04/06/2026

Governo Lula admite dumping no leite, mas tenta desarmar pautas do agro antes do plenário

O campo pede socorro e Brasília pede cautela

O Dia Mundial do Leite, celebrado em 1º de junho, deveria ser uma data para destacar a força de uma cadeia presente em praticamente todos os municípios brasileiros. Mas, neste ano, o sentimento predominante entre os produtores foi outro: frustração.

Depois de quase dois anos de investigação, o governo federal reconheceu oficialmente a prática de dumping nas exportações de leite em pó da Argentina e do Uruguai para o Brasil, mas decidiu adiar a aplicação das tarifas antidumping. A justificativa foi a preocupação com possíveis impactos na inflação dos alimentos e nas relações diplomáticas dentro do Mercosul.

A decisão provocou reação imediata da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de entidades ligadas à produção leiteira. Em estados como Santa Catarina, quarto maior produtor nacional, a avaliação é que o reconhecimento sem punição prática pouco muda a realidade de quem produz.

Enquanto isso, o governo também tenta conter o avanço de projetos considerados prioritários pelo agro no Congresso. O embate sobre dívidas rurais, seguro rural e fertilizantes promete dominar Brasília nas próximas semanas.

Dumping reconhecido, tarifa suspensa e crise mantida

A decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) foi recebida com indignação pelo setor leiteiro. O próprio governo reconheceu que exportadores argentinos e uruguaios praticam dumping no mercado brasileiro, com margens superiores a 60%, mas optou por suspender os efeitos das tarifas enquanto realiza uma análise de interesse público.

O presidente da FPA, deputado federal Pedro Lupion, foi direto ao criticar a medida.

“Não adianta reconhecer que há mais de 60% de dumping nesse leite em pó que entra no Brasil e não aplicar as tarifas antidumping. Isso está afetando diretamente a cadeia produtiva, tirando produtores da atividade e gerando prejuízos para pequenos municípios brasileiros.”

Segundo a CNA, Argentina e Uruguai responderam por cerca de 90% dos 604 milhões de litros equivalentes importados pelo Brasil em 2026. Em muitos casos, o leite chegou ao mercado brasileiro com preços até 53% inferiores aos praticados nos países de origem.

O cenário afeta diretamente Santa Catarina, onde produtores relatam dificuldade para cobrir os custos de produção e crescente abandono da atividade.

No Dia Mundial do Leite, setor cobra ação e não homenagens

A data criada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) deveria celebrar uma cadeia que movimenta cerca de R$ 72 bilhões por ano, produz mais de 35 bilhões de litros e está presente em aproximadamente 1,1 milhão de propriedades rurais brasileiras.

Mas o clima entre produtores foi de preocupação.

A deputada federal Ana Paula Leão, coordenadora da subcomissão do leite da Câmara, afirmou que o avanço das importações está agravando a situação econômica de milhares de famílias rurais.

“Estamos falando de uma cadeia produtiva que sustenta milhares de famílias no campo. O debate precisa envolver competitividade, política agrícola e equilíbrio no comércio internacional.”

Uma nova reunião da Camex está marcada para 25 de junho, quando o governo poderá finalmente decidir sobre a aplicação efetiva das tarifas antidumping.

Governo tenta desarmar pautas do agro antes que cheguem ao plenário

Nos bastidores de Brasília, a equipe econômica trabalha para reduzir os impactos fiscais de propostas que avançaram nas últimas semanas e contam com apoio da bancada ruralista.

Na mira estão quatro temas principais:

  • renegociação das dívidas rurais;
  • novo marco do seguro rural;
  • Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert);
  • e dispositivos do PLP 114 ligados ao setor de combustíveis.

O caso mais delicado continua sendo o projeto de renegociação das dívidas do agro, que prevê cerca de R$ 130 bilhões em operações. A Fazenda já sinalizou que pretende buscar mudanças no texto durante a tramitação, apresentar alternativas mais restritivas e, em último caso, recomendar vetos presidenciais.

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária, Guilherme Campos, reconheceu que a discussão sobre dívidas, seguro rural e Plano Safra se tornou inseparável.

“Plano Safra, seguro rural e endividamento caminham lado a lado. O que fizer em um tem impacto no outro.”

Tarifaço dos Estados Unidos poupa agro brasileiro

Nem toda notícia veio acompanhada de preocupação.

O governo dos Estados Unidos anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após concluir investigação comercial baseada na chamada Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.

Mas uma parte importante do agro ficou fora da lista.

Carnes, frutas, café, chá, cereais, sementes, fertilizantes, plantas medicinais e diversos outros produtos agrícolas foram incluídos nas exceções propostas pelos americanos.

A avaliação de especialistas é que Washington evitou atingir diretamente cadeias capazes de gerar inflação alimentar dentro dos próprios Estados Unidos.

As medidas ainda passarão por consulta pública, antes de eventual implementação.

China reconhece Brasil livre de febre aftosa e amplia oportunidades para carnes

Em outra frente internacional, o agro recebeu uma notícia aguardada há mais de duas décadas.

A China reconheceu oficialmente todo o território brasileiro como livre de febre aftosa. A decisão encerra um processo de negociação que durou mais de 20 anos e abre espaço para ampliação das exportações de carne bovina e suína.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a medida aumenta a previsibilidade do comércio bilateral e cria condições para novas negociações envolvendo produtos de maior valor agregado.

Para Santa Catarina, a mudança também tem relevância especial. Até agora, o estado era o único autorizado a exportar determinados produtos suínos com osso e miúdos para o mercado chinês. O novo reconhecimento amplia as possibilidades de negociação para toda a cadeia brasileira.

Santa Catarina investe em tecnologia para proteger o status sanitário

Na sexta-feira, 29, o governo catarinense lançou o Programa Olho Bom, iniciativa da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) voltada à modernização da defesa agropecuária estadual.

O projeto prevê investimento de R$ 44 milhões em tecnologia, inteligência de dados, fiscalização móvel e monitoramento em tempo real do trânsito agropecuário. Entre as aquisições estão 40 caminhonetes, 80 tablets e novos equipamentos para fiscalização.

“O produtor rural tem direito a essa segurança”, afirmou a presidente da Cidasc, Celles Regina de Matos.

Entre o discurso e a porteira

O Dia Mundial do Leite expôs uma contradição que o agro conhece bem. O governo reconhece que existe concorrência desleal, reconhece que há produtores operando no prejuízo e reconhece a importância estratégica da cadeia leiteira. Mas, quando chega a hora de decidir, a solução continua sendo adiar.

Enquanto isso, o Congresso avança em propostas para crédito, seguro e renegociação de dívidas, a China abre portas para as carnes brasileiras e Santa Catarina investe para preservar um patrimônio que levou décadas para ser construído: a credibilidade sanitária.

Para quem está no campo, a diferença entre discurso e decisão continua valendo mais do que qualquer comemoração de calendário.

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