
Brasília desacelera. O agro, não.
A última terça-feira de março chega com o Congresso praticamente parado, esvaziado pela semana da Páscoa e com sessões não deliberativas.
Mas, fora do plenário, o campo segue entregando o que Brasília muitas vezes demora a responder: produção, reação e sinais claros de para onde o setor está indo.
Santa Catarina resume bem esse momento.
Março termina com um cenário misto produtividade em alta, exportações fortes em alguns setores, mas preços pressionados e margem apertada em outros.
No fim, a conta é a mesma: produzir bem já não garante resultado.
E é isso que começa a reorganizar o jogo dentro e fora da porteira.
Agro de SC fecha março entre produtividade, pressão e exportação forte
O balanço do mês mostra um agro catarinense resiliente, mas pressionado.
No arroz, houve reação de preços no início de março, sustentada pela retenção de vendas e menor liquidez. Ainda assim, estoques elevados e avanço da colheita mantêm o produtor no limite da margem.
O feijão surpreendeu com valorização expressiva, com alta superior a 40% no carioca, enquanto o milho seguiu pressionado pela oferta, mesmo com reação no mercado futuro.
O trigo segue travado – comercialização lenta, preços recuando e área em queda.
Na fruticultura, a banana perdeu valor no mercado interno, mas compensou com exportações: alta de 16,3% e liderança nacional, com 47% dos embarques brasileiros.
O alho enfrenta pressão direta da importação, especialmente da Argentina, com produto estocado e dificuldade de comercialização.
A cebola ensaia reação, mas ainda carrega o peso da oferta elevada e das dificuldades logísticas.
Na proteína animal, o cenário é mais positivo:
- carne bovina com exportações em alta
- avicultura com recorde histórico em receita no bimestre
- carne suína mantendo liderança nacional
E o leite volta a respirar, com recuperação de preços e redução da pressão das importações.
O retrato do mês é claro:
Produtividade alta
Mercado instável
Margem apertada
Carne do futuro já mudou e o consumidor também
O mercado consumidor deu um recado direto ao setor.
Pesquisa do movimento “A Carne do Futuro é Animal”, realizada pelo Instituto Qualibest, mostra que 78% dos brasileiros valorizam carne produzida com sustentabilidade e bem-estar animal.
Mais do que tendência, é exigência.
- 47% priorizam redução do impacto ambiental
- 40% destacam segurança e qualidade
- 37% ainda colocam sabor e maciez na decisão
Mas há um alerta importante:
34% não sabem se a pecuária brasileira evoluiu nessas práticas
Ou seja, o setor avançou – mas não comunicou o suficiente.
A carne do futuro já não é só produto.
É narrativa, rastreabilidade e confiança.
Brasil avança na América Central e abre novo mercado para carne bovina
O Brasil habilitou seis frigoríficos para exportação de carne bovina à Guatemala, consolidando a abertura do mercado formalizada em 2025.
Com cerca de 18 milhões de habitantes e mais de US$ 222 milhões importados do Brasil no último ano, o país entra no radar como porta de entrada estratégica na América Central.
É diversificação de mercado e redução de risco.
Num cenário global mais competitivo, quem abre mercado ganha fôlego.
JBS lucra, mas custo do boi nos EUA acende alerta
A JBS fechou 2025 com lucro de US$ 2 bilhões e crescimento consistente de receita.
Mas nem tudo é comemoração.
O boi caro nos Estados Unidos virou problema:
- Ebitda da operação na América do Norte caiu quase 50% no trimestre
- Resultado anual ficou negativo
O movimento mostra um ponto importante:
custo da matéria-prima voltou ao centro do jogo
Enquanto isso, frango e suíno ganham espaço global puxados por preço mais competitivo.
IOF entra na mira e FPA reage em defesa do crédito do agro
A possibilidade de aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para reforçar o caixa do governo acendeu alerta no setor produtivo.
O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na Câmara, apresentou projeto para limitar mudanças no imposto.
O foco é claro:
Proteger o crédito
Garantir previsibilidade
Evitar impacto em instrumentos como LCA, CRA e CPR
A leitura da bancada é direta: usar o IOF como ferramenta arrecadatória de curto prazo compromete investimento e financiamento no agro.
Cebola vai às ruas: crise vira mobilização em SC
Se o mercado aperta, o campo reage.
Produtores de cebola ocuparam a Praça Frei Gabriel, em Ituporanga, com tratores e forte mobilização para chamar atenção para a crise do setor.
O problema não é novo, mas se agravou:
- Preços abaixo do custo
- Aumento dos insumos
- Concorrência com importação
- Dificuldade de comercialização
A manifestação vem na sequência da audiência pública realizada pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), liderada pelo deputado Mário Motta, e às vésperas da 28ª Festa Nacional da Cebola, que acontece de 7 a 12 de abril.
O contraste é forte:
Festa no calendário
Crise no campo
E o recado dos produtores é direto: sem renda, não tem próxima safra.
Produzir bem já não basta
Março termina deixando um diagnóstico claro para o agro.
O problema não é capacidade de produção.
O problema é previsibilidade.
Santa Catarina produziu bem. Exportou bem. Reagiu onde deu.
Mas seguiu pressionada onde mais importa: na margem.
E isso muda tudo.
Porque, quando o produtor começa a questionar se vale a pena plantar de novo, o risco deixa de ser econômico. Passa a ser estrutural.
Abril começa com colheita, mobilização e expectativa.
E com uma certeza: o agro segue forte, mas está cada vez menos disposto a absorver sozinho o custo das decisões.





