10/03/2026

Energia, mercado e custo do trabalho entram na conta do agro

A semana começa com três debates que pesam diretamente na planilha do agronegócio brasileiro: energia, comércio internacional e custo do trabalho.

Enquanto o Conselho Nacional de Política Energética discute o futuro da mistura obrigatória de biodiesel, entidades do agro pressionam por uma ampliação da participação do biocombustível para reduzir o impacto da alta do petróleo. Ao mesmo tempo, os efeitos das tensões comerciais ainda aparecem nas exportações catarinenses.

E no Congresso, a proposta de fim da jornada 6×1 segue provocando reação do setor produtivo agora com sinais de que a votação pode ficar para depois das eleições.

No agro, o recado continua o mesmo: energia, mercado e mão de obra seguem definindo competitividade.

Biodiesel volta ao debate e reacende discussão sobre avanço do B16

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve discutir na quinta-feira (12) possíveis mudanças nas regras da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel comercializado no país. Atualmente, o percentual está fixado em 15%.

Pelo cronograma original da política nacional de biocombustíveis, a mistura deveria ter avançado neste ano para 16% (B16), com implementação a partir de 1º de março de 2026.

A inclusão do tema na pauta do conselho reacendeu o debate no setor, principalmente diante da possibilidade de revisão das regras de cumprimento da mistura obrigatória.

Entre os pontos em análise está uma minuta de resolução que determina que 80% do biodiesel utilizado na mistura seja produzido por usinas com o Selo Biocombustível Social, certificação vinculada à compra de matéria-prima da agricultura familiar.

Dependendo da redação final da norma, representantes da indústria avaliam que até 20% do biodiesel poderia não cumprir esse requisito, abrindo espaço para biodiesel importado um cenário que preocupa parte da cadeia produtiva nacional.

O debate também ganhou dimensão política. Três frentes parlamentares divulgaram manifesto defendendo a implementação imediata do B16, argumentando que a medida pode reduzir a dependência brasileira da importação de diesel.

Hoje, mesmo sendo um grande produtor de petróleo, o Brasil ainda importa cerca de 25% do diesel que consome, mantendo o mercado interno sensível a crises geopolíticas e à volatilidade do preço internacional do petróleo.

CNA pede avanço para B17 diante da alta do petróleo

Paralelamente ao debate no CNPE, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) encaminhou ao Ministério de Minas e Energia pedido para elevar a mistura obrigatória de biodiesel dos atuais 15% para 17% (B17).

A solicitação foi motivada pelas recentes tensões geopolíticas no Oriente Médio, que elevaram o preço do barril de petróleo Brent para US$ 84, acumulando valorização de cerca de 20% desde o fim de fevereiro.

Segundo a entidade, ampliar a participação do biodiesel poderia reduzir a exposição do Brasil às oscilações internacionais do petróleo e diminuir pressões logísticas e de custo sobre setores produtivos.

No ofício enviado ao ministro Alexandre Silveira, o presidente da CNA, João Martins, defendeu que antecipar o aumento da mistura ajudaria a garantir segurança energética e estabilidade de preços.

Outro fator favorável citado pela entidade é o atual momento da safra de soja, que amplia a oferta de matéria-prima para a produção de biodiesel e fortalece a competitividade do biocombustível.

CNA apresenta agenda legislativa do agro para 2026

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresenta amanhã (11), às 9h, no plenário da Câmara dos Deputados, a Agenda Legislativa do Agro 2026.

O documento reúne posicionamentos do setor produtivo sobre projetos que tramitam no Congresso e que impactam diretamente o ambiente de negócios no campo.

A agenda está estruturada em dois grandes macroeixos:

Segurança jurídica e estabilidade no ambiente de negócios
Sustentação da competitividade e participação no mercado internacional

O lançamento deve reunir lideranças do agronegócio, parlamentares e especialistas do setor e funciona como um verdadeiro mapa político das prioridades do agro no Congresso.

