18/02/2026

Renegociar não é dinheiro novo. É fôlego e o agro volta do Carnaval cobrando pulmão

Brasília volta devagar, a conta não

Quarta-feira de Cinzas marca a volta tímida de Brasília e o retorno do agro às contas que ficaram penduradas no Carnaval. O governo acena com renegociação de dívidas para a cebola no Pronaf, o BNDES fecha o balanço de um programa bilionário de alongamento de passivos rurais e o BRDE mostra que o crédito correu em 2025 em Santa Catarina.
O fio que costura tudo: renegociar dá fôlego, mas não cria renda nova. E o campo sabe a diferença. Enquanto Brasília acorda no ritmo do pós-feriado, o produtor volta direto para o boletim bancário, para o preço apertado no balcão e para a conta que venceu ou vai vencer sem que o mercado tenha feito sua parte.

Pronaf da cebola: renegociar é fôlego, não dinheiro novo

O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), por meio da Secretaria de Agricultura Familiar e Agroecologia, publicou o Ofício nº 90/2026 orientando instituições financeiras a viabilizarem a renegociação de dívidas do Pronaf para produtores de cebola com dificuldade de comercialização. A medida se ancora no Manual de Crédito Rural, que já previa prorrogações e reprogramações em casos de dificuldade temporária de pagamento.

Na prática, o ofício não cria dinheiro novo, não reduz juros e não muda as regras estruturais do crédito. O que ele faz é ativar politicamente instrumentos que já existiam no papel:

  • reforça que a renegociação pode e deve ser usada na cadeia da cebola;
  • permite laudo coletivo quando o problema é regional, destravando a burocracia na ponta;
  • recomenda que o pedido seja feito antes do vencimento, evitando a inadimplência formal;
  • e dá respaldo administrativo ao gerente da agência, reduzindo a margem para negativas por “interpretação restritiva”.

Isso muda o jogo operacional: a conversa no banco fica menos defensiva, o produtor ganha previsibilidade mínima para reorganizar o caixa e preserva cadastro algo decisivo para não travar o crédito da próxima safra. Num cenário de excesso de oferta, queda de preços e dificuldade de escoamento da cebola, esse fôlego importa.

O contexto que não dá para ignorar: alongar prazo administra o sintoma, mas não corrige o desequilíbrio entre custo e preço. Não recompõe margem, não resolve o problema de renda e não cria demanda para o produto. É instrumento de contenção de crise necessário, mas insuficiente. Sem política de comercialização, seguro rural robusto e previsibilidade de mercado, a conta volta na próxima virada de ciclo.

Renegociação rural do BNDES alcança R$ 7,5 bilhões

O BNDES fechou o balanço do programa de Liquidação de Dívidas Rurais, com R$ 7,5 bilhões aprovados em renegociações. Do total, 40% dos recursos (R$ 4,8 bilhões) foram direcionados a agricultores familiares e médios (Pronaf e Pronamp), dentro de uma linha criada pela MP 1.314/2025 para produtores afetados por eventos climáticos recorrentes.
Foram 27.796 operações, em 754 municípios de 22 Estados, com tíquete médio de R$ 270 mil e prazo de até nove anos, com um ano de carência.

É volume relevante e ajuda a “descomprimir” balanços no campo. Mas a lógica é a mesma: reorganiza passivo, não cria renda nova. Funciona como colchão financeiro para atravessar a turbulência não como política estruturante de mercado.

SC no foco: BRDE passa de R$ 800 milhões ao agro em 2025

Em Santa Catarina, o BRDE contratou mais de R$ 800 milhões para o agronegócio em 2025, somando operações diretas com produtores e empresas do setor e linhas operadas via convênios. Os recursos foram direcionados a máquinas, irrigação, armazenagem, ampliação da capacidade produtiva e agroindustrial.

“O número reforça o peso do agronegócio na carteira do banco em Santa Catarina. O crédito tem papel direto na modernização das cadeias produtivas e na manutenção da atividade no campo”, afirma o diretor e vice-presidente do BRDE, Mauro Mariani.
Para 2026, a projeção da instituição é superar R$ 1 bilhão em contratações para o setor no Estado, com destaque para as linhas do Pronampe Desastres e do Pronampe Leite.

Fôlego ajuda, mas pulmão saudável é outra política

Os três movimentos apontam sensibilidade do governo e dos bancos ao aperto de caixa no campo, mas também expõem o limite da política pública quando ela fica restrita a alongar dívidas.
Renegociar é conter o incêndio.

Política agrícola de verdade é construir o sistema de prevenção: seguro rural previsível, instrumentos de comercialização, estabilidade regulatória e renda mínima protegida contra choques de clima e mercado.

Fôlego ajuda.
Mas o agro voltou do Carnaval cobrando pulmão.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

Anúncios e chamada para o mailing