O episódio político da semana, envolvendo o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), o prefeito da Capital, Topázio Neto (PSD), e o Kaiser — como era chamado Jorge Konder Bornhausen — me fez lembrar uma história da política catarinense.

No ano da graça de 1994, o governador Vilson Kleinubing, eleito pelo antigo PFL, renunciou para concorrer ao Senado e Antônio Carlos Konder Reis, do antigo PDS, assumiu o governo.
Havia um acordo para que Esperidião Amin — eleito senador em 1990 — disputasse o Governo do Estado, mantendo a aliança entre PFL e PDS. Mas Amin decidiu disputar a Presidência da República e acabou ficando em sexto lugar. Sua esposa, Angela Amin, foi lançada candidata ao governo.
Diante desse cenário, Bornhausen se viu obrigado a ser candidato pelo PFL para garantir palanque em Santa Catarina ao então candidato presidencial Fernando Henrique Cardoso. FHC era do PSDB, mas seu vice era Marco Maciel, do PFL de Bornhausen.
Em setembro daquele ano — faltando cerca de 15 dias para o primeiro turno — Konder Reis foi a Joaçaba inaugurar uma ponte ligando o município a Herval d’Oeste. Na mesma noite, Bornhausen fez um comício na cidade.
Depois da inauguração e do comício, os políticos se reuniram para jantar no Hotel Jaraguá, no centro de Joaçaba. Na época, eu assessorava o deputado estadual Reno Caramori, do PDS, que disputava a reeleição para a Assembleia Legislativa.
Era uma sexta-feira. Enquanto jantávamos, o diretor de redação do Diário Catarinense, Carlos Felberg, telefonou para o hotel — ainda não existiam celulares — e falou com o jornalista Saint-Clair Monteiro, assessor de Bornhausen. Ele contou que a pesquisa do Ibope que sairia no domingo colocaria Angela Amin muito próxima de vencer a eleição ainda no primeiro turno.
Quando a notícia chegou à mesa dos apoiadores de Angela — entre eles Reno Caramori — houve alvoroço. O então deputado estadual Mario Cavalazzi, candidato a deputado federal naquele ano, sugeriu a Bornhausen que “orientasse” o PFL a votar em Angela Amin para liquidar a eleição já no primeiro turno.
Lembro perfeitamente da resposta de Bornhausen:
— Essa menina não será governadora do meu Estado.
Cavalazzi não insistiu. Naquele tempo, ninguém costumava insistir com Bornhausen. E o assunto morreu ali.
O resto da história é conhecido. Angela Amin terminou o primeiro turno com 45% dos votos e acabou derrotada no segundo turno por Paulo Afonso Vieira, do PMDB, por pouco mais de 40 mil votos. No segundo turno, Bornhausen e o PFL apoiaram o candidato emedebista.
Quatro anos depois, em 1998, Amin e Bornhausen se aliaram novamente e derrotaram Paulo Afonso. Amin foi eleito governador e JKB senador.
JKB apostou na desistência de João Rodrigues
Na quinta-feira, Bornhausen concedeu entrevista coletiva e afirmou — segundo relato da colunista Maga Stopassoli, do Portal Upiara — que a desistência de João Rodrigues era certa.
A avaliação era de que o prefeito de Chapecó havia dado uma “trucada” ao afirmar que ou Topázio Neto seria expulso do partido ou ele não seria candidato ao governo.
Para quem acompanha a política de perto, João Rodrigues teria ido dormir na quinta-feira praticamente fora da disputa.
Mas a manhã desta sexta trouxe uma surpresa. Desafiando o diagnóstico de Bornhausen, Rodrigues e Eron Giordani anunciaram a abertura do processo de expulsão de Topázio Neto do PSD e reafirmaram a manutenção da pré-candidatura ao governo.
Na segunda-feira, o PSD se reúne para definir o futuro de Topázio. Já a renúncia de João Rodrigues à prefeitura de Chapecó segue prevista para o dia 21.
Se Topázio acabar expulso — ou se decidir sair antes — e João Rodrigues confirmar a renúncia para disputar o governo, o episódio pode marcar algo maior do que uma simples crise partidária.
Pode anunciar o fim de uma era.
Porque, goste-se ou não do estilo, a política catarinense foi moldada por líderes que mandavam nos partidos, definiam candidaturas e raramente eram desafiados.
E, ao que tudo indica, já não se fazem mais caciques como antigamente.







