Quem conhece o governador Jorginho Mello sabe de sua devoção por Nossa Senhora Aparecida. Rotineiramente, ele ostenta um pin com a imagem da santa na lapela do paletó e faz questão de performar a própria fé em romarias, como a de Campos Novos, que já lhe rendeu até um acidente, que entrou para a história política catarinense.

Há quem diga que ele deixou de usar o pin durante a campanha para não descontentar evangélicos —contrários a adoração de santos— e teria tatuado a imagem da santa no corpo. Prefiro não comprovar essa informação e mantê-la no mundo do “dizem que”.
Era 12 de outubro de 2009. Jorginho presidia a Assembleia e, em mais uma daquelas manobras institucionais que ocorrem em todos os Governo, Luiz Henrique (MDB) e o vice Leonel Pavan (PSDB, à época) se ausentaram do país para que o então deputado virasse governador por alguns dias— uma espécie de “estágio probatório” no Executivo.
Como bom devoto — e político em evidência — foi à procissão de Nossa Senhora Aparecida, em Campos Novos, e assistia à missa de cima de um palanque que não aguentou o peso da fé coletiva e acabou desabando, provavelmente pelo excesso de gente.
Os gaiatos, sempre mais sinceros que os assessores, disseram que a queda se deu pelo excesso de pecados que sobrecarregou a estrutura. Jorginho, segundo a imprensa da época, teve uma fissura na tíbia e um pico de pressão.
Nada grave: não a ponto de impedir que retomasse a agenda de governador quase imediatamente, mesmo de muletas — aproveitando os onze dias que permaneceu como chefe do Executivo.
Nos últimos dias, Jorginho tenta desafiar não apenas adversários, mas um princípio elementar da física: a lei da impenetrabilidade, segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço.
No caso dele, a tentativa é ainda mais ousada: colocar três corpos — Carlos Bolsonaro, Carol de Toni e Esperidião Amin — em duas vagas ao Senado. A equação é simples no papel, mas impossível na prática.
E, como se não bastasse, a cada dia surge um novo “fato político inesperado”. Teve até telefonema de Carlos Bolsonaro para João Rodrigues (PSD), numa espécie de chantagem política, pedindo espaço em outra chapa, só para lembrar ao governador quem manda no clã.
Diante desse impasse que nem planilha de Excel resolve, Jorginho decidiu reforçar o departamento espiritual. Ampliou o cardápio de devoções e, além de Nossa Senhora Aparecida, passou a rezar também para Santa Catarina de Alexandria, padroeira do Estado.
Não por acaso, mandou à Alesc um projeto de lei instituindo 25 de novembro, dia da santa, como feriado estadual. Setores da economia chiaram, mas, neste momento, o que o governador precisa mesmo é de um milagre aritmético e político.
Até pouco tempo, o projeto de reeleição parecia um passeio em estrada duplicada: MDB na vice, Carol de Toni e Esperidião Amin ao Senado, PSD e esquerda devidamente isolados, um de cada lado do acostamento.
Aí veio a troca do MDB pelo Novo — uma escolha calculada para carimbar a posição mais à direita, agradar Joinville e neutralizar um possível adversário. Tudo dentro do script.
O problema é que o roteiro mudou quando Carlos Bolsonaro entrou em cena, enviado pelo pai, bagunçando o coreto do Senado e transformando a pré-campanha do governador numa série com episódios diários de suspense.
Sai Amin, entra Carol, sai Carol, entra Amin. Vai por Novo, não vai pro Novo. Coliga com João Rodrigues, não coliga. Todos os dias essas idas e vindas ocupam o noticiário.
O que parecia um projeto sólido começa a apresentar pequenas fissuras no casco do navio. Se não forem consertadas agora, no estaleiro, e deixadas para ajustes improvisados em alto-mar, o risco é virar naufrágio em plena campanha.
Vale lembrar: em 2002, quando Esperidião Amin perdeu aquela que muitos chamam de “a eleição mais ganha da história”, a troca do vice — Paulo Bauer (PFL) por Eni Voltolini (PP) — foi o primeiro estalo audível no casco do seu barco. O resto todo mundo já conhece.
Como novo devoto de Santa Catarina de Alexandria, fica a recomendação prática ao governador: rezar a seguinte oração, ao menos três vezes ao dia, entre uma reunião com Valdemar da Costa Neto e uma ligação do clã Bolsonaro:
“Minha beata Santa Catarina, vós que sois bela como o sol, formosa como a lua e linda como as estrelas, vós que entrastes na casa de Abraão e abrandastes 50 mil homens, todos como leões, assim peço-vos, Senhora, que abrandeis o coração de (coloque as iniciais da pessoa) para mim.”
As iniciais podem ser de Esperidião Amin, Carol de Toni ou Carlos Bolsonaro. Ou, por via das dúvidas, dos três. Se não funcionar, resta a novena — e, quem sabe, uma recomposição de chapa.
Para quem não sabe, Santa Catarina de Alexandria, além de nossa padroeira, também é padroeira dos estudantes e dos filósofos.






