27/05/2026

IA catarinense prevê invasoras com até 99% de precisão; uva brasileira chega à União Europeia com tarifa zero 

O agro brasileiro entrou na era em que o produtor não quer mais apenas reagir ao problema, quer prever

A inteligência artificial começou a ocupar um novo espaço dentro do campo brasileiro: a antecipação dos riscos antes mesmo de eles aparecerem na lavoura.

Um estudo inédito desenvolvido em parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Milho e Sorgo), de Minas Gerais, e a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, colocou a IA para analisar a dinâmica das plantas daninhas em sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP).

Na prática, a pesquisa tenta responder uma pergunta que vale milhões em produtividade, herbicida e manejo: onde, quando e em qual cultura o problema tende a aparecer, antes mesmo da infestação começar?

E os resultados chamaram atenção.

Os modelos de inteligência artificial utilizados no estudo chegaram a atingir até 99% de precisão na previsão das culturas mais propensas ao surgimento de plantas daninhas.

O projeto reforça um movimento cada vez mais claro dentro do agro: a agricultura de precisão começa a migrar do monitoramento para a antecipação.

IA da Embrapa e da Univali aprende a prever invasoras no campo

O estudo utilizou ferramentas de inteligência artificial preditiva conhecidas como algoritmos de aprendizado de máquina para cruzar dados de: clima, solo, culturas agrícolas, biomassa, sistemas de manejo e ocorrência de plantas daninhas.

A pesquisa foi conduzida em sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) no Cerrado, em Sete Lagoas (MG), utilizando áreas com milho consorciado com braquiária, sorgo com braquiária, soja e pastagem.

Os algoritmos utilizados foram:

  • Support Vector Machine;
  • Decision Tree;
  • Random Forest;
  • e K-Nearest Neighbors.

Segundo a doutora em Matemática e Ciência de Dados, Ana Letícia Becker Gomes Luz, os modelos Decision Tree e Random Forest apresentaram os melhores resultados, atingindo 99% de precisão.

“Trata-se de um procedimento tecnicamente viável e eficaz”, afirmou o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Maurílio Fernandes de Oliveira.

Segundo ele, a ferramenta ajuda diretamente na tomada de decisão dentro da propriedade rural.

“O uso dessa técnica em plataformas computacionais pode contribuir na decisão de qual herbicida é mais adequado considerando a área de plantio”, explicou.

Menos “aplica em tudo” e mais manejo cirúrgico

O diferencial do projeto não está apenas em identificar plantas daninhas, mas em antecipar os fatores que favorecem o surgimento delas antes mesmo da emergência.

Na prática, a IA começa a funcionar como uma espécie de previsão do tempo do mato invasor.

O sistema consegue indicar áreas mais propensas, culturas mais vulneráveis, períodos críticos e até auxiliar na escolha mais eficiente de herbicidas. Isso reduz desperdício, custo operacional e pressão ambiental.

Segundo os pesquisadores, os modelos integrados de lavoura-pecuária já apresentam naturalmente menor incidência de plantas daninhas devido à cobertura do solo promovida pelas forrageiras, especialmente a braquiária.

A lógica é simples: quanto mais cobertura e equilíbrio no sistema, menor espaço para invasoras.

“O bolso do produtor agradece, e o ambiente também não reclama”, resume o estudo.

Santa Catarina ganha protagonismo em agricultura preditiva

O trabalho faz parte da dissertação de mestrado “Modelos de aprendizado de máquina para predição de dinâmicas populacionais de plantas daninhas em sistemas ILP”, desenvolvida na Univali sob orientação da professora Anita Maria Fernandes e do pesquisador Maurílio Oliveira.

A pesquisa integra dois projetos estratégicos:

  • o projeto SORaIA, da Embrapa, focado em soluções baseadas em inteligência artificial para eficiência produtiva;
  • e a Plataforma para monitoramento e recomendações de controle de plantas daninhas, vinculada ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A parceria coloca Santa Catarina dentro de um dos debates mais modernos do agro mundial, que é o uso de IA generativa e preditiva no manejo agrícola.

30 pesquisadores da Embrapa entram no radar global da ciência

A semana também trouxe outro reconhecimento importante para a pesquisa agropecuária brasileira.

A Embrapa colocou 30 pesquisadores entre os cientistas mais citados do mundo no ranking internacional da plataforma Research.com. O número representa crescimento de 25% em relação ao ano anterior.

O levantamento analisou mais de 175 mil pesquisadores ativos em mais de 70 países e utilizou o chamado Discipline H-index, indicador que combina produção científica e volume de citações em cada área.

Os pesquisadores da Embrapa apareceram em oito disciplinas científicas diferentes. Segundo a plataforma, o objetivo do ranking é destacar profissionais que impactam suas áreas de atuação e ajudam a impulsionar inovação global.

Na prática, o resultado reforça o peso internacional da pesquisa agropecuária brasileira.

Porque antes de virar produtividade, bioinsumo, semente, genética ou tecnologia no campo, alguém passou anos brigando com artigo científico, dado estatístico e revisor acadêmico exigente.

Nova cebola da Embrapa promete ampliar produção no verão

Outra novidade apresentada nesta semana pela Embrapa, foi a cultivar híbrida de cebola BRS Belatriz, desenvolvida para cultivo de verão nas regiões Centro-Oeste e Sudeste.

A nova variedade foi criada para suportar altas temperaturas, chuvas intensas e doenças comuns do período mais quente do ano.

Segundo o agrônomo Valter Oliveira, o diferencial está justamente na adaptação ao calor extremo.

“O produtor já plantava cebola nesse período, mas utilizava materiais desenvolvidos para cultivo de inverno, aumentando os riscos da produção”, explicou.

A BRS Belatriz pode alcançar produtividade próxima de 70 toneladas por hectare e apresenta resistência moderada a doenças como: antracnose, mancha-púrpura, queima foliar bacteriana, além de tolerância ao nematoide-das-galhas.

O lançamento oficial ocorreu na semana passada, durante a AgroBrasília.

Brasil embarca primeira carga de uva com tarifa zero para a União Europeia

O agro brasileiro também celebrou nesta semana a primeira exportação de uvas para a União Europeia com tarifa zero, após a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia.

A carga saiu do Vale do São Francisco com destino ao mercado europeu.

Durante o evento, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que o acordo aumenta competitividade da fruticultura brasileira.

“Estamos concluindo um momento histórico. Essa carga representa mais competitividade para o nosso produto e mais retorno para os produtores”, afirmou.

Segundo o governo, cerca de 75% das uvas exportadas pelo Vale do São Francisco têm como destino o mercado europeu.

O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller, destacou que o acordo já começa a gerar resultados concretos para a fruticultura nacional.

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