Artigo de Rafael Ary, professor da UFSC

Você sabe por que a UFSC agoniza nas mãos de uma gestão desastrosa? Prédios caindo aos pedaços, conflitos permanentes, perda de prestígio perante a sociedade, sensação crescente de que a prioridade deixou de ser a excelência acadêmica e passou a ser a disputa interna por poder. Não se trata apenas de falta de dinheiro ou de dificuldades circunstanciais. A resposta para tudo isso está na forma como se escolhe o reitor.
Hoje, a legislação determina que, se houver consulta à comunidade universitária, o voto seja ponderado. O voto de cada categoria tem peso diferente: 70% para professores e 30% para técnicos e estudantes juntos. Para ser reitor é obrigatório ser professor, ter doutorado e dedicação exclusiva. Apenas professores com essa qualificação podem ocupar o cargo. O modelo 70/30 reflete essa responsabilidade e estabelece um vínculo direto entre quem pode exercer a função e o peso de sua escolha.
Apesar disso, a UFSC e muitas universidades federais realizam uma consulta “informal” com voto paritário, na qual o voto de professores, técnicos e estudantes tem exatamente o mesmo peso, cada grupo corresponde a um terço do resultado. Quando essa consulta passa a determinar o resultado final, ela deixa de ser apenas consulta e substitui, na prática, o modelo previsto na legislação. A escolha deixa de refletir o peso institucional vinculado ao cargo e passa a ser definida por propostas populistas.
Quando o voto é paritário, o incentivo muda. O candidato passa a disputar popularidade em vez de priorizar uma gestão universitária séria. Em vez de apresentar um projeto consistente de administração, passa a formular propostas orientadas por maiorias circunstanciais. Professores com perfil mais adequado ao cargo de reitor tendem a se afastar desse tipo de disputa. O reitor não deveria ser o mais popular. Deveria ser o mais preparado para dirigir a instituição.
Ao observar como as melhores universidades do mundo escolhem seus reitores, percebe-se que entre as mais bem ranqueadas o dirigente não é escolhido por voto universal ou paritário. Os dois modelos mais comuns são:
- O reitor é escolhido por um conselho de governança, após um processo formal de seleção.
- Há eleição com voto ponderado, na qual as categorias têm pesos diferentes. Nesses casos, o peso atribuído aos docentes reflete o fato de que apenas eles podem ocupar o cargo.
Sou favorável ao fim da lista tríplice. É possível ter eleição direta para reitor, desde que se preserve o 70/30. O 70/30 alinha a responsabilidade do cargo com o peso do voto. Sem essa ponderação, a eleição se torna mais atrativa para candidaturas de perfil populista e menos orientada à responsabilidade institucional. Não é por acaso que o voto paritário não é utilizado pelas principais universidades do mundo. Basta andar pelo campus da UFSC para compreender o motivo.






