10/04/2026

Microatenção: quando 30 segundos parecem um longa- metragem

A história é a seguinte: há poucos minutos eu escrevia a coluna inspirado em uma fala do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, que afirmou em entrevista que 30 segundos de propaganda eleitoral na televisão seriam suficientes para sua campanha ao governo de Minas Gerais.

Ps: imagem gerada por Inteligência Artificial

A ideia de Kalil, mesmo que indireta, era simples: defender que, nos dias atuais, quem não consegue dizer o essencial em poucos segundos não consegue se comunicar.

Afinal, estamos na era da comunicação fragmentada, na qual o recorte é o novo vídeo.

Prometo voltar a esse tema brevemente.

Ocorre que, em meio à finalização da coluna original, fui surpreendido por um artigaço do Adriano Oliveira, publicado no canal Meio, sobre microatenção.

O texto era tão instigante que decidi mudar o rumo da coluna.

E por um motivo muito simples: ao invés de discutirmos se 30 segundos são suficientes ou não para a comunicação política, talvez a pergunta que verdadeiramente importa seja outra: alguém ainda consegue prestar atenção em algo por mais de meio minuto?

Nobre leitor, essa cena você conhece bem. Você está com o celular na mão e aparece um vídeo no feed da rede social, depois outro, depois mais um. Você vai rolando a tela e, quando se dá conta, meia hora do seu dia foi embora.

E o pior não é a sensação de tempo perdido.

É o estado mental que fica após essa sucessão de impulsos visuais e sonoros.

Você até tenta voltar para o que estava fazendo, mas já não consegue sustentar a atenção.

Sua cabeça ficou saltando de um estímulo para outro, como se estivesse viciada em interrupção.

E está.

Eu sou a prova viva disso, haja vista a mudança radical na minha relação com a literatura nos últimos anos. Mas essa é outra história, que contarei em coluna posterior.

O fato é que, durante muito tempo, a gente tratou essa “desatenção” como falta de disciplina.

Ou seja, a falta de foco seria uma fraqueza.

Mas não é.

No fundo, é uma engenharia que joga contra nós.

O que o artigo do Adriano chama de microatenção é exatamente isso: a fragmentação contínua do foco ao longo do dia.

Você não está mais concentrado ou disperso. Você está permanentemente dividido entre o que ver, ouvir e sentir.

E isso não acontece por acaso.

É tudo premeditado pelas chamadas plataformas digitais.

Elas operam em um modelo chamado reforço intermitente. A lógica é simples: você nunca sabe o que vem a seguir.

Mais uma cena familiar: você está nas redes sociais e surge um conteúdo ruim, depois outro mais ou menos e de repente aparece um que chama sua atenção.

E é justamente essa imprevisibilidade que ativa o sistema de recompensa do cérebro.

É a tal da dopamina.

E não é só prazer. Tem um lance de prioridade também.

O cérebro entende que “isso aqui importa” e volta.

Dados recentes mostram que, há cerca de 20 anos, o tempo médio de atenção caiu de algo próximo a dois minutos e meio para menos de um minuto.

Quarenta e poucos segundos não é um mero detalhe.

Mas o ponto mais preocupante não é só a queda do tempo de atenção.

E foi justamente essa a minha motivação para escrever essa coluna.

O pior é o que está acontecendo dentro do nosso cérebro.

O artigo explica que nosso funcionamento cognitivo depende essencialmente de três redes.

A primeira é a rede de modo padrão, ligada à criatividade.

É quando a mente divaga, conecta ideias e tem insights. Aquela ideia que surge no banho, dirigindo ou caminhando.

Um lance meio “Ócio Criativo”, do Domenico de Masi.

A segunda é a rede de saliência, que é ativada quando algo chama a nossa atenção.

Pode ser um alerta, uma notificação, um vídeo ou qualquer estímulo novo.

A terceira é a rede executiva, responsável pelo foco profundo, pela resolução de problemas e pela construção de um raciocínio mais elaborado.

O problema é que o ambiente digital nos prende o tempo todo na segunda.

Na tal rede de saliência, tudo chama a atenção.

Tudo parece urgente e compete pelo mesmo espaço mental.

E aí acontece algo brutal.

Se você passa tempo demais nesse estado, não ativa nem a criatividade nem o foco profundo.

Ou seja, perde os dois lados mais importantes da cognição.

Você até consome algum tipo de informação, mas não transforma em conhecimento.

Veja o que acontece na prática.

Você assiste um corte de podcast de 30 segundos, acha interessante, mas não vê a entrevista inteira.

Vê um trecho de debate, mas não acompanha o contexto.

Lê um post, mas não abre a matéria completa.

Comente aqui, embaixo dessa coluna: você lê muito, vê muito, escuta muito, mas no fim das contas entende pouco.

Não é isso?!

A gente se acostumou, erroneamente, a chamar isso de produtividade.

Mas, na prática, é fragmentação da atenção.

E tem mais um mito do mundo corporativo que precisa cair.

O de sermos multitarefa.

A gente gosta de dizer que consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Eu mesmo sou um deles.

No fundo, escrevo essa coluna para mim mesmo, como autoreflexão.

Mas o cérebro não faz várias coisas ao mesmo tempo.

Ele alterna, e essa alternância tem custo.

Mais erro, menos qualidade e menos profundidade.

Enquanto achamos que ficamos mais eficientes, no fundo estamos mais superficiais.

Pra finalizar, não sejamos ingênuos.

O que está acontecendo não é uma evolução natural do mundo digital e tecnológico.

Nada disso é um acidente.

A atenção virou o principal ativo da economia digital.

Não basta ter usuários, é preciso fazer as pessoas criarem hábitos e dependências

A disputa hoje não é nem por audiência e sim por comportamento.

Isso explica por que está difícil ler um livro, as reuniões parecem intermináveis e qualquer tarefa que exige mais de alguns minutos de foco já começa a incomodar.

E explica, principalmente, por que a comunicação mudou.

Se o cérebro foi treinado para decidir rápido, não adianta o emissor querer falar devagar.

Se a atenção média dura segundos, não adianta construir mensagens que dependem de minutos.

Não é mais uma escolha.

E é exatamente por isso que a política, tema da minha próxima coluna, passou a caber nos 30 segundos do Kalil.

Não porque ficou mais simples, mas porque o ambiente não permite mais nada além disso.

A pergunta que fica não é se a comunicação ficou superficial.

A pergunta é outra.

O que ainda consegue sobreviver em um mundo que não para?

Porque, no fim das contas, o problema não é que as pessoas não querem prestar atenção.

O problema é que estão sendo treinadas, todos os dias, para não conseguir.

Por fim, confesso que não foi fácil terminar essa coluna.

Era celular tocando, notificação chegando, uma olhada no WhatsApp aqui, outra no Instagram ali.

Foi um parto.

Acostumem-se. Esse é o novo normal.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

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