09/04/2026

Crédito travado, risco elevado e o agro reage em Brasília

Se tem uma palavra que domina o agro nesta semana, ela não é safra.
É insegurança.

A reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária escancarou um problema que já chegou na ponta: o crédito rural começa a travar e não por falta de recurso, mas por regra.

As resoluções do Conselho Monetário Nacional passaram a exigir consulta ao Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento por Satélite) para liberação de financiamento. A intenção é correta – coibir desmatamento ilegal.

O efeito, nem tanto.

Segundo produtores e parlamentares, há bloqueios mesmo em áreas regulares, sem notificação prévia e sem direito à ampla defesa.

O presidente da FPA, Pedro Lupion, foi direto:

“A questão do Prodes é correta. O problema é que está gerando uma insegurança jurídica enorme para os produtores, que estão sendo embargados sem aviso.”

E não é caso isolado.

Há registros de atividades comuns como renovação de pomar ou manejo produtivo sendo interpretadas como desmatamento.

O resultado: produtor regular sendo tratado como irregular.

Congresso reage e aposta em freio emergencial

A resposta política já começou.

A bancada articula duas frentes:

Via legislativa estruturante

  • PL 2.564/2025
  • PL 205/2025

Via emergencial

  • aprovação de um dos seis Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) para derrubar as resoluções

A leitura é clara: o problema não pode esperar o rito normal.

Quando o satélite erra, quem paga é o produtor

O alerta técnico também veio da Datagro.

O presidente, Plínio Nastari, reforçou que o Prodes cumpre papel essencial, mas gera distorções:

“O sistema identifica atividades normais da produção como desmatamento. A intenção é correta, mas há falso-positivo.”

Segundo dados apresentados, são 5,4 milhões de apontamentos em propriedades rurais parte deles sem comprovação de irregularidade.

Tradução direta: o sistema acerta no macro e erra no detalhe.

E no agro, o detalhe custa caro.

Endividamento ganha tração e vira “tábua de salvação”

Se o crédito trava, a dívida vira o próximo problema.

O PL 5.122/2023 começa a ganhar força no Senado e já é tratado como prioridade pela bancada.

A proposta permite usar recursos do Fundo Social para criar uma linha emergencial de crédito para produtores afetados por eventos climáticos.

Nos bastidores, o diagnóstico é duro: sem alongamento, há risco real de colapso financeiro em regiões inteiras.

Seguro rural: promessa de avanço com atraso acumulado

Outro eixo crítico é o seguro rural.

O PL 2.951/2024 deve avançar na Câmara, com o relator Pedro Lupion prevendo finalizar o texto ainda nesta semana.

O projeto cria, entre outros pontos:

  • fundo de catástrofe
  • ampliação de cobertura
  • estrutura permanente de proteção

Hoje, o cenário é de retração:

  • orçamento do seguro caiu
  • cobertura limitada
  • dependência de medidas emergenciais

O que está em jogo: transformar o seguro em política de Estado e não de crise.

Guerra, combustível e o pedido do agro

Com a escalada dos preços dos combustíveis, a bancada também se move.

A proposta agora é liberar o uso ampliado de biodiesel inclusive o B100 com pedido direto à Agência Nacional do Petróleo.

A lógica é simples: reduzir dependência externa e aliviar custo interno.

Mas, como sempre, o desafio está na execução.

Santa Catarina entra em campo e reforça o alerta

A preocupação não ficou só em Brasília.

A Faesc, alinhada à CNA, também reagiu.

O diagnóstico é o mesmo: a regra do Prodes, como está, gera insegurança jurídica e pode penalizar produtores regulares.

Segundo a entidade, o problema central é a falta de distinção entre:

  • desmatamento ilegal
  • manejo produtivo legítimo

E mais: o ônus da prova fica com o produtor.

Em outras palavras: o sistema acusa e o produtor precisa se defender depois.

Crédito regional entra na pauta

No Senado, o Angelo Coronel apresentou dois projetos para ampliar o acesso ao crédito:

  • PL 1.389/2026
  • PL 1.393/2026

As propostas:

  • fixam percentuais mínimos para Pronaf e Pronamp
  • criam carência automática em caso de eventos climáticos

O foco é o semiárido, mas o sinal é nacional: o crédito precisa se adaptar à realidade climática.

Clima pressiona e o risco volta para a lavoura

Enquanto Brasília discute regra, o clima lembra quem manda.

A formação de um ciclone extratropical e a chegada de uma frente fria colocaram Santa Catarina em alerta, com previsão de:

  • chuva intensa
  • rajadas de vento
  • risco de alagamentos e deslizamentos

Para o agro, isso significa:

  • perda de produtividade
  • risco de doenças
  • aumento de custo

Ou seja: quando o crédito trava e o clima aperta, o risco se multiplica.

Quando a regra trava mais do que a crise

O agro brasileiro já aprendeu a lidar com clima, mercado e custo.

O que ele não consegue absorver é a imprevisibilidade.

A discussão sobre o Prodes não é sobre ser contra controle ambiental.
É sobre como controlar sem travar quem produz corretamente.

Porque, no fim, quando a regra impede o crédito, o problema deixa de ser ambiental e vira econômico.

E esse, quando explode, não fica só no campo!

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