23/03/2026

Combustível no limite, logística sob pressão e a escala 6x1ainda na mira do agro

A última semana cheia de março começa com um recado claro:
o problema deixou de ser pontual virou engrenagem.

Combustível pressionado, logística tensionada e debate trabalhista entrando no radar.

Se na semana passada o diesel já tinha acendido o alerta, agora o sinal ficou mais forte: há risco real de desorganização da cadeia do abastecimento ao escoamento.

E, no meio disso tudo, o agro tenta manter o equilíbrio entre custo, produção e previsibilidade.

Combustível entra em zona de risco

O alerta mais direto veio das distribuidoras.

O Sindicom (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes) enviou ofício ao governo apontando risco ao abastecimento no país.

Segundo a entidade:

  • aumento relevante da demanda
  • cortes nas cotas de fornecimento
  • negativa de pedidos adicionais para março e abril

O diagnóstico é técnico e preocupante:

“O cenário compromete severamente a previsibilidade operacional e o planejamento estratégico dos agentes de distribuição.”

A combinação de choque internacional, instabilidade interna e cancelamento de leilões cria o pior ambiente possível: incerteza na oferta de combustível.

Frete vira disputa e custo entra no centro

Em resposta à pressão dos caminhoneiros, o governo decidiu endurecer a fiscalização da tabela do frete mínimo.

O ministro dos Transportes, Renan Filho, revelou:

  • 15 mil infratores identificados
  • 40 mil infrações registradas
  • R$ 419 milhões em multas recentes

A promessa é apertar o cerco inclusive com possibilidade de suspensão de empresas reincidentes.

Mas a reação do agro foi imediata.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirma que o modelo atual não reflete a realidade do transporte no país.

“O cenário provoca aumento artificial dos custos logísticos, perda de eficiência nas cadeias produtivas e impacto direto na competitividade do agro, especialmente em setores de grande volume e margem mais apertada”, diz a nota da FPA. 

Na prática, o que era para proteger o caminhoneiro pode acabar pressionando ainda mais o custo do agro.

Diesel, biodiesel e decisão que não vem

No meio da crise, a decisão que poderia aliviar parte da pressão segue parada.

A reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que discutiria o aumento da mistura de biodiesel, foi novamente adiada — agora sem nova data.

O setor defende avanço imediato para B17.

O argumento é direto:

  • há capacidade produtiva
  • o biodiesel está competitivo
  • e a medida reduziria dependência externa

Mas, enquanto isso, o petróleo ultrapassa US$ 115 no mercado internacional.

E o Brasil segue esperando reunião.

CNA mira frete marítimo e fertilizantes

Com os fertilizantes já pressionados alta de até 35% na ureia, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) entrou em campo.

A entidade propôs ao Ministério da Fazenda:

Zerar o AFRMM (Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante)

Hoje, as alíquotas chegam a:

  • 8% no transporte geral
  • até 40% para graneis líquidos

Segundo a CNA, a medida é emergencial:

“Fundamental para mitigar os efeitos de choques externos sobre a economia brasileira.”

O recado é claro: o custo não está só no diesel.

Está em toda a logística.

Ferrovias voltam ao jogo e SC tenta sair do rodoviário

No meio da pressão logística, uma sinalização estrutural apareceu.

A deputada Daniela Reinehr (PL-SC) articulou a inclusão de projetos ferroviários no Fundo Clima.

A medida pode destravar investimentos importantes em Santa Catarina, como:

  • corredor ferroviário Correia Pinto–Chapecó
  • ferrovia dos portos (Araquari–Navegantes)
  • contornos ferroviários estratégicos

“Santa Catarina não pode continuar à margem dos grandes investimentos em logística do país.”

Num estado dependente de rodovias, a mudança é mais que técnica: é estratégica.

Escala 6×1 entra na pauta e SC reage com manifesto conjunto

E, como se não bastasse combustível e logística, o debate trabalhista entrou no radar.

Entidades do agro e do cooperativismo catarinense entregaram, em Brasília, o “Manifesto do Cooperativismo e das Agroindústrias Catarinenses pela Modernização Responsável da Jornada de Trabalho”, posicionando-se contra mudanças apressadas na jornada semanal.

O documento foi encaminhado a parlamentares da bancada federal de Santa Catarina e traz um alerta direto sobre os impactos da chamada escala 6×1 em cadeias que dependem de operação contínua como agroindústrias, frigoríficos, granjas e cooperativas.

Segundo o presidente do Sistema OCESC (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina), Vanir Zanatta:

“A modernização precisa ocorrer com base técnica, previsibilidade e diálogo.”

O manifesto é assinado por nove entidades:

  • OCESC (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina)
  • FAESC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina)
  • FECOAGRO (Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado de Santa Catarina)
  • FETAESC (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina)
  • SINDICARNE (Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de SC)
  • AINCADESC (Associação das Indústrias de Carne e Derivados de SC)
  • ACAV (Associação Catarinense de Avicultura)
  • SINDILEITE SC (Sindicato da Indústria de Laticínios de SC)
  • SICOOB SC/RS (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil SC/RS)

Os números mostram o peso da discussão:

  • impacto estimado de R$ 10,8 bilhões por ano
  • mais de 102 mil empregos diretos envolvidos

O setor não rejeita o debate, mas quer tempo, técnica e previsibilidade.

Porque, no agro, jornada não é só escala.

É operação contínua.

Semana começa e a pressão só aumenta

O agro abre a última semana cheia de março com três frentes simultâneas:

  • combustível sob risco
  • logística pressionada
  • e ambiente regulatório em movimento

No meio disso tudo, ainda estão na mesa:

  • seguro rural
  • Plano Safra
  • fertilizantes
  • e mercado internacional instável

Não é uma crise isolada.

É um sistema operando no limite.

E, quando tudo aperta ao mesmo tempo, o campo sente primeiro.

Boa semana, Agroamigos!

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.