Artigo de Marlene Fengler, Secretária-geral da ALESC

Quando se fala em agronegócio brasileiro, quase sempre pensamos em números: exportações recordes, produtividade, tecnologia e mercados internacionais.
Mas, neste mês de março, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher, vale lembrar que por trás de boa parte da produção de alimentos do país existe uma presença muitas vezes silenciosa, mas fundamental: as mulheres do campo.
Eu cresci no interior do Extremo Oeste catarinense, filha de pequenos agricultores. Como acontece em tantas famílias rurais, minha mãe dividia o tempo entre os cuidados da casa e o trabalho na lavoura. Ao lado do meu pai, ajudava a plantar, colher e garantir a renda da família.
Na época, quase ninguém falava sobre isso. Mas hoje sabemos que aquela realidade se repetia em milhares de propriedades pelo Brasil.
Segundo o IBGE, mais de 4 milhões de mulheres trabalham na atividade rural no país, e quase um em cada cinco estabelecimentos agropecuários já é dirigido por mulheres. Muitas delas não apenas ajudam na produção, mas participam da gestão das propriedades, tomam decisões sobre investimento e conduzem processos de inovação no campo.
E o campo brasileiro nunca foi tão importante para a economia. Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 169 bilhões em produtos do agronegócio, quase metade de tudo o que o país vendeu ao exterior. Santa Catarina também tem papel de destaque nesse cenário, com mais de US$ 12 bilhões em exportações, puxadas principalmente pelos setores de carne de frango e carne suína.
Mas por trás desses números grandiosos existe uma pergunta que começa a preocupar especialistas e produtores: quem vai produzir o alimento do futuro?
O Brasil vive hoje uma mudança importante no perfil da população rural. Dados do IBGE mostram que mais de 30% dos produtores têm mais de 65 anos, enquanto a presença de jovens no campo diminui ano após ano. A sucessão rural se tornou um dos grandes desafios da agricultura brasileira.
Por isso, formar novas gerações para o campo passou a ser uma questão estratégica, diria até de sobrevivência. A agricultura moderna exige conhecimento técnico, gestão, inovação e domínio de novas tecnologias.
Santa Catarina tem alguns bons exemplos nessa área. Em regiões como o Vale do Rio do Peixe, escolas agrícolas e institutos federais ajudaram a formar jovens que hoje atuam na agricultura familiar e em cadeias produtivas sofisticadas. Municípios como Videira, Tangará e Pinheiro Preto conseguiram transformar tradição em inovação, fortalecendo uma atividade que virou referência regional: a produção de vinhos e sucos de uva. Nessas localidades, muitos jovens encontraram oportunidades, trabalhando com vitivinicultura, agroindústria e turismo rural, muitas vezes dando continuidade ao trabalho iniciado pelas famílias, e geralmente inovando na produção.
Quando vemos o agronegócio brasileiro conquistar mercados no mundo inteiro, é importante lembrar que essa história começou muito antes dos grandes números das exportações. Ela nasceu nas pequenas propriedades e no trabalho de milhares de famílias agricultoras.
E, em muitas dessas histórias, havia uma mulher trabalhando desde cedo, e quase sempre sem reconhecimento. Neste mês de março, talvez seja um bom momento para lembrar que as mulheres sempre ajudaram a produzir o alimento que chega à nossa mesa.
Valorizar essa presença, e garantir que novas gerações continuem acreditando no campo, é também pensar no futuro da produção de alimentos no Brasil. Porque o agro pode até bater recordes de exportação, mas o verdadeiro recorde que o país precisa alcançar é outro: garantir que homens e mulheres continuem vendo no campo um lugar de trabalho, dignidade e futuro.





