25/02/2026

Cebola no vermelho, Brasília no ritmo lento e SC chama o debate para casa

Fôlego administrativo não paga conta

O governo orienta renegociar, Santa Catarina decreta emergência, a Assembleia puxa o debate e o produtor segue vendendo abaixo do custo. A crise da cebola virou o retrato do pós-Carnaval no agro: medida administrativa vira manchete, renda segue faltando.

No mesmo dia, Brasília discute semente e propriedade intelectual, abre mercado na Ásia e assiste a porto ser invadido no Pará – com nota dura da FPA.

Agenda cheia. Caixa vazio.

Cebola: MDA orienta renegociar Pronaf e SC oficializa emergência em 7 municípios

O Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) orientou produtores de cebola a buscarem renegociação de dívidas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

A prorrogação não é automática: o produtor precisa procurar o banco e comprovar dificuldade temporária, conforme prevê o Manual de Crédito Rural (MCR).
Enquanto Brasília aponta o caminho administrativo, Santa Catarina formalizou decretos de emergência diante da queda de preços abaixo do custo de produção.

Já decretaram estado de emergência: Ituporanga, Atalanta, Alfredo Wagner, Chapadão do Lageado, Imbuia, Leoberto Leal e Lebon Régis.
Dados da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), por meio do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), indicam que a safra 2025/26 vinha com projeção de +6,9% na produção (≈551,7 mil t) produtividade não é o problema: preço e escoamento, sim!
Tradução: renegociar dá fôlego para não sujar cadastro. Não recompõe margem.

Alesc chama o jogo: Comissão de Agricultura debate crise da cebola (25/2, 9h)

A Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) se reúne nesta quarta (25), às 9h, sob a presidência do deputado Altair Silva (PP–SC), para ouvir Epagri, Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc) e municípios produtores.
De acordo com o deputado, a situação da cebola “repete o filme do leite: preço de venda não cobre o custo de produção o produtor paga para trabalhar”.

Ele lembra que Santa Catarina responde por cerca de 40% da cebola que abastece o mercado brasileiro, com o Alto Vale do Itajaí concentrando a produção.

“Não dá para acreditar que os agricultores catarinenses estejam enfrentando crise em tantos setores. Somos um estado exportador, com produções recordes, e é inadmissível que nossos produtores trabalhem no vermelho. Por isso, convidamos a Epagri e os municípios, para que possamos encontrar alternativas viáveis e tentar solucionar o problema”, explica Altair Silva.
Leitura política: quando SC convoca Epagri + Facisc + prefeituras, não é audiência de praxe. É tentativa de tirar a crise da planilha e levar para a política pública.

Lei de Cultivares: projeto é retirado da Câmara o que muda (e o que trava)

O projeto que altera a Lei de Proteção de Cultivares foi retirado da tramitação pelo autor, deputado Giovani Cherini (PL–RS), após resistência de produtores gaúchos apesar de consenso entre entidades do agro e apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
O que estava em jogo:

  • Prazo de proteção: de 15 para 20 anos (e exceções para 25 anos);
  • Semente salva: manutenção do direito, com royalties ao melhorista (exceções para agricultura familiar e cana);
  • Criminalização da venda de semente salva ainda protegida;
  • Regras para coibir abusos na cobrança de royalties.
    Impacto para o produtor: mais segurança jurídica e estímulo à inovação genética em culturas sem biotecnologia embarcada (arroz, feijão, mandioca). O freio político adia investimento privado em melhoramento custo invisível que aparece na produtividade lá na frente.

Coreia do Sul: acordos agrícolas e portas que se abrem

Brasil e República da Coreia (Coreia do Sul) firmaram acordos em sanidade, bioinsumos, agricultura digital e cooperação científica com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou avanço na abertura do mercado de ovos e auditorias para habilitar frigoríficos de carne bovina; também há agenda para uva.
Detalhe estratégico: hoje apenas Santa Catarina exporta carne suína para a Coreia; o governo coreano sinalizou avaliar outros estados livres de aftosa sem vacinação. Abertura de mercado é renda e previsibilidade.

Invasão ao terminal da Cargill: entidades reagem e FPA cobra Estado de Direito

A ocupação do terminal da Cargill em Santarém (PA) provocou reação de entidades portuárias e do agro (Abiove, Abani, ABTP, Amport e IBP), que denunciaram vandalismo, risco à segurança e interrupção de logística essencial. O terminal movimentou >5,5 milhões t de soja e milho em 2025 impacto direto em escoamento.
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) divulgou nota oficial: a invasão é ato ilegal, incompatível com o Estado Democrático de Direito; manifestação é direito, invasão de propriedade e paralisação coercitiva, não.
Leitura dura: protesto que fecha porto vira custo logístico e o custo, como sempre, cai no colo de quem produz e exporta.

Fôlego, audiência e porto fechado: o agro paga a conta do improviso

Cebola renegocia, Alesc debate, semente trava, mercado abre lá fora e porto fecha aqui dentro.

O agro segue vivendo de medida administrativa para apagar incêndio, enquanto política estruturante patina.
Fôlego não paga conta. E logística fechada não exporta.

COMPARTILHE
Facebook
Twitter
LinkedIn
Reddit