
Passado o feriado de Páscoa e a pausa estratégica Brasília retoma os trabalhos com uma semana que já começa pesada.
O governo federal entrou em campo para tentar conter os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os combustíveis, editando Medida Provisória, enviando projeto de lei e publicando decretos com impacto direto no custo do agro.
O pacote inclui subvenção ao diesel importado e nacional, isenção de tributos sobre biodiesel e querosene de aviação e até linhas de crédito para o setor aéreo. Na prática, é uma tentativa de segurar o repasse da crise geopolítica para dentro da porteira.
Funciona?
Talvez no curto prazo.
Resolve?
Ainda não.
Porque, no campo, o problema já deixou de ser apenas custo.
É renda.
E é aí que a pauta começa a mudar.
Energia, agro e política o biodiesel ganha tração
A agenda da transição energética avançou e com carimbo do agro.
O Conselho Nacional de Política Energética aprovou diretrizes que fortalecem o biodiesel social e dão os primeiros passos para a inserção do biometano na matriz energética brasileira.
O deputado Arnaldo Jardim resumiu o momento: é a consolidação da agroenergia como eixo estratégico.
Entre os pontos:
- exigência de que pelo menos 80% do biodiesel venha de produtores com Selo Biocombustível Social
- mistura de 0,5% de biometano ao gás natural
- reforço da agricultura familiar dentro da política energética
Na prática, o agro deixa de ser só consumidor de energia e passa a ser produtor estratégico dela.
Seguro rural volta ao centro agora com urgência
Se tem um tema que volta com força total nesta semana é o seguro rural.
A Comissão de Agricultura da Câmara coloca como prioridade para 2026 o avanço do PL 2.951/2024, de autoria da senadora Tereza Cristina.
O projeto amplia o alcance do seguro para além da lavoura incluindo pecuária, aquicultura e outras atividades e tenta transformar o seguro em instrumento estrutural, e não emergencial.
A leitura no Congresso já é clara: o modelo atual não está dando conta.
Com inadimplência crescente e cooperativas pressionadas, o seguro deixa de ser opção e passa a ser necessidade.
FPA volta com alerta duplo: seguro e crédito sob pressão
A Frente Parlamentar da Agropecuária retomou sua reunião-almoço ontem, dia 7, com dois temas sensíveis:
- fortalecimento do seguro rural
- impacto das novas exigências para crédito com base no Prodes (monitoramento de desmatamento)
O setor vê risco de:
- aumento de custo operacional
- insegurança jurídica
- restrição ao financiamento
Tradução direta de Brasília: o crédito pode ficar mais caro e mais difícil.
Ituporanga vira epicentro entre seminário, festa e crise
Se Brasília discute instrumentos, Santa Catarina mostra a realidade.
Ituporanga, capital nacional da cebola, reúne nesta semana dois movimentos que dizem muito sobre o momento do setor: de um lado, o XXXVI Seminário Nacional da Cebola (Senace), que acontece de 7 a 9 de abril, com foco técnico, inovação, mercado e perspectivas da cultura;
de outro, a 28ª Festa Nacional da Cebola (FENACE), que segue até o dia 12, ampliando o debate para o público, negócios e valorização da cadeia produtiva.
Ou seja: é o agro discutindo o presente e tentando sustentar o futuro.
O evento reúne produtores, pesquisadores, técnicos e empresas em um dos momentos mais delicados da cebolicultura nos últimos anos.
E os números não deixam dúvida:
• consumo caiu de 8–9 kg para 6–7 kg por pessoa/ano
• cerca de 50% da produção foi vendida abaixo do custo
• prejuízo pode chegar a R$ 20 mil por hectare
• perdas estimadas em até R$ 300 milhões em Santa Catarina
Enquanto cerca de 40% da safra ainda permanece armazenada, esperando um mercado que ainda não reagiu.
O problema não é técnico.
É estrutural.
Produção alta, consumo fraco e mercado desorganizado colocam o produtor em um cenário onde eficiência já não resolve.
Ketrin Raitz leva Brasília para dentro da lavoura
E é nesse ambiente que a jornalista Ketrin Raitz, parceira desta coluna, entra em campo, literalmente.
Na noite de segunda-feira, 6, ela participou de um encontro técnico com 350 produtores em Ituporanga, a convite da Corteva, levando uma leitura direta do que está acontecendo em Brasília e do que ainda não chegou.
O diagnóstico foi claro: produzir bem já não garante renda, previsibilidade nem segurança.
Ketrin tocou no ponto que muitos produtores sentem, mas nem sempre verbalizam:
- falta de proteção de mercado
- fragilidade das cadeias não integradas
- distância entre decisão política e realidade do campo
E fez o alerta que ecoa no evento:
Sem organização e pressão, a pauta não anda.
Crédito cooperativo segue avançando e segura parte da base
No meio da turbulência, o Sicredi segue ampliando presença e consolidando seu papel no agro.
A instituição fechou 2025 com:
- R$ 455 bilhões em ativos
- R$ 118,8 bilhões em crédito rural
- quase 10 milhões de associados
Com presença em mais de 2,2 mil municípios, o modelo cooperativo segue sendo, para muitos produtores, a diferença entre acessar crédito ou ficar de fora.
Da lavoura ao Congresso e de volta à realidade
Brasília discute diesel, energia, crédito e seguro.
Santa Catarina discute sobrevivência.
Enquanto o agro brasileiro avança na tecnologia, na energia e até na capacidade de produzir em ambientes extremos, como já mostram pesquisas lideradas pela Embrapa, a base produtiva segue enfrentando um problema antigo e cada vez mais urgente: o mercado não está organizado para garantir renda.
A cebola expõe isso com clareza.
E talvez por isso Ituporanga, nesta semana, diga mais sobre o futuro do agro do que muita reunião em Brasília.
Porque, no fim, não é sobre produzir mais, é sobre conseguir continuar produzindo.





