04/06/2026

Quando a cidade não pode parar. Por Maryanne Mattos

Artigo de Maryanne Mattos, prefeita interina de Florianópolis

Nos últimos dias, tive a honra de exercer a função de Prefeita em Exercício de Florianópolis.

Embora eu já acompanhe diariamente os desafios da administração municipal como Vice-Prefeita e Secretária Municipal de Segurança e Ordem Pública, assumir temporariamente a chefia do Executivo proporciona uma perspectiva diferente sobre a cidade e sobre a responsabilidade de governá-la.

Antes de qualquer reflexão, faço um agradecimento ao prefeito Topázio Neto pela confiança depositada em mim durante este período.

Vivemos um momento raro na política brasileira, em que muitas vezes as divergências ganham mais espaço do que os resultados. Em Florianópolis, temos construído uma gestão baseada na confiança, no respeito institucional e no entendimento de que o interesse da cidade deve estar sempre acima das vaidades pessoais.

Talvez por isso a transição temporária tenha acontecido de forma tão natural.

A cidade continuou funcionando. Os projetos seguiram avançando. As equipes mantiveram seu ritmo de trabalho. E é exatamente assim que uma administração pública madura deve funcionar.

Nenhuma cidade pode depender de uma única pessoa.

E foi justamente essa reflexão que me acompanhou durante esses dias.

A agenda foi intensa.

Recebemos o Ironman, um dos maiores eventos esportivos do mundo, capaz de movimentar a economia, fortalecer o turismo e projetar Florianópolis internacionalmente.

Acompanhamos o Casamento Comunitário, uma iniciativa que muitas vezes passa longe das manchetes, mas que representa algo fundamental: a capacidade do poder público de transformar a vida das pessoas através de gestos concretos de cidadania.

Na área da segurança pública, realizamos a posse dos membros do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M), fortalecendo um modelo que considero essencial para os desafios atuais: a integração entre instituições.

Segurança pública, aliás, é uma das áreas que mais nos ensina sobre a importância do trabalho coletivo. Nenhuma instituição resolve os problemas sozinha. Os resultados aparecem quando existe cooperação, compartilhamento de informações e objetivos comuns.

O mesmo vale para a gestão da cidade.

Também realizamos importantes reuniões com representantes do BNDES, do BID e equipes técnicas da Prefeitura para discutir projetos estruturantes voltados à habitação social, mobilidade urbana, resiliência climática e segurança pública.

Foram encontros que talvez não apareçam nas fotos mais compartilhadas das redes sociais, mas que podem produzir impactos muito maiores no futuro da cidade.

São discussões que ajudam a preparar Florianópolis para os próximos dez, vinte ou trinta anos.

Porque governar não é apenas resolver os problemas do presente.

É também construir soluções para desafios que ainda estão por vir.

Outro momento que marcou esses dias foi o festival de música eletrônia Sekreta, dentro das comemorações dos 100 anos da Ponte Hercílio Luz.

O evento reuniu um público muito superior ao inicialmente projetado, demonstrando a força da cidade como destino turístico, cultural e de entretenimento.

Como ocorre em qualquer grande evento, especialmente quando a participação supera as expectativas, surgem desafios operacionais que precisam ser observados e avaliados. E é exatamente isso que a Prefeitura fará, como faz com todos os eventos de grande porte realizados na Capital.

Mas é importante registrar um fato que, muitas vezes, acaba ficando em segundo plano.

Apesar da enorme concentração de pessoas, não houve registro de ocorrências graves, acidentes ou qualquer situação relevante relacionada à segurança pública.

As equipes da organização, da Prefeitura e das forças de segurança acompanharam toda a operação e atuaram prontamente sempre que necessário.

Isso não significa que não existam pontos a serem aprimorados. Sempre existem.

Mas demonstra a capacidade de resposta de uma cidade que vem se preparando para receber cada vez mais visitantes, turistas e grandes eventos.

Talvez exista uma explicação simples para isso.

Florianópolis cresceu.

E continua crescendo.

Cada vez mais pessoas querem viver aqui, investir aqui, visitar e participar dos eventos realizados aqui.

Esse crescimento traz oportunidades extraordinárias, mas também exige planejamento permanente, investimentos e capacidade de adaptação.

Foi justamente observando essa dinâmica que outra reflexão me acompanhou durante esses dias: a importância da continuidade administrativa.

Existe uma ideia equivocada de que liderança significa centralizar tudo.

Na verdade, liderar é formar equipes, desenvolver pessoas e construir instituições capazes de funcionar bem mesmo quando seus líderes estão temporariamente ausentes.

O período em que exerci a Prefeitura coincidiu com um momento de descanso do prefeito Topázio.

E isso me fez pensar sobre um tema pouco debatido na vida pública.

Gestores públicos também precisam descansar.

Precisam conviver com suas famílias.

Precisam cuidar da saúde física e mental.

Precisam recuperar energias para continuar tomando decisões que impactam a vida de milhares de pessoas.

Isso não enfraquece uma gestão.

Pelo contrário.

Fortalece.

Porque demonstra que existem equipes preparadas, planejamento e confiança mútua.

Ao final desses dias, deixo a função de Prefeita em Exercício com ainda mais admiração pelo desafio de governar uma cidade como Florianópolis.

Uma cidade que celebra os 100 anos do seu maior cartão-postal, olhando para frente.

Uma cidade que recebe grandes eventos sem perder sua essência.

Uma cidade que investe em segurança, mobilidade, habitação e resiliência climática.

Uma cidade que cresce sem abrir mão da qualidade de vida.

E, acima de tudo, uma cidade que demonstra diariamente que bons resultados são fruto de trabalho coletivo.

Porque cargos são temporários.

Mas a responsabilidade de cuidar das pessoas é permanente.

E é ela que deve orientar cada decisão tomada por quem escolhe dedicar sua vida ao serviço público.

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