
O arroz, símbolo histórico da mesa brasileira, começou 2026 enfrentando um paradoxo preocupante: o preço caiu no varejo, mas a crise na cadeia produtiva só aumentou.
Dados do Radar Mensal da Scanntech Brasil apontam o grão como o principal vetor negativo da mercearia básica do varejo, com retração de 36,4%. Mais preocupante ainda é o detalhe que acompanha o número: além da queda de preços, houve também redução no volume vendido.
Traduzindo para o campo: o problema não está apenas no valor do produto, mas no próprio consumo.
O alerta foi reforçado pelo Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (SindArroz-SC), que já vinha sinalizando dificuldades crescentes para o setor.
Para o presidente da entidade, Walmir Rampinelli, o cenário exige reação rápida.
“Se o varejo está registrando queda também em unidades, isso reforça que precisamos recuperar consumo. O arroz precisa voltar para a rotina alimentar das famílias.”
A preocupação não é apenas cultural. É econômica.
Indústrias catarinenses já relatam queda superior a 40% no faturamento, enquanto os custos operacionais seguem praticamente inalterados.
Algumas empresas reduziram despesas e ajustaram estruturas para atravessar o momento.
Outras ainda buscam alternativas políticas e institucionais para tentar reverter o cenário.
Arroz sustentável entra no radar do carbono
Enquanto o consumo recua, a cadeia produtiva também tenta olhar para o futuro.
Representantes do setor produtivo, pesquisadores e instituições públicas participaram, na quinta-feira (12), da reunião da Câmara Setorial do Arroz, realizada pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Sape), pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).
O tema central foi ambicioso: arroz sustentável e oportunidades no mercado de créditos de carbono.
A discussão envolve práticas capazes de reduzir a emissão de metano na rizicultura irrigada e transformar esses ganhos ambientais em ativos econômicos para os produtores.
Segundo o coordenador do Projeto Arroz Sustentável do IICA, Fernando Barrera, o trabalho conjunto entre instituições pode abrir novas possibilidades para o setor.
“Essas práticas podem gerar benefícios ambientais e também oportunidades econômicas para os agricultores.”
Na prática, a proposta é transformar a sustentabilidade da produção em nova fonte de renda no campo.
A lavoura do futuro nas terras baixas
O debate sobre o futuro da rizicultura também apareceu na 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas, realizada em Capão do Leão (RS), na zona sul do Rio Grande do Sul.
O evento apresentou tecnologias voltadas à chamada “lavoura do futuro”, baseada em sistemas integrados de produção.
A proposta inclui rotação de culturas com soja, milho e pastagens de verão, buscando diversificação produtiva e maior sustentabilidade econômica nas propriedades.
O movimento faz sentido num país onde o arroz segue sendo estratégico.
O Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% da produção nacional, enquanto Santa Catarina permanece como o segundo maior produtor do país, com estimativa de 1,22 milhão de toneladas na safra 2025/2026, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Morango vira nova frente de tensão no agro
Se o arroz preocupa pelo consumo, o morango entrou na agenda política por outro motivo: regulação e concorrência internacional.
Produtores de diversas regiões do país reagiram à Portaria nº 886 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que estabelece novos padrões de identidade e qualidade para o morango comercializado no Brasil.
A norma exige classificação detalhada por tamanho, critérios mais rígidos de qualidade e novas exigências de rotulagem.
Para parlamentares ligados ao setor, o problema é o impacto sobre a agricultura familiar.
O deputado federal Rafael Pezenti (MDB-SC) apresentou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 74/2026 para suspender a portaria.
Segundo ele, a norma cria exigências que podem inviabilizar pequenos produtores.
“Do jeito que está, essa decisão pode tirar muita gente da atividade. É mais uma norma criada no ar-condicionado de Brasília sem conhecer a realidade do agricultor.”
A deputada federal Daniela Reinehr (PL-SC) também protocolou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 107/2026, que susta os efeitos da portaria.
“Precisamos garantir que o Congresso reavalie essa medida e evite impactos desproporcionais a quem vive da atividade.”
