11/02/2026

Governo de SC disputado por três “nascidos” na velha direita

À medida que se aproximam as convenções partidárias que irão sacramentar as candidaturas para 2026 — entre julho e agosto —, o rearranjo das forças no tabuleiro político catarinense revela um dado simbólico: a provável disputa pelo Governo do Estado tende a reunir três nomes oriundos do antigo PDS, herdeiro direto da Arena e, portanto, da velha direita brasileira.

A histórica polarização entre Arena e MDB ficou para os livros. Talvez o último grande embate com essa configuração tenha ocorrido em 2002, quando Luiz Henrique da Silveira, em chapa pura — com Eduardo Moreira de vice —, enfrentou Esperidião Amin ao Governo, tendo Paulinho Bornhausen como candidato ao Senado. Em 2006, já reeleito, Luiz Henrique conseguiu atrair os Bornhausen para sua órbita política, isolando Amin e redesenhando o campo conservador em Santa Catarina.

Agora, no horizonte de 2026, o cenário ganha contornos ainda mais emblemáticos: os três nomes que se colocam como potenciais protagonistas da disputa majoritária — Jorginho Mello (PL), João Rodrigues (PSD) e até Gelson Merísio, cotado para liderar uma frente de centro-esquerda — trazem no currículo a filiação ao antigo PDS. 

Trata-se de um dado que expõe a fluidez ideológica do sistema partidário brasileiro e a permanência das mesmas lideranças em diferentes campos do espectro político, conforme a conjuntura eleitoral.

O pano de fundo desse quadro é a força da velha guarda da política catarinense. Jorginho, João Rodrigues e Merísio são quadros experimentados, com longa trajetória institucional, trânsito por diferentes governos e forte inserção regional. 

Isso contrasta com o discurso recorrente da “nova política”, que prega renovação de práticas e quadros, mas que, na prática, acaba absorvida pela mesma lógica do sistema — como ocorre, por exemplo, com o Partido Novo, hoje já plenamente integrado ao jogo tradicional de alianças e disputas de poder.

No fim das contas, o que se desenha para 2026 é menos um confronto entre “velho” e “novo” e mais uma disputa entre projetos de poder ancorados em lideranças formadas na mesma matriz política, ainda que hoje se apresentem sob rótulos partidários distintos e discursos atualizados ao sabor do momento eleitoral.

As guinadas de Jorginho Mello

Jorginho Mello estreou na política eleitoral em 1976, ao concorrer a vereador em Herval do Oeste pelo PDS. Foi eleito e permaneceu no cargo até 1980. Depois, afastou-se das disputas eleitorais até 1994, quando voltou às urnas como candidato a deputado estadual pelo PL, em coligação com o PDS, que tinha Angela Amin como candidata ao Governo do Estado — derrotada naquele pleito.

Na sequência, migrou para o PSDB, partido pelo qual construiu sua ascensão na política estadual e federal, elegendo-se deputado estadual e, posteriormente, deputado federal. Em 2010, já na Câmara dos Deputados, integrava formalmente a base de oposição ao primeiro Governo Dilma Rousseff (PT), posicionando-se no campo do centro-direita tucano.

O movimento seguinte marcou uma inflexão estratégica: Jorginho deixou o PSDB e se filiou ao PR, legenda que herdou a estrutura do antigo PL. Em Santa Catarina, assumiu o controle do partido e passou a integrar a base do Governo federal, numa transição pragmática de oposição para situação. A guinada, no entanto, não durou. No segundo mandato de Dilma, acompanhando o reposicionamento nacional do PR, Jorginho aderiu ao impeachment da presidente, voltando ao campo oposicionista e se alinhando ao bloco que articulou a ruptura institucional de 2016.

Em 2018, já surfando na onda do bolsonarismo, apoiou Jair Bolsonaro (então no PSL) contra Fernando Haddad (PT) e elegeu-se senador em Santa Catarina, em aliança com o MDB catarinense. A vitória consolidou sua projeção nacional e o credenciou como um dos principais operadores do bolsonarismo no Estado.

Hoje, Jorginho ocupa o espaço da direita mais radicalizada no tabuleiro político catarinense, alinhado ao discurso da família Bolsonaro e atuando para garantir palanque e espaços eleitorais aos filhos do ex-presidente em Santa Catarina. O percurso evidencia uma trajetória marcada por sucessivos realinhamentos partidários e ideológicos, sempre em sintonia com os ventos dominantes do poder nacional — uma guinada expressiva em menos de duas décadas, que ajuda a explicar o atual posicionamento do governador no espectro político.

Rodrigues sempre antagonizou com o PT

O pré-candidato pelo PSD, João Rodrigues, desde que se transferiu politicamente para Chapecó, construiu sua trajetória eleitoral tendo o PT como principal adversário simbólico e eleitoral. Antes disso, em 1996, foi eleito vice-prefeito de Pinhalzinho e, em 2000, venceu a disputa para prefeito. Naquela eleição, o candidato (Galinna) era do MDB, com o PT de vice.

