11/03/2026

Prefeitura sem mobilização vira gestão invisível: um curso me deu o gancho para esta coluna

Um treinamento inédito que acontecerá na próxima segunda-feira no Instituto Perillo, em Floripa, me deu o gancho exato para escrever sobre um tema que raramente aparece no debate sobre gestão pública, mas que é, comprovadamente, uma das maiores “dores” dos prefeitos brasileiros.

O curso se chama Gestão Mobilizada, ministrado pelo estrategista político e maior especialista brasileiro no assunto, Fabrício Moser, e aborda um problema que praticamente ninguém ensina nos manuais de administração pública: como transformar lideranças de uma gestão (sejam secretários, comissionados, vereadores aliados, lideranças comunitárias ou até mesmo servidores estratégicos) em uma rede viva de mobilização social.

Convenhamos: esse é um paradoxo curioso na política brasileira.

Muitas gestões conseguem entregar obras, serviços e programas de muita relevância para a população, mas a sensação é de invisibilidade.

Ou seja, a administração trabalha, executa e entrega, mas a percepção pública não acompanha esse ritmo.

E a culpa, claro, quase sempre vai para o setor de comunicação, embora o problema seja bem mais complexo. Eu já fui Secretário Estadual de Comunicação e senti, na pele, essa cultura nos órgãos públicos: algo deu errado? Culpa da comunicação. Está dando certo? A gestão é muito boa.

A explicação para esse fenômeno nem sempre está na comunicação ou na falta de visibilidade das obras e políticas públicas.

Muitas vezes está na ausência de um processo organizado de mobilização dos servidores e lideranças que tocam o dia a dia da gestão.

A política brasileira está relativamente avançada na mobilização eleitoral. Além do Moser, outros consultores desenvolveram expertises e estratégias para mobilizar cabos eleitorais, criar redes de apoiadores e organizar militância digital.

Mas, terminada a eleição, toda essa operação é desmontada.

A prefeitura se torna burocracia e a política desaparece.

Eu tenho repetido pelo Brasil, nos meus treinamentos para prefeitos e secretários, que entregar é necessário, mas não é suficiente. É preciso também explicar e traduzir para a população e mobilizar o time interno.

Sem isso, as obras, tão caras aos prefeitos, correm o risco de virar rotina e as entregas acabam perdendo valor político.

A maioria das gestões têm apostado todas as fichas nas redes sociais e nos canais institucionais, ignorando que nada substitui aquilo que realmente forma opinião pública: a rede social humana, de carne e osso.

Admito que essa ideia não é necessariamente nova. Um dos conceitos clássicos da comunicação política, conhecido como Two-Step Flow, formulado por Paul Lazarsfeld nos anos 1940, já demonstrava que a maioria das pessoas não forma opinião diretamente a partir da mídia, mas por meio de líderes intermediários.

São eles que interpretam, traduzem e retransmitem informações dentro das comunidades.

Traduzindo para a política brasileira, esses líderes formadores de opinião são figuras muito conhecidas no meio: lideranças comunitárias, professores, pastores, comerciantes, servidores públicos respeitados, vereadores ou mesmo lideranças informais de bairro.

Quando uma gestão não constrói uma relação ativa com esses atores, ela perde capilaridade social e, consequentemente, narrativa.

É por isso que o conceito de gestão mobilizada, que o Fabrício Moser vai trabalhar no curso do Instituto Perillo, é tão interessante.

Além de interessante, é um tema complexo. Trata-se de um terreno arenoso, que precisa resistir a algumas perguntas.

Por exemplo, como fazer mobilização (que é uma ação de natureza política) em um órgão público, regido por regras de imparcialidade e apartidarismo?

Ou: existem estratégias diferentes para cargos comissionados e servidores de carreira?

E ainda, além de fomentar o sentimento de pertencimento, as lideranças também exercem algum tipo de cobrança e pressão?

Independentemente das respostas a essas perguntas, o grande erro é achar que mobilização na gestão é fazer propaganda.

Mobilizar é o contrário de ser “chapa-branca”. É criar pertencimento e transformar lideranças da própria estrutura administrativa em multiplicadores das políticas públicas.

É delegar a esse “exército” interno a função de explicar decisões, contextualizar ações da prefeitura e traduzir programas para a realidade das comunidades em que estão inseridos.

Algumas gestões até tentam implantar esse modelo, mas muitas vezes ele não passa de mera repetição de slogans e clichês, longe de criar uma verdadeira cultura interna de mobilização.

Sem querer antecipar o que Fabrício Moser vai apresentar no treinamento (até porque não tive acesso ao conteúdo integral e estarei na plateia, na primeira fila), uma gestão mobilizada articula três dimensões simultaneamente: comunicação, articulação política e entrega de resultados.

Quando essas três dimensões caminham juntas, a gestão deixa de ser apenas um amontoado de secretarias e passa a funcionar como uma rede.

Trago aqui outra referência. O cientista político Robert Putnam demonstrou, em seus estudos sobre instituições e sociedade, que governos funcionam melhor quando existe densidade de relações sociais e participação comunitária.

Putnam chamou isso de capital social.

Traduzindo para os leitores, capital social significa exatamente isso: criar redes de cooperação que conectam governo e sociedade.

Quando uma prefeitura, ou qualquer governo, consegue estruturar essa rede com lideranças mobilizadas, canais de escuta e multiplicadores de informação, a percepção pública da gestão muda.

As políticas públicas permanecem as mesmas.

O que muda é que a sociedade passa a compreendê-las melhor.

Gestões que ignoram esse aspecto acabam presas a um modelo de comunicação frágil, focado apenas em publicações nas redes sociais e no envio de releases para a imprensa, esperando o milagre de que a informação simplesmente se espalhe.

Repito o que disse acima: um dos grandes erros das gestões públicas é acreditar que mobilização é algo exclusivo de campanha eleitoral.

Se nas campanhas utilizamos técnicas de mobilização para ganhar eleição, nas gestões precisamos mobilizar para sustentar legitimidade.

Talvez seja justamente por isso que tantos prefeitos, mesmo trabalhando muito, terminam seus mandatos com a sensação de que fizeram mais do que foram capazes de mostrar.

Na política atual, fazer é essencial, embora seja obrigação.

Mas fazer sem mobilizar é correr o risco de se tornar invisível.

E gestão invisível, na política, raramente termina bem.

PS: o curso do Moser acontece no Instituto Perillo para um grupo muito restrito. No dia da publicação desta coluna, quarta-feira (11), ainda havia três vagas disponíveis.

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