05/02/2026

Chapa de Jorginho Mello depende de Brasília

O governador Jorginho Mello voltou de Brasília do mesmo jeito que foi: sem uma definição clara sobre a composição da sua chapa majoritária e sob pressão direta da direção nacional do PL, leia-se Valdemar da Costa Neto. O recado é simples: a eleição em Santa Catarina deixou de ser um assunto apenas local e passou a integrar o tabuleiro nacional de 2026.

Quando, nos bastidores catarinenses, parecia haver um desenho relativamente acomodado — com Adriano Silva na vice e Carol de Toni e Carlos Bolsonaro como opções para o Senado —, entrou em cena o fator Federação União Progressista (PP-UB). A federação virou peça central na engenharia política de Brasília.

Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (UB) negociam com Valdemar da Costa Neto o apoio formal da federação à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. O ativo é poderoso: a União Progressista concentra o maior tempo de TV e o maior fundo eleitoral do país, amparada por uma bancada de 109 deputados federais. Em troca, cobra preço — e o preço passa por acomodações regionais estratégicas.

No pacote de exigências, entra a reeleição de Esperidião Amin (PP) ao Senado na chapa de Jorginho Mello. Um movimento que recoloca Amin no centro do jogo, depois de meses em que seu nome era dado como fora da composição governista em Santa Catarina.

Valdemar tentou administrar o impasse sem confronto aberto. Chamou Carol de Toni e ofereceu duas saídas: disputar novamente uma vaga de deputada federal, com a liderança do PL como vitrine política, ou aceitar a vice na chapa de Jorginho Mello. 

O problema é que a deputada não quer descer de patamar no projeto político. Sem acordo, o recado que sobrou para o governador foi o clássico: resolva-se com os seus.

“Tenho um acordo com o Bolsonaro e preciso garantir apenas a vaga do Carlos.  O resto é comigo”, disse Jorginho a um interlocutor,  em Brasília,  na quarta-feira, completando: “ A Carol será candidata ao Senado pelo PL junto com o Carlos”.

“O Valdemar me disse: o Jorginho não vai ter chapa pura em Santa Catarina. E se ele tentar fazer chapa pura vou interferir no partido”, sustentou Carol de Toni, em entrevista à rádio Studio FM, adiantando que diante do atual quadro deixa o PL.

E agora? Jorginho manterá sua decisão ou se submeterá a Brasília? Jorginho rifa Carol de Toni, apoiada pela ex-primeira dama Michele Bolsonaro,  ou Adriano Silva, recém chegado à nova família? Vamos aguardar os próximos capítulos da novela sucessória no PL catarinense.

Ameaça de intervenção expõe o peso do comando nacional

Na semana passada, a imprensa nacional noticiou a possibilidade de intervenção da direção nacional do PL no diretório catarinense, caso Jorginho Mello não assegure a candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado. A sinalização, ainda que em tom de pressão, deixa claro quem dita as prioridades na hierarquia do partido.

A vaga de Carlos já era tratada como “resolvida” há meses. Com o MDB fora da vice e Adriano Silva confirmado como companheiro de chapa, o entendimento no meio político catarinense era de que Carol de Toni estaria naturalmente acomodada na majoritária. Mas Brasília operava outro desenho.

Valdemar trabalhou, em paralelo, para rifar Carol de Toni e abrir espaço para Esperidião Amin, que localmente já era tratado como carta fora do baralho. Em questão de dias, Amin saiu da arquibancada para o centro do campo das negociações.

Na lógica fria de Brasília, Santa Catarina é uma eleição considerada administrável. Para o comando nacional do PL, ter Adriano Silva ou outro nome na vice pouco altera o resultado final. O que importa é fechar o arranjo nacional, mesmo que isso gere ruídos no Estado.

Carlos Bolsonaro muda o eixo da composição

A entrada de Carlos Bolsonaro no jogo catarinense bagunçou o tabuleiro de Jorginho Mello. O vereador do Rio chegou ao Estado chancelado por Jair Bolsonaro e respaldado por Valdemar — que controla o cofre e o estatuto do PL. Na prática, tornou-se uma peça “imexível” da chapa.

Com a vaga de Carlos assegurada, restaram apenas duas posições para o governador negociar: a vice e a outra cadeira ao Senado. A vice, antes prometida ao MDB, foi entregue a Adriano Silva, num movimento para ancorar o Norte do Estado e reforçar o discurso à direita.

Sobrava, portanto, apenas uma vaga majoritária — que, no desenho local, parecia naturalmente destinada a Carol de Toni. Mas, com Amin entrando pela cota da composição nacional, a deputada passou a ser o elo frágil da equação. Ou aceita a vice, rebaixando o projeto pessoal, ou fica fora da chapa majoritária.

No fim das contas, a montagem da chapa de Jorginho Mello revela menos um projeto catarinense e mais uma peça dentro da engrenagem nacional do PL e da federação PP-UB. Santa Catarina virou moeda de troca num jogo maior — e o governador, por ora, joga com cartas marcadas.

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