Santa Catarina tem cerca de 800 produtores de morango, responsáveis por aproximadamente 8,6 mil toneladas anuais, segundo dados da Epagri/Cepa Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina / Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola.
Santa Catarina é hoje o sexto maior produtor de morango do Brasil, com cadeia produtiva que movimenta cerca de R$ 100 milhões por ano.
Importação e suspeita de dumping
O problema regulatório ocorre ao mesmo tempo em que cresce a concorrência externa.
Levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) indica que as importações brasileiras de morango aumentaram 868% nos últimos anos.
Grande parte do produto vem do Egito, beneficiado por acordo comercial com o Mercosul, firmado em 2010.
Segundo analistas do setor, há suspeita de dumping, quando um produto é vendido no mercado externo por preço inferior ao praticado no país de origem.
A diferença ajuda a explicar o avanço do produto estrangeiro.
No Egito, o quilo do morango custa cerca de R$ 15 no mercado interno, mas chega ao Brasil por aproximadamente R$ 7,50, abaixo do custo médio de produção nacional.
Importação de leite entra no radar do Congresso
Outra cadeia produtiva pressionada é a do leite.
O aumento das importações de lácteos levou a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) a protocolar, na quinta-feira (12), uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) na Câmara dos Deputados.
A iniciativa, apresentada pelo presidente da bancada, deputado Pedro Lupion (PP-PR), solicita auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) para avaliar os impactos das importações sobre o mercado interno.
Grande parte do leite em pó importado vem de países do Mercosul, especialmente Argentina e Uruguai.
“Precisamos entender se existe equilíbrio competitivo ou se há distorções que estão pressionando os preços pagos ao produtor”, afirmou Lupion.
Pressão no campo
O Brasil produz cerca de 35 bilhões de litros de leite por ano, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A atividade envolve mais de um milhão de propriedades rurais, muitas delas familiares.
Nos últimos anos, porém, produtores passaram a relatar queda significativa na renda.
Em alguns períodos, o preço pago ao produtor caiu mais de 20%.
Para o deputado Rafael Pezenti, o avanço das importações exige reação rápida.
“A Argentina coloca leite aqui no Brasil com preço 53% menor do que vende no próprio país. Precisamos que esse leite seja taxado agora na fronteira.”
Cooperativa aposta no empreendedorismo feminino
Em meio aos desafios do agro, o cooperativismo financeiro também aposta em novos caminhos.
O Sicoob MaxiCrédito lançou a linha de crédito Apoia Elas, voltada a mulheres empreendedoras.
O programa oferece financiamento para microempreendedoras individuais (MEI) e pequenas empresas lideradas por mulheres, com limite de até R$ 100 mil.
Além do crédito, a iniciativa inclui capacitações em educação financeira.
Segundo a diretora-presidente executiva da cooperativa, Adriana Grigol, o objetivo é ampliar oportunidades.
“Queremos apoiar o desenvolvimento do empreendedorismo feminino e fortalecer o protagonismo das mulheres nos negócios.”
Cooperativismo e Parlamento
No artigo “As cooperativas e o Parlamento”, o presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC), Vanir Zanatta, reforça a importância da representação política para o fortalecimento do setor.
Ele destaca o papel da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop) na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
“O cooperativismo é uma das maiores forças de desenvolvimento econômico e social do Brasil e precisa de um Parlamento que compreenda a importância do ato cooperativo.”
Entre consumo, regulação e comércio internacional
A semana mostra que o agro brasileiro enfrenta pressões em várias frentes ao mesmo tempo.
Consumo em queda no arroz.
Regulação e concorrência no morango.
Importações pressionando o leite.
E cadeias produtivas tentando se reinventar com sustentabilidade, tecnologia e crédito.
No meio disso tudo, o Congresso volta a assumir um papel central.
Porque quando os problemas do campo chegam ao mercado, a política sempre acaba entrando na colheita.
Boa terça-feira, Agroamigos!






