Pelos últimos dados da Genial/Quaest, publicados na semana passada, a eleição de outubro caminha, mais uma vez, para um cenário sem espaço para a chamada terceira via — ou, simplificando, para um candidato de centro.

Apenas cinco pontos percentuais (43% a 38%) separam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de Flávio Bolsonaro (PL), até poucos dias atrás tratado como carta fora do baralho. O sobrenome pesou, o antipetismo voltou a florescer e, ao que tudo indica, a disputa será novamente travada entre os dois polos que antagonizam a política brasileira há duas décadas.
Lula, na minha modesta opinião, ainda é o favorito à reeleição e ao quarto mandato. Mas, se isso ocorrer, não será mel na chupeta. A diferença tende a ser pequena, como no último pleito.
Candidaturas como as de Ratinho Júnior (PSD), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e outros aspirantes dificilmente encontrarão oxigênio diante da polarização. A tendência é repetir o destino de Geraldo Alckmin em 2018 e de Simone Tebet em 2022.
Lula e Flávio Bolsonaro já têm uma grande massa de eleitores definidos de um lado ou de outro. Deve restar algo em torno de 10% — ou menos — para decidir quem será o próximo presidente.
Esse grupo decidirá se quer continuar sendo governador por Lula e pelo PT ou se optará por uma mudança de rumos, voltando ao bolsonarismo, desta vez numa roupagem mais jovem. O demais, já decidiram.
Rejeição é o fator mais importante
Ainda segundo a Genial/Quaest e outros institutos, a rejeição tende a ser fator determinante. Pela última pesquisa, 55% afirmam não votar em Flávio Bolsonaro, enquanto 45% dizem não votar em Lula.
Mais do que intenção positiva, a dinâmica eleitoral tende a ser movida pela capacidade de cada candidatura reduzir danos e conter rejeições. Trata-se de uma eleição em que a escolha pode ser menos orientada por adesão programática e mais por bloqueio ao adversário.
Outro dado relevante é o medo como elemento político. 44% responderam temer que um integrante da família Bolsonaro volte ao Planalto. Já o receio de um novo mandato de Lula atinge 41%. A campanha, ao que tudo indica, será menos movida por esperança e mais por aversão.
Eleições apertadas começaram em 2006
Em 2006, Lula enfrentou Geraldo Alckmin, então no PSDB. Venceu o primeiro turno com sete pontos de vantagem e ampliou no segundo: 61% a 39%.
Em 2010, Dilma Rousseff derrotou José Serra: 47% a 32% no primeiro turno. Marina Silva (PV) fez 19%. No segundo turno, Dilma venceu por 56% a 44%.
Já em 2014, Marina tentou novamente romper a polarização PT/PSDB, mas ficou fora do segundo turno. Dilma fez 41% no primeiro turno, contra 33% de Aécio Neves. No segundo turno, a petista venceu por 51,6% a 48,4% — até então o resultado mais apertado desde a redemocratização.
Em 2018, Jair Bolsonaro chegou ao segundo turno com vantagem sobre Fernando Haddad: 46% a 29%. Ciro Gomes foi o terceiro, com 12%. No segundo turno, Bolsonaro venceu por 55,1% a 44,9%.
Na eleição de 2022 — quando Bolsonaro tentou a reeleição e perdeu para Lula — a polarização atingiu seu ápice. No primeiro turno, a diferença foi de apenas cinco pontos. No segundo, a vitória de Lula foi praticamente no photochart: 50,9% a 49,1%.
Polarização tem reflexos nos estados
A divisão nacional entre direita e esquerda ecoa nas disputas estaduais. Em Santa Catarina, onde o bolsonarismo segue forte, Jorginho Mello (PL) tende a largar com vantagem nesse cenário.
Há uma inclinação do eleitor bolsonarista — corrente majoritária no Estado — a votar na chamada “chapa cheia”, de cima a baixo. Assim, o número 22 tende a surfar a onda, como o 17 surfou em 2018 e como já ocorreu em 2022.
Num eventual segundo turno contra João Rodrigues (PSD), identificado com a direita, pode haver divisão de votos. Mas, se o adversário for um nome de esquerda, o caminho do governador tende a ser menos acidentado — repetindo a lógica observada no último pleito.





