Artigo de Remy J. Fontana, Sociólogo, professor aposentado no Depto. de Sociologia e Ciência Política – UFSC

Há cidades que acolhem.
E há cidades que, ao acolherem, são também transformadas por aqueles que nelas escolhem viver, agir e lutar.
Florianópolis é uma dessas cidades.
E Nelson Wedekin é um desses homens.
Há mais de cinco décadas, ele fez desta cidade não apenas o seu lugar de morada, mas o seu campo de ação — o espaço concreto onde ideias se traduzem em compromisso, e onde princípios são testados na vida real.
Porque é aqui, no chão da cidade, que a política deixa de ser abstração e se torna responsabilidade.
E foi aqui, sobretudo nos anos difíceis do regime instaurado em 1964, que o nome Wedekin passou a designar mais do que uma pessoa.
Designava uma presença ativa na resistência democrática.
Num tempo em que tantos hesitaram, ele se posicionou.
Num tempo em que o medo era um método de governo, ele ajudou a sustentar a coragem como prática coletiva.
Organizou, articulou, pensou estratégias — mas, acima de tudo, manteve viva a convicção de que a política não pode se dissociar da dignidade humana.
E é por isso que esta homenagem não pode ser entendida apenas como um reconhecimento retrospectivo.
Ela é também — e talvez sobretudo — uma afirmação no presente.
Porque vivemos tempos em que, mais uma vez, valores que julgávamos assentados voltam a ser tensionados.
Tempos em que o debate público se empobrece, em que o sectarismo substitui o argumento, em que o ruído tenta se impor sobre a razão.
E é exatamente nesses momentos que trajetórias como a de Wedekin adquirem novo significado.
Não apenas pelo que fizeram, mas pelo que continuam a exigir de nós.
Ao longo dessas cinco décadas em Florianópolis, ele não foi apenas um participante da vida pública.
Foi um daqueles que contribuem para elevar o seu nível.
Que recusam a banalização da política.
Que insistem em padrões mais altos de argumentação, de responsabilidade, de compromisso com o bem comum.
E fez isso sem abrir mão de uma qualidade cada vez mais rara:
a disposição para o diálogo verdadeiro.
Não o diálogo fácil, complacente, que tudo relativiza —
mas o diálogo exigente, que escuta, confronta, depura e, quando necessário, diverge com firmeza.
Essa combinação — firmeza sem dogmatismo, abertura sem fraqueza — é o que distingue os que apenas ocupam espaços daqueles que efetivamente deixam marcas.
E Wedekin deixou marcas nesta cidade.
Marcas na vida política, nas instituições, no debate público —
mas também, e talvez de forma ainda mais duradoura, na formação de gerações que aprenderam, com ele, que a política pode — e deve — ser exercida com densidade ética.
Por isso, ao conceder-lhe o título de Cidadão Honorário de Florianópolis, esta cidade não está apenas reconhecendo alguém que aqui vive há cinquenta anos.
Está reconhecendo alguém que ajudou a definir o que ela pode ser.
Uma cidade que não se resigna.
Uma cidade que debate.
Uma cidade que resiste.
Uma cidade que não abdica dos valores civilizatórios.
Por isso que esta homenagem é mais do que merecida.
Ela é, de certo modo, um espelho:
ao reconhecê-lo, Florianópolis também afirma aquilo que deseja reconhecer em si mesma.






