
O agro brasileiro começa a semana com uma contradição clássica de Brasília:
no papel, mais crédito.
na prática, mais risco.
A nova lei que amplia as garantias do Pronaf entra em vigor prometendo destravar financiamento para a agricultura familiar.
Ao mesmo tempo, a guerra no Oriente Médio encarece fertilizante, trava a queda dos juros e já complica o desenho do Plano Safra 2026/27.
E, no campo, Santa Catarina acende um alerta que não depende de mercado nem de política: praga nova, resposta imediata.
Pronaf ganha reforço e crédito tenta chegar onde antes travava
Entrou em vigor a Lei nº 15.356/2026, que permite ao Fundo Garantidor de Operações (FGO) garantir financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Na prática, o governo liberou até R$ 500 milhões do fundo para ampliar as garantias de crédito.
O objetivo é direto:
Reduzir o risco para os bancos
Ampliar o acesso ao crédito
Incluir produtores que não têm garantias tradicionais
Como explicou o autor do projeto, senador Jaques Wagner (PT-BA):
“O uso do FGO reduz o risco percebido pelas instituições financeiras e amplia o acesso ao crédito.”
Também há outro ponto importante:
Não haverá cobrança de taxa pelo uso da garantia
Ou seja, o crédito tende a ficar mais barato e mais acessível.
No papel, é avanço.
Na prática, o desafio continua sendo o mesmo: transformar crédito disponível em crédito acessível.
Mercosul–UE começa a rodar e agro entra em novo jogo global
O acordo entre Mercosul e União Europeia começa a ser aplicado provisoriamente a partir de 1º de maio.
Depois de mais de 25 anos de negociação, o tratado entra em fase prática mesmo com resistências dentro da Europa.
O impacto é grande:
- acesso a um mercado de 451 milhões de consumidores
- redução de tarifas
- regras comuns de comércio
Mas o acordo já nasce tensionado.
A França lidera a resistência, temendo impacto sobre seu setor agrícola, enquanto países como Alemanha e Espanha defendem a abertura.
Na prática, o agro brasileiro entra em um novo cenário:
Mais mercado
Mais concorrência
Mais exigência
China afrouxa regra da soja e embarque brasileiro respira
Depois de dias de tensão, a soja brasileira ganhou um alívio.
A China aceitou flexibilizar a exigência de tolerância zero para presença de plantas daninhas nos carregamentos.
Na prática:
- cargas travadas poderão seguir
- certificados voltam a ser emitidos
- e o fluxo de exportação é normalizado
O episódio escancarou um ponto importante: o problema não era a soja.
Era o papel.
E, no auge da safra, burocracia vira gargalo logístico.
Plano Safra já nasce pressionado e juros viram obstáculo
Se o presente já preocupa, o futuro chegou mais difícil.
O Plano Safra 2026/27 ainda nem foi lançado e já enfrenta um cenário adverso:
- Selic em 14,75%
- custo de captação elevado
- guerra pressionando insumos
- endividamento crescente no campo
A estimativa é de:
- R$ 865 bilhões de demanda por custeio
- mais de R$ 200 bilhões para investimento
Mas o caixa público não acompanha.
A saída, como sempre, deve vir de:
Engenharia financeira
Instrumentos privados
Mais garantias
Ou seja:
o plano vai existir.
A dúvida é: a que custo?
Praga no campo: SC reage rápido ao caruru-gigante
Se Brasília discute crédito, Santa Catarina age no campo.
A Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina) confirmou um foco de Amaranthus palmeri, o caruru-gigante, em Campo Erê, no Oeste do estado.
Trata-se de uma das plantas daninhas mais agressivas da agricultura.
Os números assustam:
- crescimento de até 3 cm por dia
- produção de até 1 milhão de sementes por planta
- resistência a herbicidas como glifosato
A resposta foi imediata:
- interdição da área
- erradicação das plantas
- monitoramento no entorno
A presidente da Cidasc, Celles Regina de Matos, foi direta:
“Nosso trabalho é célere e estratégico para proteger a produção agrícola, aplicando o protocolo de controle e erradicação da praga.”
O secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, reforçou:
“A atuação conjunta entre governo, órgãos de defesa e produtores é decisiva para conter o foco e preservar a competitividade.”
78 anos de FAESC e um papel que segue central no agro catarinense
Na terça-feira (24), a FAESC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina) completou 78 anos de atuação.
A entidade é uma das principais vozes do setor produtivo no estado, com papel histórico na defesa dos produtores, na articulação política e na construção de políticas públicas para o campo.
Ao longo da trajetória, ajudou a consolidar:
- representação institucional do agro
- capacitação e assistência ao produtor
- fortalecimento das cadeias produtivas
Mais do que história, a FAESC segue sendo peça ativa em um momento em que o agro precisa cada vez mais de organização, voz e estratégia.
Mais crédito, mais risco e SC mostra como se reage no campo
A semana demonstra uma síntese clara.
O agro brasileiro segue entre oportunidades e pressões com mais crédito disponível, novos mercados se abrindo e desafios que não dão trégua.
Mas também reforça um ponto essencial: quando há organização, resposta técnica e representação forte, o campo não fica à deriva.
A atuação da Cidasc, diante de uma praga de alto risco, e a trajetória da FAESC, há 78 anos ao lado do produtor, mostram que estrutura e coordenação seguem sendo os maiores ativos do agro catarinense.
E, em tempos de instabilidade,
é isso que separa reação de resultado.





