral batendo à porta

A sexta-feira 13 do agro não é sobre superstição: é sobre urgência!

A Agenda Legislativa 2026 é uma tentativa clara de organizar prioridades antes que Brasília pare de uma vez para disputar votos.

Resta saber se o Congresso conseguirá entregar estabilidade em meio ao ruído político.

Porque, no campo, calendário eleitoral não adia plantio.

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