
O recesso acabou e Brasília voltou a pulsar – com pressão máxima. Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF) retomam uma agenda carregada de temas sensíveis ao agronegócio, enquanto a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) corre contra o relógio eleitoral de 2026.
O diagnóstico é claro: o primeiro semestre é a janela de oportunidade para votar projetos estruturantes e derrubar vetos presidenciais antes que a pauta seja engolida pelas campanhas.
Congresso acelera e a FPA mira prioridades
A retomada dos trabalhos legislativos veio com foco em segurança jurídica, orçamento e competitividade.
Entre os temas que a FPA pretende destravar já nas próximas semanas estão o Marco Temporal, o Orçamento (LDO), vetos que atingem Embrapa e Seguro Rural, Regularização Fundiária, Reforma Tributária, Licenciamento Ambiental e a internalização do acordo Mercosul–União Europeia.
A leitura política é pragmática: aprovar no primeiro semestre o que exige quórum e articulação pesada. Depois, o calendário eleitoral impõe ritmo lento quando não paralisa.
Marco Temporal: embate segue e volta ao STF
No centro do conflito institucional está o Marco Temporal para terras indígenas. Após o STF afastar a tese por lei ordinária, o Senado aprovou, no fim de 2025, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com o mesmo conteúdo, hoje sob análise da Câmara. Especialistas alertam: mesmo aprovada, a PEC pode retornar ao STF sob argumento de violação a cláusulas pétreas. Tradução para o campo: insegurança jurídica prolongada, impacto no valor da terra, no crédito e no investimento.
Vetos no radar: orçamento, Embrapa e seguro rural
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, deve convocar nos próximos dias, sessão conjunta para analisar vetos.
No agro, o alvo são dispositivos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), com risco de cortes em áreas estratégicas. A FPA atua para preservar recursos para pesquisa (Embrapa) e Seguro Rural, considerados essenciais diante do clima extremo e da pressão de custos.
Câmara pauta crédito extraordinário ao setor rural
Na Câmara, o destaque imediato é a medida provisória que abre crédito extraordinário de R$ 83,5 milhões ao setor rural, voltado ao combate a pragas e doenças de animais e plantas – com foco na gripe aviária, após decreto de emergência zoossanitária.
A pauta também inclui o programa Gás do Povo (substituto do Auxílio Gás), mas o peso político está no crédito emergencial ao agro, pela urgência e prazo de vigência da MP.
Outros debates que avançam no primeiro semestre: escala de trabalho 6×1 e regulamentação da inteligência artificial, com impactos sobre produtividade, emprego e economia.
Etanol de milho ganha tração e vira aposta estratégica
Enquanto a política ferve, o mercado avança. O etanol de milho consolida protagonismo no agro brasileiro, agregando valor ao cereal e fortalecendo cadeias de proteína animal via coprodutos como DDG. O Brasil já é o segundo maior produtor mundial, atrás apenas dos EUA, com projeções próximas a 10 bilhões de litros em 2025/26. A verticalização reduz custos, melhora a eficiência e contribui para a transição energética, sem ameaçar o abastecimento.
Mel da Serra Catarinense faz história e coloca SC no mapa premium mundial
Santa Catarina acaba de conquistar um marco inédito: o mel da Serra Catarinense tornou-se o primeiro das Américas a obter certificação do Forest Stewardship Council (FSC) para produto florestal não madeireiro.
O selo atesta que o mel é produzido com manejo ambientalmente responsável, respeito social e viabilidade econômica um passaporte direto para mercados exigentes da Europa e da América do Norte.
A certificação beneficia diretamente pequenos apicultores, valoriza a floresta em pé e reforça um novo paradigma: conservar também gera renda. Hoje, a Serra Catarinense concentra centenas de famílias na atividade apícola, com produção que alia biodiversidade, rastreabilidade e qualidade sensorial reconhecida.
O próximo passo já está no radar: a certificação da cadeia de custódia, que garante que o mel certificado chegue ao consumidor final com total rastreabilidade. Na prática, isso significa mais preço, mais mercado e mais segurança comercial para o produtor catarinense e um exemplo de bioeconomia que vai além da madeira.
Maçã movimenta bilhões, gera turismo e reforça o peso econômico de Fraiburgo
A Abertura da Colheita da Maçã, realizada na semana passada em Fraiburgo, escancarou a dimensão econômica e estratégica da cultura para Santa Catarina.
O estado responde por cerca de 50% da produção nacional, com uma safra que movimenta mais de R$ 3 bilhões por ano, gera milhares de empregos diretos e indiretos e sustenta, majoritariamente, a agricultura familiar.
Somente a região de Fraiburgo concentra uma das maiores áreas contínuas de pomares do país, com impacto que vai além da porteira: logística, armazenagem, indústria, exportação e, cada vez mais, turismo rural e de experiência, que atrai visitantes durante a florada e a colheita.
O deputado Valdir Cobalchini, destacou durante o evento que a maçã é “um símbolo de organização produtiva, tecnologia e sanidade, que projeta Santa Catarina no mercado nacional e internacional”.
Em um cenário de custos elevados e clima desafiador, a maçã mostra como política pública, território e mercado podem caminhar juntos – transformando produção em desenvolvimento regional.
Primeiro semestre decide
O agro entrou em fevereiro com o cronômetro ligado.
Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF) retomam pautas que definem as regras do jogo, enquanto o mercado avança apenas onde há previsibilidade.
A janela é curta, a agenda é pesada e Santa Catarina segue mostrando que, com organização, governança e estratégia, dá para competir no mundo e pressionar Brasília ao mesmo tempo.
No meio de normas duras, vetos, disputas jurídicas e negociações travadas, uma maçã com mel ajuda a adoçar o debate: produção com valor agregado, floresta em pé gerando renda e um estado que transforma política em oportunidade.
Porque, no agro, o jogo pode até ser amargo, mas quem se organiza, colhe melhor.





