16/03/2026

Diesel em chamas e Brasília reage

O agro brasileiro começou a semana olhando para três coisas ao mesmo tempo: o tanque, o frete e Brasília.

E com a mesma sensação: o timing não podia ser pior.

Em plena colheita da soja e com o escoamento da safra no limite, a escalada do petróleo no mercado internacional começou a pressionar o preço e a disponibilidade do diesel em regiões produtoras. Relatos de alta e dificuldade de abastecimento surgiram primeiro no Rio Grande do Sul e logo chegaram ao Paraná e a Mato Grosso.

Foi nesse cenário que o governo federal decidiu agir.

Na quinta-feira (12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, numa tentativa de conter o impacto da crise internacional do petróleo sobre a economia brasileira.

Mesmo com a decisão, o alerta continua aceso no campo.

Os relatos de produtores mostram que o diesel deixou de ser apenas uma variável de custo.

Virou fator de insegurança operacional.

Depois do Rio Grande do Sul, produtores do Paraná e de Mato Grosso passaram a relatar dificuldade para encontrar combustível e aumentos expressivos no preço cobrado no abastecimento a granel nas propriedades.

No Paraná, municípios como Guarapuava, Prudentópolis e Marechal Cândido Rondon já entraram no radar da preocupação. Em alguns casos, a alta chegou a R$ 1,50 ou R$ 2,00 por litro.

Em Mato Grosso, o aumento relatado varia entre R$ 0,50 e R$ 1,00.

A avaliação do técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP Federação da Agricultura do Estado do Paraná, Luiz Eliezer Ferreira, ajuda a traduzir o tamanho da bronca.

“O conflito no Oriente Médio afeta o agronegócio em várias frentes ao mesmo tempo combustível, fertilizantes e exportações. O produtor sente isso imediatamente no custo e na logística.”

Traduzindo para a vida real: quando o diesel sobe ou some, não trava só o caminhão.

Trava o agro.

E quando o agro trava, o resto da economia pega carona.

Ministro tenta acalmar o mercado

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o país não enfrenta risco de desabastecimento.

“Não existe risco de desabastecimento de diesel no Brasil. O país tem estoque e logística suficientes para garantir o fornecimento.”

No campo, porém, o clima ainda é de cautela. A preocupação não é apenas com a disponibilidade, mas com a escalada do preço em plena colheita.

Lula zera PIS e Cofins do diesel

O governo federal anunciou a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel como forma de conter o impacto da crise internacional do petróleo sobre o preço do combustível no Brasil.

A medida foi divulgada na quinta-feira (12), em coletiva no Palácio do Planalto, com a presença dos ministros Rui Costa (Casa Civil), Fernando Haddad (Fazenda) e Alexandre Silveira (Minas e Energia).

A decisão ocorre após a disparada do petróleo provocada pela escalada das tensões no Oriente Médio, envolvendo Israel, Irã e Estados Unidos.

Nos últimos dias, o barril voltou a ultrapassar a marca de US$ 100, pressionando o mercado internacional de combustíveis.

Mesmo sem reajuste oficial da Petrobras, alguns postos já registraram aumento de preço, impulsionado pelo diesel importado e por refinarias privadas, que respondem mais rapidamente às oscilações do mercado internacional.

Oriente Médio pressiona o agro catarinense

A crise geopolítica também acendeu um alerta no agronegócio de Santa Catarina.

O aumento do petróleo e os riscos logísticos no Estreito de Ormuz, principal rota marítima do petróleo mundial, já impactam custos, transporte e previsibilidade de insumos para o setor produtivo.

Dados do Observatório Agro Catarinense indicam que, em 2025, as exportações do agronegócio do estado para países direta ou indiretamente afetados pelo conflito somaram US$ 915 milhões, volume superior ao destinado à União Europeia no mesmo período.

Segundo o analista de socioeconomia e desenvolvimento agrícola da Epagri/Cepa Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina / Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola, Roberth Villazon Montalvan, o risco logístico é crescente.

“Isso representa o envio de grandes volumes de grãos para uma zona de conflito ativo, elevando significativamente os riscos logísticos, financeiros e comerciais.”

A interrupção de rotas no Golfo e no Mar Vermelho já afeta a logística de portos como Navegantes, Itapoá e São Francisco do Sul, reduzindo a disponibilidade de contêineres refrigerados essenciais para as exportações de proteína animal.

O resultado aparece rapidamente: frete mais caro, logística mais lenta e maior pressão sobre as margens do produtor.

Menos imposto, mais mistura

Diante do cenário, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) a redução temporária dos tributos sobre o diesel.

A entidade calcula que PIS, Pasep e Cofins representam cerca de 10,5% do preço do combustível, enquanto o ICMS estadual responde por cerca de 38,4%.

Além da desoneração, 43 entidades do agro defenderam elevar a mistura obrigatória de biodiesel de B15 para B17.

Enquanto o Brasil ainda discute o B17, a Indonésia já opera com B40 e acelera testes para chegar ao B50.

Irã, Ormuz e a conta do produtor

O mercado internacional segue tenso.

Autoridades iranianas já falam em barril de petróleo a US$ 200, enquanto ataques a navios mercantes no Golfo reacendem o alerta sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.

Para a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e entidades do setor, o choque atual pode ter impacto ainda maior que o provocado pela guerra da Ucrânia.

Não é só petróleo mais caro.

É petróleo mais caro em cima de um agro já pressionado por crédito caro, endividamento e margens apertadas.

Farm Bill versão Brasil

Nesse cenário, voltou a ganhar força em Brasília a proposta de uma espécie de Farm Bill brasileira.

A ideia, defendida pelo presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (PP-PR), e pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), é criar um modelo plurianual de política agrícola para substituir a lógica anual do Plano Safra.

O argumento é simples:

o campo trabalha em ciclos.

Brasília insiste em trabalhar em improviso.

Moratória da soja sai do virtual

Outro tema que segue no radar do setor é o julgamento da Moratória da Soja no Supremo Tribunal Federal (STF).

O caso seria encerrado no plenário virtual na sexta-feira (13), mas o ministro Edson Fachin pediu destaque.

Na prática, o processo sai do ambiente virtual e volta para julgamento presencial, ainda sem data definida.

Resultado: a insegurança jurídica continua.

Raízen abre a maior reestruturação extrajudicial da história

A Raízen, controlada por Shell e Cosan, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar R$ 65,1 bilhões em dívidas.

É a maior operação desse tipo já registrada no país.

Quando uma empresa desse tamanho entra em reorganização financeira, o mercado inteiro presta atenção.

Cesta básica sobe

Enquanto Brasília debate petróleo, biodiesel e política agrícola, a realidade aparece no varejo.

Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostrou aumento do custo da cesta básica em 14 das 27 capitais brasileiras em fevereiro.

O diesel pesa no frete.

O frete pesa no alimento.

E o consumidor recebe a conta no fim da cadeia.

Tanque vazio, agenda cheia

O começo da semana deixa uma lição clara.

O problema não é apenas o diesel.

É tudo o que vem pendurado nele: combustível caro, fertilizantes pressionados, crédito apertado, logística no limite e grandes grupos em reorganização financeira.

A decisão de zerar PIS e Cofins tenta aliviar a temperatura do problema.

Mas no campo a leitura continua a mesma: quando o combustível vira incerteza em plena colheita, o alerta já passou da política e chegou à produção.

Boa semana, Agroamigos!

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