Tarifas dos EUA ainda pesam nas exportações catarinenses

Mesmo após a derrubada das chamadas tarifas recíprocas dos Estados Unidos, os efeitos do chamado “tarifaço” ainda aparecem nos números do comércio exterior catarinense.

No primeiro bimestre de 2026, Santa Catarina registrou US$ 1,697 bilhão em exportações, queda de 4,1% em relação ao mesmo período do ano passado.

O principal impacto veio da forte retração nas vendas para os Estados Unidos, que despencaram 38,1%, fazendo o país cair para a segunda posição entre os destinos das exportações catarinenses.

A China reassumiu a liderança no ranking de destinos, mesmo com recuo de 8,3% nas compras.

Entre os produtos exportados, a carne de aves manteve desempenho positivo, com crescimento de 13% e liderança absoluta na pauta exportadora do estado.

Exportações de proteína animal seguem firmes

No cenário nacional, o desempenho das exportações de proteína animal segue positivo.

Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações brasileiras de carne de frango somaram 493,2 mil toneladas em fevereiro, crescimento de 5,3% em relação ao mesmo mês de 2025.

Em receita, o aumento foi ainda maior: 8,6%, totalizando US$ 945,4 milhões, o melhor resultado já registrado para o mês.

A China reassumiu a liderança entre os destinos, seguida por Emirados Árabes Unidos, Japão e Arábia Saudita.

Santa Catarina permanece como segundo maior exportador nacional, com 104,6 mil toneladas embarcadas no mês.

Jornada 6×1 pode ficar para depois das eleições

O debate sobre o fim da jornada de trabalho 6×1 continua mobilizando o setor produtivo e o Congresso.

Um manifesto assinado por 93 entidades empresariais, reunidas na chamada Coalizão de Frentes Produtivas, foi entregue ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, defendendo o adiamento da votação da proposta.

As entidades argumentam que o tema precisa de debate técnico mais aprofundado e alertam para o risco de decisões precipitadas em ano eleitoral.

O presidente da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo, deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), afirmou que o debate não pode ser conduzido por pressões políticas.

“Precisamos ser responsáveis com o país. Essa discussão não pode virar narrativa eleitoral sem análise dos impactos econômicos”, disse.

Nos bastidores do Congresso, cresce a avaliação de que a votação pode ficar para depois das eleições municipais ou até para 2027.

Santa Catarina atualiza piso salarial do setor agropecuário

Santa Catarina definiu o novo piso regional de salários para 2026 após acordo entre entidades patronais e representantes dos trabalhadores.

O reajuste médio foi de 6,49% nas quatro faixas existentes.

Para o setor agropecuário enquadrado na primeira faixa o piso passa de R$ 1.730 para R$ 1.842.

As demais faixas ficaram definidas em:

R$ 1.908 na segunda faixa
R$ 2.022 na terceira
R$ 2.106 na quarta

O vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC), Clemerson Argenton Pedrozo, destacou que o acordo reafirma o modelo catarinense de negociação direta entre trabalhadores e empregadores.

“Pelo 16º ano consecutivo chegamos a um consenso, consolidando um histórico de diálogo e responsabilidade entre as partes.”

Santa Catarina é o único estado do país em que o piso regional é definido por negociação direta, antes de ser encaminhado como projeto de lei à Assembleia Legislativa.

O agro faz a conta e Brasília decide o preço

Entre biodiesel, exportações e jornada de trabalho, a agenda desta semana mostra que a competitividade do agro não depende apenas da porteira para dentro.

O preço do diesel, o acesso aos mercados internacionais e o custo da mão de obra continuam definindo a capacidade do setor de produzir, transportar e vender.

Enquanto Brasília debate regras e percentuais, no campo o produtor segue fazendo o que sabe fazer melhor: produzir e torcer para que a conta feche no fim da safra.

Uma ótima terça-feira a todos os Agroamigos!

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