
A última semana cheia de março começa com um recado claro:
o problema deixou de ser pontual virou engrenagem.
Combustível pressionado, logística tensionada e debate trabalhista entrando no radar.
Se na semana passada o diesel já tinha acendido o alerta, agora o sinal ficou mais forte: há risco real de desorganização da cadeia do abastecimento ao escoamento.
E, no meio disso tudo, o agro tenta manter o equilíbrio entre custo, produção e previsibilidade.
Combustível entra em zona de risco
O alerta mais direto veio das distribuidoras.
O Sindicom (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes) enviou ofício ao governo apontando risco ao abastecimento no país.
Segundo a entidade:
- aumento relevante da demanda
- cortes nas cotas de fornecimento
- negativa de pedidos adicionais para março e abril
O diagnóstico é técnico e preocupante:
“O cenário compromete severamente a previsibilidade operacional e o planejamento estratégico dos agentes de distribuição.”
A combinação de choque internacional, instabilidade interna e cancelamento de leilões cria o pior ambiente possível: incerteza na oferta de combustível.
Frete vira disputa e custo entra no centro
Em resposta à pressão dos caminhoneiros, o governo decidiu endurecer a fiscalização da tabela do frete mínimo.
O ministro dos Transportes, Renan Filho, revelou:
- 15 mil infratores identificados
- 40 mil infrações registradas
- R$ 419 milhões em multas recentes
A promessa é apertar o cerco inclusive com possibilidade de suspensão de empresas reincidentes.
Mas a reação do agro foi imediata.
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirma que o modelo atual não reflete a realidade do transporte no país.
“O cenário provoca aumento artificial dos custos logísticos, perda de eficiência nas cadeias produtivas e impacto direto na competitividade do agro, especialmente em setores de grande volume e margem mais apertada”, diz a nota da FPA.
Na prática, o que era para proteger o caminhoneiro pode acabar pressionando ainda mais o custo do agro.
Diesel, biodiesel e decisão que não vem
No meio da crise, a decisão que poderia aliviar parte da pressão segue parada.
A reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que discutiria o aumento da mistura de biodiesel, foi novamente adiada — agora sem nova data.
O setor defende avanço imediato para B17.
O argumento é direto:
- há capacidade produtiva
- o biodiesel está competitivo
- e a medida reduziria dependência externa
Mas, enquanto isso, o petróleo ultrapassa US$ 115 no mercado internacional.
E o Brasil segue esperando reunião.
CNA mira frete marítimo e fertilizantes
Com os fertilizantes já pressionados alta de até 35% na ureia, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) entrou em campo.
A entidade propôs ao Ministério da Fazenda:
Zerar o AFRMM (Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante)
Hoje, as alíquotas chegam a:
- 8% no transporte geral
- até 40% para graneis líquidos
Segundo a CNA, a medida é emergencial:
“Fundamental para mitigar os efeitos de choques externos sobre a economia brasileira.”
O recado é claro: o custo não está só no diesel.
Está em toda a logística.
Ferrovias voltam ao jogo e SC tenta sair do rodoviário
No meio da pressão logística, uma sinalização estrutural apareceu.
A deputada Daniela Reinehr (PL-SC) articulou a inclusão de projetos ferroviários no Fundo Clima.
A medida pode destravar investimentos importantes em Santa Catarina, como:
- corredor ferroviário Correia Pinto–Chapecó
- ferrovia dos portos (Araquari–Navegantes)
- contornos ferroviários estratégicos
“Santa Catarina não pode continuar à margem dos grandes investimentos em logística do país.”
Num estado dependente de rodovias, a mudança é mais que técnica: é estratégica.
Escala 6×1 entra na pauta e SC reage com manifesto conjunto
E, como se não bastasse combustível e logística, o debate trabalhista entrou no radar.
Entidades do agro e do cooperativismo catarinense entregaram, em Brasília, o “Manifesto do Cooperativismo e das Agroindústrias Catarinenses pela Modernização Responsável da Jornada de Trabalho”, posicionando-se contra mudanças apressadas na jornada semanal.
O documento foi encaminhado a parlamentares da bancada federal de Santa Catarina e traz um alerta direto sobre os impactos da chamada escala 6×1 em cadeias que dependem de operação contínua como agroindústrias, frigoríficos, granjas e cooperativas.
Segundo o presidente do Sistema OCESC (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina), Vanir Zanatta:
“A modernização precisa ocorrer com base técnica, previsibilidade e diálogo.”
O manifesto é assinado por nove entidades:
- OCESC (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina)
- FAESC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina)
- FECOAGRO (Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado de Santa Catarina)
- FETAESC (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina)
- SINDICARNE (Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de SC)
- AINCADESC (Associação das Indústrias de Carne e Derivados de SC)
- ACAV (Associação Catarinense de Avicultura)
- SINDILEITE SC (Sindicato da Indústria de Laticínios de SC)
- SICOOB SC/RS (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil SC/RS)
Os números mostram o peso da discussão:
- impacto estimado de R$ 10,8 bilhões por ano
- mais de 102 mil empregos diretos envolvidos
O setor não rejeita o debate, mas quer tempo, técnica e previsibilidade.
Porque, no agro, jornada não é só escala.
É operação contínua.
Semana começa e a pressão só aumenta
O agro abre a última semana cheia de março com três frentes simultâneas:
- combustível sob risco
- logística pressionada
- e ambiente regulatório em movimento
No meio disso tudo, ainda estão na mesa:
- seguro rural
- Plano Safra
- fertilizantes
- e mercado internacional instável
Não é uma crise isolada.
É um sistema operando no limite.
E, quando tudo aperta ao mesmo tempo, o campo sente primeiro.
Boa semana, Agroamigos!






