31/03/2026

Congresso vazio, agro cheio: março fecha entre pressão, mercado e reação no campo

Brasília desacelera. O agro, não.

A última terça-feira de março chega com o Congresso praticamente parado, esvaziado pela semana da Páscoa e com sessões não deliberativas.

Mas, fora do plenário, o campo segue entregando o que Brasília muitas vezes demora a responder: produção, reação e sinais claros de para onde o setor está indo.

Santa Catarina resume bem esse momento.
Março termina com um cenário misto produtividade em alta, exportações fortes em alguns setores, mas preços pressionados e margem apertada em outros.

No fim, a conta é a mesma: produzir bem já não garante resultado.
E é isso que começa a reorganizar o jogo dentro e fora da porteira.

Agro de SC fecha março entre produtividade, pressão e exportação forte

O balanço do mês mostra um agro catarinense resiliente, mas pressionado.

No arroz, houve reação de preços no início de março, sustentada pela retenção de vendas e menor liquidez. Ainda assim, estoques elevados e avanço da colheita mantêm o produtor no limite da margem.

O feijão surpreendeu com valorização expressiva, com alta superior a 40% no carioca, enquanto o milho seguiu pressionado pela oferta, mesmo com reação no mercado futuro.

O trigo segue travado – comercialização lenta, preços recuando e área em queda.

Na fruticultura, a banana perdeu valor no mercado interno, mas compensou com exportações: alta de 16,3% e liderança nacional, com 47% dos embarques brasileiros.

O alho enfrenta pressão direta da importação, especialmente da Argentina, com produto estocado e dificuldade de comercialização.

A cebola ensaia reação, mas ainda carrega o peso da oferta elevada e das dificuldades logísticas.

Na proteína animal, o cenário é mais positivo:

  • carne bovina com exportações em alta
  • avicultura com recorde histórico em receita no bimestre
  • carne suína mantendo liderança nacional

E o leite volta a respirar, com recuperação de preços e redução da pressão das importações.

O retrato do mês é claro:
Produtividade alta
Mercado instável
Margem apertada

Carne do futuro já mudou e o consumidor também

O mercado consumidor deu um recado direto ao setor.

Pesquisa do movimento “A Carne do Futuro é Animal”, realizada pelo Instituto Qualibest, mostra que 78% dos brasileiros valorizam carne produzida com sustentabilidade e bem-estar animal.

Mais do que tendência, é exigência.

  • 47% priorizam redução do impacto ambiental
  • 40% destacam segurança e qualidade
  • 37% ainda colocam sabor e maciez na decisão

Mas há um alerta importante:
34% não sabem se a pecuária brasileira evoluiu nessas práticas

Ou seja, o setor avançou – mas não comunicou o suficiente.

A carne do futuro já não é só produto.
É narrativa, rastreabilidade e confiança.

Brasil avança na América Central e abre novo mercado para carne bovina

O Brasil habilitou seis frigoríficos para exportação de carne bovina à Guatemala, consolidando a abertura do mercado formalizada em 2025.

Com cerca de 18 milhões de habitantes e mais de US$ 222 milhões importados do Brasil no último ano, o país entra no radar como porta de entrada estratégica na América Central.

É diversificação de mercado e redução de risco.

Num cenário global mais competitivo, quem abre mercado ganha fôlego.

JBS lucra, mas custo do boi nos EUA acende alerta

A JBS fechou 2025 com lucro de US$ 2 bilhões e crescimento consistente de receita.

Mas nem tudo é comemoração.

O boi caro nos Estados Unidos virou problema:

  • Ebitda da operação na América do Norte caiu quase 50% no trimestre
  • Resultado anual ficou negativo

O movimento mostra um ponto importante:
custo da matéria-prima voltou ao centro do jogo

Enquanto isso, frango e suíno ganham espaço global puxados por preço mais competitivo.

IOF entra na mira e FPA reage em defesa do crédito do agro

A possibilidade de aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para reforçar o caixa do governo acendeu alerta no setor produtivo.

O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na Câmara, apresentou projeto para limitar mudanças no imposto.

O foco é claro:
Proteger o crédito
Garantir previsibilidade
Evitar impacto em instrumentos como LCA, CRA e CPR

A leitura da bancada é direta: usar o IOF como ferramenta arrecadatória de curto prazo compromete investimento e financiamento no agro.

Cebola vai às ruas: crise vira mobilização em SC

Se o mercado aperta, o campo reage.

Produtores de cebola ocuparam a Praça Frei Gabriel, em Ituporanga, com tratores e forte mobilização para chamar atenção para a crise do setor.

O problema não é novo, mas se agravou:

  • Preços abaixo do custo
  • Aumento dos insumos
  • Concorrência com importação
  • Dificuldade de comercialização

A manifestação vem na sequência da audiência pública realizada pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), liderada pelo deputado Mário Motta, e às vésperas da 28ª Festa Nacional da Cebola, que acontece de 7 a 12 de abril.

O contraste é forte:
Festa no calendário
Crise no campo

E o recado dos produtores é direto: sem renda, não tem próxima safra.

Produzir bem já não basta

Março termina deixando um diagnóstico claro para o agro.

O problema não é capacidade de produção.
O problema é previsibilidade.

Santa Catarina produziu bem. Exportou bem. Reagiu onde deu.
Mas seguiu pressionada onde mais importa: na margem.

E isso muda tudo.

Porque, quando o produtor começa a questionar se vale a pena plantar de novo, o risco deixa de ser econômico. Passa a ser estrutural.

Abril começa com colheita, mobilização e expectativa.
E com uma certeza: o agro segue forte, mas está cada vez menos disposto a absorver sozinho o custo das decisões.

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