02/03/2026

Março começa com cebola no choro e a pauta trabalhista no aquecimento

Fôlego agora, regra depois

A crise da cebola bateu à porta do governo e o produtor precisa de fôlego agora.

Ao mesmo tempo, Brasília esquenta a pauta trabalhista: a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) confirmou que a reunião de amanhã, 3, terá como pauta central a modernização da jornada de trabalho.

O timing não é detalhe: o campo pede prazo para respirar; o Congresso discute regra para produzir. Se as duas agendas não conversarem, a conta cai no colo de quem planta.

Cebola no MDA: Pezenti cobra 36 meses de fôlego e leva ofício da APROCESC

Na semana passada, o deputado Rafael Pezenti (MDB–SC) esteve no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) para cobrar resposta concreta ao colapso de preços da cebola enfrentado por produtores do Alto Vale do Itajaí (Ituporanga e região).

A principal reivindicação levada ao governo foi a prorrogação das dívidas rurais por até 36 meses, como medida emergencial para evitar inadimplência em massa e perda de capacidade produtiva.

“O produtor não quebrou porque quis. O preço desabou, os custos subiram e a política agrícola não acompanhou. Sem fôlego agora, empurramos famílias para a inadimplência e o abandono da atividade”, afirmou o parlamentar.

Pezenti protocolou no ministério o Ofício nº 019/2026 da APROCESC (Associação dos Produtores de Cebola de Santa Catarina), que reúne quatro reivindicações estruturais do setor:

  1. Revisão do Manual de Crédito Rural (MCR) para alongar o prazo de reembolso do custeio da cebola (hoje concentrado em até 60 dias após a colheita) para até 180 dias ou até 16 meses após a contratação, reconhecendo a prática de armazenamento recomendada pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri);
  2. Revisão do Programa de Garantia de Preços da Agricultura Familiar (PGPAF) para que o bônus de desconto seja por hectare, e não apenas por operação, já que o teto atual não cobre nem de longe o custo real da lavoura;
  3. Regra excepcional no Conselho Monetário Nacional (CMN) para permitir a prorrogação sem bloquear novo crédito ao produtor, evitando que a renegociação vire trava para o próximo plantio;
  4. Revisão do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) com um sistema de “classe de bônus”, ajustando cobertura e prêmio conforme histórico de acionamentos, sem penalizar culturas distintas dentro do mesmo CPF.

Leitura política: o setor cansou do “jeitinho” emergencial e pede regra estrutural para não repetir a crise a cada safra.

MDA reforça renegociação no Pronaf

O MDA orienta produtores de cebola a buscarem renegociação das dívidas no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O processo não é automático: exige pedido formal ao banco, comprovação de dificuldade temporária de pagamento, laudos técnicos quando necessário e análise de viabilidade econômica da unidade produtiva.
O Manual de Crédito Rural (MCR) já permite prorrogação de custeio por até 36 meses, postergar parcelas de investimento e diluir valores vincendos. Há ainda o PGPAF, que concede bônus de desconto quando o preço de mercado fica abaixo do preço de garantia em fevereiro, o bônus para Santa Catarina chegou a 46,43%, com teto de R$ 5 mil por beneficiário.
Tradução para o produtor: a medida evita sujar o nome, mas não devolve margem. É fôlego financeiro, não política de renda.

Crédito rural: comissão da Câmara aprova diretrizes para ampliar acesso de pequenos produtores

A Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados aprovou diretrizes para ampliar o acesso de agricultores familiares e pequenos produtores ao crédito rural. O texto propõe juros menores, prazos mais longos, repactuação automática em caso de perdas climáticas e limites mais razoáveis para exigências de garantias hoje um dos maiores gargalos de acesso ao crédito no interior do país.
O substitutivo cria ainda um sistema eletrônico nacional, integrado ao Open Finance, para permitir que o produtor compare propostas, acompanhe pedidos em tempo real e reduza a assimetria de informação com as instituições financeiras. O limite de renda anual do público-alvo sobe para R$ 500 mil.
Próximo passo: análise nas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça (CCJ).

FPA e Coalizão do Setor Produtivo abrem debate sobre modernização da jornada de trabalho

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e a Coalizão de Frentes do Setor Produtivo reúnem, amanhã, 3, às 12h, confederações patronais, entidades associadas, imprensa e representantes da sociedade civil para um debate ampliado sobre a modernização da jornada de trabalho no Brasil.

O encontro contará com a presença dos presidentes das confederações patronais e do sociólogo e professor José Pastore, que fará uma análise dos impactos da proposta em diferentes setores da economia, incluindo o agronegócio, a agroindústria e a logística áreas fortemente impactadas por mudanças no regime de turnos e escalas.
O objetivo é qualificar o diálogo e construir caminhos para soluções que respondam à demanda social por mudanças, sem comprometer a sustentabilidade das atividades produtivas.

A leitura da bancada do agro é pragmática: modernizar é necessário, importar modelo urbano para a sazonalidade do campo, não.

Mercosul–União Europeia: Câmara ratifica acordo; Senado vota com Tereza Cristina na relatoria

A Câmara dos Deputados ratificou o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), com apoio condicionado da FPA à edição de salvaguardas comerciais para proteger cadeias sensíveis do agro brasileiro. O texto segue agora para o Senado Federal, onde terá como relatora a senadora Tereza Cristina (Progressistas–MS), ex-ministra da Agricultura.
O agro vê oportunidade de acesso a mercados premium, mas cobra simetria regulatória: hoje, a UE prevê gatilhos rápidos para abrir investigações quando importações sobem e preços caem, enquanto o Mercosul ainda não tem travas equivalentes prontas para operar.
Recado do campo: abrir mercado, sim abrir flanco, não.

Hortas urbanas entram no radar da política pública nacional

O Projeto de Lei nº 6.725/2025, de autoria do deputado Duda Ramos (MDB–RR), cria a Política Nacional de Apoio à Produção Alimentar de Proximidade, com foco em hortas urbanas e periurbanas. O texto prevê uso de terrenos públicos ociosos, linhas de crédito e assistência técnica, estímulo a orgânicos, captação de água da chuva, apoio à comercialização local e priorização em compras públicas para escolas e hospitais.
É pauta urbana com impacto direto no agro: reduz desperdício, encurta logística, gera renda local e aproxima produtor e consumidor sem romantizar o custo real de produzir.

Sistema Plantio Direto: Brasília lança oficialmente o 20º Encontro Nacional e o 3º Encontro Mundial

Brasília sedia, nesta terça-feira, 3 de março, o Workshop de Lançamento do 20º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha e do 3º Encontro Mundial do Sistema Plantio Direto, confirmados para os dias 7, 8 e 9 de julho de 2026, também na capital federal.
O evento reúne pesquisadores, produtores, empresas e formuladores de políticas para discutir conservação de solo, redução de custos, produtividade, resiliência climática e agricultura regenerativa. Um dos destaques da programação do workshop é a palestra de Rafael Fuentes, da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP) e do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), sobre a integração entre Plantio Direto e Agricultura Regenerativa.
Na prática, é agenda técnica que vira política pública: errando menos no solo, gasta-se menos no bolso e perde-se menos no clima.

Fôlego sem regra vira atraso; regra sem fôlego vira custo

Março começa com o campo pedindo prazo para respirar e o Congresso aquecendo regra para produzir.

Renegociar dívida evita calote; modernizar jornada sem faseamento encarece; abrir mercado sem salvaguarda expõe.
O agro topa competir – desde que a política aprenda o ritmo da lavoura.

Boa semana e um março produtivo, meus agroamigos!

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