24/02/2026

Jorginho “articula” a própria oposição

O governador Jorginho Mello (PL) venceu a eleição de 2022 carregando o apelido de “Sozinho Mello”, cunhado por adversários diante da dificuldade de montar chapa.

Bateu à porta de Esperidião Amin e do MDB; recebeu negativas. Amin preferiu voo solo e o MDB embarcou com Carlos Moisés.

Contentou-se com a delegada de Joinville, Marilisa Boehm, que já havia disputado três eleições por três partidos diferentes, sem êxito. Era o que havia na prateleira — e, embalado pela onda do Bolsonarismo, foi suficiente.

Quatro anos depois, com índices de aprovação que o governo anuncia na casa dos 70% entre ótimo, bom e regular, o cenário virou. Sobram pretendentes a vice e aspirantes ao Senado. Falta, porém, espaço para colocar tanta gente.

Jorginho não distribui alianças; distribui expectativas. E as recolhe quando lhe convém. O MDB foi o primeiro a perceber que a marcha nupcial não tocaria: a vaga de vice foi prometida nos bastidores, mas acabou oferecida ao prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo).

O partido anunciou a saída do governo, mas integrantes da sigla ainda seguem com a sensação de terem sido convidados para a festa e deixado do lado de fora na hora da foto.

O segundo a sentir o corte foi o PP — agora federado com o União Brasil — que sonhava com uma das vagas ao Senado para Amin. Ao que tudo indica, a prioridade do Palácio é acomodar nomes do PL: Carol de Toni e Carlos Bolsonaro, este último sob a bênção direta de Jair Bolsonaro.

O resultado dessa coreografia é paradoxal: ao tentar montar uma chapa “pura-sangue”, Jorginho pode estar estimulando a formação de um “chapão” contra si.

MDB e PP, historicamente adversários em Santa Catarina, conversam. E o ponto de convergência atende pelo nome de João Rodrigues (PSD), que já lançou pré-candidatura ao governo e mantém portas escancaradas para os descontentes.

No fim, a ironia se impõe: ao tentar governar sem dividir protagonismo, Jorginho pode estar unindo a oposição — ou criando uma oposição que até poucos dias não existia.

Se a frente ampla contra o governador nascer, terá sido, em boa medida, obra de sua própria engenharia.

Governo aposta divisões dos adversários

A estratégia do governador parece clara: manter MDB e PP dentro da máquina, ainda que fora da foto oficial da coligação, apostando em apoios informais. Prefeitos, deputados e lideranças regionais poderiam subir no palanque sem que os partidos, formalmente, estejam na aliança.

É a política do “fica, mas não aparece”.

Existe um sentimento, tanto no MDB quanto na federação União Progressista, que independente para onde forem as siglas, não levarão 100% dos integrantes.

Jorginho sabe disso e trabalha com as defecções. Na hora da campanha, ele, mais do que ninguém, sabe que cargos na máquina e liberação de recursos somam votos.

Tempo de TV e dinheiro pesam

Levantamento do site Metrópoles aponta que uma coligação entre PSD, União Progressista e MDB daria a João Rodrigues cerca de 4min47s em cada bloco de 12min30s no rádio e na TV — mais de um terço do tempo total. Com eventual adesão do PSDB, somariam mais alguns segundos estratégicos.

Já Jorginho, hoje com PL, Republicanos e Podemos como base mais segura, teria cerca de 3min38s por bloco. O Novo não tem tempo de TV.

Não é detalhe. Em eleições majoritárias, tempo de televisão ainda estrutura narrativa.

Soma-se a isso o Fundo Eleitoral: juntos, os partidos que podem orbitar a candidatura de João Rodrigues concentram mais de R$ 1,7 bilhão em recursos nacionais para 2026. Dinheiro não garante vitória, mas amplia megafone.

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