
E eis que o senador por Santa Catarina e especialista em pesca, Jorge Seif, escapou da cassação. Contra o prognóstico de muitos analistas, inclusive o meu.
Embora o processo contra ele seja frágil, a gente sabe que, nesse tipo de julgamento, tecnicismos jurídicos muitas vezes servem de pretexto para condenações políticas. Felizmente, para ele, não foi isso que aconteceu.
Não era minha intenção comentar o episódio, já que neste portal existem analistas políticos muito mais capacitados e informados do que eu, que, confesso, não sou muito afeito aos bastidores da micropolítica.
Mas, para honrar o nome desta coluneta, Fora do Tom, decidi escrever sobre os episódios em que Seif derrapou mas conseguiu sair ileso.
A história é pródiga em políticos que acumulam “vidas extras” ao longo de suas trajetórias. Conseguem escapar das crises, sejam políticas ou pessoais, viram a página e seguem adiante. O senador catarinense, ao que tudo indica, acaba de ganhar mais uma.
A decisão do TSE que manteve seu mandato encerra, ao menos juridicamente, o capítulo mais grave da sua trajetória recente. No tribunal, por ora, ele sobreviveu.
Mas a política real não é decidida apenas nos tribunais. E é aí que a história fica mais interessante, do ponto de vista da comunicação e do branding político.
Recapitulemos as duas “vidas” que salvaram Jorge Seif do cadafalso.
A primeira foi a crise com a própria base bolsonarista. Antes do TSE, houve o fatídico show da Madonna, do qual ele participou ao lado da esposa, que também está na vida pública.
Não foi crime, nem ilegal e muito menos houve erro jurídico no simples ato de ir a um show de pop. Afinal, ele tem o direito, como cidadão, de prestigiar o espetáculo de quem quer que seja.
Mas para seus seguidores fiéis, ir ao show de uma artista progressista, supostamente de “esquerda” dentro do showbiz, e ainda por cima considerada indecente, foi um ato “imoral”. Um baita ruído simbólico com a própria base conservadora que o elegeu.
Sua presença na área VIP, amplamente divulgada, irritou apoiadores bolsonaristas que enxergaram ali incoerência ideológica. Para eles, aquele foi um show “diabólico”, que teria atentado contra a moral e os bons costumes tão caros ao discurso bolsonarista.
Discurso que muitas vezes não se sustenta, haja vista o episódio recente envolvendo o ex-jogador Túlio Maravilha, que declarou ter proibido a filha de se matricular em uma universidade pública para zelar pelos bons costumes dela, sendo ele mesmo, o Túlio, um sujeito que… ah, deixa pra lá. Voltemos ao senador de Itajaí.
Na política atual, em que o identitarismo pesa mais do que as entregas, símbolos importam, e muito.
O episódio não derrubou o senador, mas talvez tenha deixado cicatrizes em sua reputação. Afinal, na voraz era das redes sociais, cada gesto comunica, especialmente para quem espera coerência absoluta.
A segunda “vida” veio na sequência do episódio da intérprete de Like a Virgin: a crise da sua performance.
Não satisfeito em ir ao show da Madonna, resolveu fazer uma live para tentar explicar-se. Ele claramente improvisou, não preparou previamente sua fala e parece não ter ouvido a assessoria. Resultado: apareceu em público, para milhares de pessoas, com a voz embargada e visivelmente alterado.
Ali não era mais sobre conteúdo, e sim sobre controle. Crises, via de regra, não começam no argumento político e sim na imagempessoal.
A propósito, minha coluna anterior foi sobre esse mesmo tema, a relação nem sempre síncrona entre argumento e imagem. Eu abordei a postura do prefeito de Mossoró Allysson Bezerra após a operação da Polícia Federal em sua casa. No vídeo postado logo após o episódio, argumentos zero, mas postura nota dez.
Na live de Seif, a comunicação não verbal falou mais alto do que qualquer frase. Parte do público viu fragilidade, embora o tenha defendido. Foram vários comentários do tipo: “Já entendemos, Seif. Te perdoamos. Agora termina essa live que já está uma vergonha alheia”.
Entre trancos e barrancos, ele também sobreviveu a essa segunda crise.
Mas, espero, ficou a lição: na política, o corpo comunica antes da palavra.
Já a terceira “vida” é recente: o TSE.
O julgamento no Tribunal Superior Eleitoral era o ponto de maior risco, pois não se tratava mais de narrativa, e sim de mandato.
Aqui a decisão não dependia apenas de performance, de presença digital ou do apoio dos seguidores fiéis. Dependia de votos, de interpretação jurídica e de articulação política.
O TSE decidiu e o mandato está preservado. No campo jurídico, a crise terminou.
Resta saber como ele se portará daqui para frente, porque o problema não é sobreviver. Enfrentar e vencer crises não é sinônimo de fortalecimento automático.
Alguns políticos saem maiores depois de um embate. Outros saem intactos, mas não necessariamente fortalecidos.
A pergunta que repasso ao nobre leitor é outra: a soma dessas três situações (simbólica, performática e jurídica) produz desgaste acumulado ou blindagem narrativa?
Pois a próxima crise pode não ser jurídica, e sim puramente reputacional.
E crises de imagem, diferentemente das judiciais, não têm prazo para acabar nem tribunal para decidir.
Elas são julgadas na memória e na percepção do eleitor, que é quem decide o futuro daqueles que elegeram.
Se Jorge Seif pretende apenas concluir seu mandato, talvez o episódio esteja superado.
Se pretende algo maior, mesmo que improvável na minha opinião, a régua muda.
Na política contemporânea, especialmente na direita conservadora, coerência simbólica é capital que, quando arranhado, cobra juros.
A pergunta que fica é simples: Jorge Seif sobreviveu ao TSE, mas sobreviverá à próxima crise?
Porque mandato se salva no tribunal, mas carreira política se sustenta na percepção.
Estou pagando pra ver.




