Tem sempre um deles na esquina.
O cachorro caramelo, esse personagem clássico das cidades brasileiras. Vira-lata legítimo, criado na rua, especialista em convivência urbana. Não pertence exatamente a ninguém, mas todo mundo jura que gosta dele. Recebe um carinho aqui, um afago acolá, ganha um pedaço de pão na padaria, um resto de almoço no restaurante, um cafuné das crianças que passam voltando da escola.
O caramelo aprende cedo algumas regras simples da sobrevivência: reconhecer quem gosta de cachorro pelo olhar, saber em qual porta é mais provável aparecer comida e, principalmente, dominar a arte de fazer festa.
Passou alguém? O rabo abana. Chamou? Ele corre. Ganhou um petisco? Já valeu o dia.

Com o tempo, ele desenvolve uma habilidade rara: agradar todo mundo por alguns segundos. É simpático, dócil, presente. Quase sempre rende uma foto, às vezes um vídeo, vira figurinha no grupo da família ou assunto rápido na roda de conversa.
“Tinha um cachorro tão queridinho lá.”
O caramelo entende rápido o mecanismo da rua. Quanto mais simpático ele for, mais atenção recebe. Quanto mais atenção, maiores as chances de aparecer comida. Então ele segue no seu ofício diário: faz festa para quem passa, posa para quem chama, acompanha por alguns metros quem demonstra interesse.
Mas quando a rua esvazia e a noite chega, ele continua ali. Porque gostar do cachorro é uma coisa. Levar para casa é outra. Todo mundo tem carinho. Pouquíssimos assumem compromisso.
E é curioso como, olhando bem, a política brasileira anda cheia de caramelos.
Eles estão em toda parte, especialmente nas redes sociais. Assim como o cachorro da esquina, aprenderam rapidamente qual é a moeda que circula nesse ambiente: atenção. E descobriram também a melhor maneira de obtê-la.
Hoje é a pauta do dia. Amanhã é a indignação da semana. Depois é o vídeo comentando o assunto que está dominando seu campo político. Cada tema que passa vira uma nova oportunidade de fazer festa.
O político caramelo domina essa lógica. Está em todas as conversas, comenta tudo, reage a tudo, aparece sempre que surge um assunto capaz de render curtidas. Distribui afagos retóricos para quem estiver passando naquele momento pela rua digital.
E funciona. As curtidas aparecem. Os compartilhamentos também. Os seguidores crescem.
Mas não necessariamente os votos.
Porque a lógica, no fundo, é muito parecida com a da esquina onde vive o cachorro. Muita gente acha simpático, muita gente interage, muita gente até torce. Mas quando chega a hora de levar para casa, ou, no caso da política, levar para a urna, não é tão simples.
O político caramelo está sempre disponível, sempre simpático, sempre disposto a participar de qualquer assunto que esteja passando pela rua das redes. Mas, justamente por isso, quase nunca constrói uma relação duradoura.
É curtido por muitos. Percebido por alguns. Indispensável para poucos.
E assim a política vai formando suas próprias esquinas. Lugares cheios de caramelos digitais, correndo atrás de curtidas, farejando pautas, fazendo festa para cada polêmica que passa na linha do tempo.
Alguns até ficam famosos. Mas, infelizmente, continuam na rua. 🐕