Ao longo de toda a carreira, manteve-se no mesmo campo ideológico, passando pelo PFL e, posteriormente, pelas siglas que o sucederam — DEM e PSD — sempre orbitando o espectro da direita tradicional.

Em 2002, Pinhalzinho tornou-se pequena para suas ambições políticas. Renunciou à Prefeitura para disputar uma vaga de deputado estadual, elegendo-se. Dois anos depois, em 2004, mudou-se para Chapecó para concorrer à Prefeitura, vencendo o PT em seu primeiro grande teste regional. O adversário era Cláudio Vignatti, então principal liderança petista no Oeste catarinense. Em 2008, confirmou sua força política ao se reeleger, novamente enfrentando um petista de peso: José Fritsch.

Mesmo fora da disputa direta em 2012 e 2016, João Rodrigues manteve hegemonia sobre o eleitorado chapecoense por meio de seus sucessores. Em 2012, José Caramori derrotou Pedro Uczai (PT). Em 2016, Luciano Buligon venceu Luciane Carminatti (PT). Em ambos os casos, a lógica do embate com o PT permaneceu como eixo estruturante da política local, com João atuando como principal fiador político do campo conservador na região.

Somente em 2020 o PT deixou de encabeçar diretamente a chapa adversária. Pedro Uczai foi candidato a vice de Cláudio Vignatti, que havia migrado para o PSB, e a coligação terminou em terceiro lugar. O segundo colocado foi Cleiton Fossá (MDB). João Rodrigues, ao voltar à disputa direta, conquistou seu terceiro mandato como prefeito de Chapecó, demonstrando resiliência eleitoral e força de liderança regional.

Em 2024, o roteiro se repetiu: o PT voltou a ser o principal adversário de João Rodrigues em Chapecó. Ele venceu Pedro Uczai e garantiu seu quarto mandato à frente da Prefeitura, consolidando-se como a principal liderança do Oeste catarinense no campo da direita. 

Ele ainda acabou sendo eleito duas vezes deputado federal (2010 e 2014), sempre fazendo oposição ao PT. Em um dos mandatos chegou a ser preso na Papuda, acusado por crime de improbidade administrativa quando era prefeito de Pinhalzinho.

Autointitulado representante desse espectro ideológico, ele projeta agora o confronto estadual com Jorginho Mello, disputando não apenas o Governo, mas também a hegemonia sobre o eleitorado conservador em Santa Catarina — uma disputa que vai além de partidos e entra no terreno da narrativa de quem, de fato, encarna a direita no Estado.

Merísio e a travessia ao campo progressista

Gelson Merísio não disputa eleição desde 2018 e agora volta ao centro do debate com uma missão politicamente complexa: articular uma frente ampla em Santa Catarina, unindo a esquerda a setores de centro, na tentativa de repetir, num primeiro momento, o desempenho de 2022, quando Décio Lima chegou ao segundo turno, e, ao menos, reduzir a distância estruturalmente desfavorável ao campo lulista no Estado. 

A aposta é menos numa virada eleitoral imediata —o que ele não descarta— e mais na construção de um polo competitivo capaz de furar a bolha conservadora que domina o cenário catarinense

A trajetória política de Gelson Merísio começou no fim dos anos 1980, quando se elegeu vereador em Xanxerê pelo então PDS, herdeiro direto da Arena. Em 2002, disputou vaga na Assembleia Legislativa e ficou na segunda suplência do PFL, com pouco mais de 34 mil votos — outro partido nascido da direita brasileira.

Em 2005, com o acordo entre MDB e PFL em Santa Catarina, assumiu uma cadeira na Alesc até o fim do mandato. Foi eleito deputado estadual em 2006 e, em 2010, chegou pela primeira vez à presidência da Assembleia Legislativa. Reeleito naquele ano, tornou-se o deputado estadual mais votado do Estado.

Em 2014, repetiu o feito com 119 mil votos — à época, a maior votação já registrada para um deputado estadual em Santa Catarina —, consolidando-se como um dos principais quadros do campo conservador no Legislativo.

Em 2018, avaliou que havia chegado a hora de disputar o Governo do Estado. Rompeu com o MDB, antigo aliado do seu grupo político, e apostou numa aliança com o PP, posicionando-se novamente à direita do espectro político. Foi ao segundo turno, superou o emedebista Mauro Mariani, mas acabou engolido pela onda bolsonarista que varreu o país. 

Em 2022, Gelson Merísio manteve atuação política, ainda que longe das urnas e restrita aos bastidores. Trabalhou pela candidatura de Décio Lima (PT) ao Governo do Estado, tendo Dário Berger — então recém-egresso do MDB e já filiado ao PSB — como candidato ao Senado. O movimento marcou sua travessia para o campo progressista e abriu um canal de diálogo com setores da esquerda catarinense, historicamente distantes de sua trajetória.

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