Enquanto os partidos se articulam, conversam, definem candidatos e travam disputas internas e externas, o PSDB catarinense parece caminhar em outro ritmo. Mantém-se distante do jogo que antecede as convenções e que, na prática, define quem entra competitivo na corrida eleitoral.

“Às vezes é bom ficar calado e não ser muito lembrado, mas não é isso que está acontecendo”, diz o presidente estadual da sigla, Marcos Vieira, deputado em quinto mandato e, aos 72 anos, ainda percorrendo o Estado no que chama de “verdadeira política”.
Quando falou com a coluna, na tarde de quarta-feira, deslocava-se de carro entre Chapecó e Maravilha, no Oeste. O primeiro trecho, de Florianópolis a Chapecó, fez de avião. A rotina, segundo ele, inclui mais de 100 mil quilômetros rodados por ano. “Não me sinto cansado. Faço política porque gosto”, garante. “Sou um dos poucos que já visitou os 295 municípios de Santa Catarina mais de uma vez.”
Mesmo sendo da Capital, estruturou sua carreira em diferentes regiões do Estado. Essa capilaridade é, na visão dele, o principal ativo do partido num momento de reconstrução.
Às vésperas de perder um deputado estadual — Vicente Caropreso deve migrar para o UB — e a única deputada federal — Geovana de Sá é cotada para o Republicanos —, Vieira reconhece o esvaziamento, mas rejeita o diagnóstico de colapso.
“Perdemos lideranças, é verdade. Mas temos militância e estamos preparando novos quadros. Enganam-se os que acham que o caos está instalado”, afirma. A meta declarada é eleger dois deputados estaduais e um federal em outubro — objetivo ambicioso para uma legenda que já foi protagonista e hoje luta para manter relevância.
Majoritária no horizonte
Com cinco mandatos na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e anos à frente da Comissão de Finanças, Marcos Vieira diz que não pretende disputar novamente uma cadeira no Parlamento. Mas também não cogita encerrar a carreira.
“Me preparei para disputar a majoritária. Coloquei meu nome à disposição para governador, mas sou obediente à decisão do partido”, afirma. “Tenho 36 anos de PSDB e meus mandatos sempre pertenceram ao partido.”
Ele relata que, neste momento, “todos conversam com todos”. Já recebeu convites para integrar chapas como candidato ao Senado tanto de João Rodrigues quanto de Gelson Merísio. Não fecha portas — tampouco as escancara.
Na avaliação de Vieira, apesar do favoritismo do governador Jorginho Mello (PL), o cenário permanece aberto. “Muita coisa vai acontecer até as convenções. O quadro hoje está confuso.”
Foi com Luiz Henrique que entrou no jogo grande
A trajetória política de Marcos Vieira começou na antiga JDC, braço jovem do PDS, ao lado de nomes como Raimundo Colombo, Paulo Bauer e Cláudio Ávila, entre outros que ocuparam posições relevantes na política catarinense.
“Saí porque não pertencia ao grupo de apadrinhados. Fui fazer meu caminho”, relembra, numa referência indireta ao então governador Jorge Bornhausen.
Ingressou no PSDB no início dos anos 1990 e rapidamente assumiu protagonismo na Capital. Ao lado de lideranças como Dalírio Beber e Marco Tebaldi, estruturou diretórios municipais e consolidou o partido no Estado. “Era a vitória dos sem mandato contra os com mandato”, resume.
Em 1996 e 2000 o partido esteve com Angela Amin na Prefeitura da Capital. O tucano Péricles Prade foi vice em 1996. Em 2000 apoiaram sem fazer parte da chapa (Murilo Capella foi o vice de Angela).
Depois de estar com Paulo Afonso em 1994 para o Governo do Estado (no primeiro turno apoiaram Nelson Wedekin-PDT — o tucano Wilson Souza foi o vice), em 1998 o grupo apoiou Esperidião Amin (PP). Amin venceu, mas a parceria durou pouco.
Em 1999, o primeiro acordo com Luiz Henrique: na eleição de 2000, para prefeito de Joinville, ele trocaria o vice Henrique Loyola, pelo tucano Marco Tebaldi, que até então nunca havia disputado eleição. “Ganhamos a convenção em Joinville, foi um quebra-pau danado”, lembra Marcos Vieira.
O alinhamento estratégico com Luiz Henrique moldou sua trajetória. Em 2002, o grupo liderado por Vieira defendeu a aliança com o MDB, que resultaria na eleição de Luiz Henrique ao governo e de Leonel Pavan ao Senado. Vieira, por sua vez, assumiu a Secretaria de Administração em 2003 e, em 2006, elegeu-se deputado estadual — posto que ocupa desde então.
“Aprendi muito com o Luiz Henrique. Assim como ele, cumpro todos os meus acordos”, afirma.
O PSDB foi espremido pela polarização
Para Marcos Vieira, o PSDB sempre antagonizou com o PT no plano nacional, mas nunca adotou o antipetismo como identidade. A ascensão do bolsonarismo, avalia, mudou esse eixo.
“O nosso eleitor foi quem elegeu Bolsonaro em 2018”, diz, numa referência ao deslocamento do eleitorado tucano para a direita mais ideológica. “De repente, surge um deputado fazendo arminha e prometendo acabar com o PT, e levou nossos votos.”
Na sua leitura, o partido foi comprimido entre dois polos — o lulismo e o bolsonarismo — e perdeu espaço. As prévias nacionais entre João Doria e Eduardo Leite aprofundaram as fissuras internas. O resultado foi simbólico: em 2022, pela primeira vez desde a redemocratização, o PSDB não apresentou candidato próprio à Presidência.
Em Santa Catarina, o reflexo foi semelhante: redução de bancadas, perda de protagonismo e a necessidade de redefinir estratégia.





