Artigo de Felipe Fernandes, CEO da Codefique

Em junho de 2026, os olhos do Brasil estarão voltados para os gramados da América do Norte. Mas, enquanto a torcida vibra com a Copa do Mundo, nos bastidores das empresas de Santa Catarina o jogo é outro e muito mais silencioso. Enquanto o país para nos feriadões ou se distrai com o calendário eleitoral, os sistemas das nossas indústrias, portos e fintechs continuam processando pedidos, liberando cargas e realizando transações críticas.
O grande problema é que incidentes tecnológicos não escolhem horário comercial para acontecer; eles adoram o silêncio das madrugadas de feriado ou a euforia de um gol da seleção. É exatamente nesses momentos de “atenção dividida” que o empresário descobre se construiu uma operação resiliente ou se vive sob uma esperança tecnológica frágil.
Muitos CEOs ainda enxergam a sustentação de software como um custo ou, no máximo, um mal necessário. Gosto de usar uma analogia simples que todo dono de empresa entende: a sustentação é como o seguro de um carro. Você investe mensalmente esperando nunca precisar usá-lo, mas, quando a colisão acontece, ele é a única coisa que impede o prejuízo total. No mundo digital, essa colisão é o incidente crítico que retira o sistema do ar.
Vivi isso de perto em um dos grandes portos do nosso estado, onde o sistema de portaria simplesmente colapsou. Caminhões empilhados, logística travada e uma pressão gigantesca. Sem uma equipe que conhecesse o ecossistema de ponta a ponta, foram necessárias dez horas de uma sala de guerra exaustiva, com trinta pessoas tentando descobrir o que houve, para entender que a falha não era no código, mas em um equipamento de armazenamento. Sem esse “mapa da mina”, a empresa fica refém do caos.
A agilidade que o mercado moderno exige não permite mais esse tipo de lentidão. Imagine o caso de uma fintech em pleno crescimento que, ao subir uma atualização, vê a funcionalidade de pagamentos via Pix parar de funcionar. Em minutos, a reputação da marca começa a ser corroída nas redes sociais. A diferença entre o desastre e a solução, nesse cenário, não foi a sorte, mas a existência de um time de prontidão que já tinha intimidade com o código. Não houve perda de tempo tentando entender quem mexeu por último ou como o sistema foi montado. A resiliência digital não garante que o erro nunca vá acontecer, mas dita a velocidade da sua volta por cima. Quem conhece o sistema resolve em minutos; quem não conhece, passa horas apenas tentando entender o problema.
Outro risco invisível para as empresas catarinenses são os chamados sistemas órfãos. São aquelas soluções que foram implantadas por parceiros que não estão mais presentes, transformando o código em uma “caixa preta” que ninguém ousa tocar.
Recordo-me de uma gigante do setor têxtil que enfrentou um vazamento crítico de credenciais de segurança justamente no dia em que o seu parceiro de tecnologia celebrava um marco interno importante. Se não houvesse uma parceria de sustentação sólida, capaz de abandonar o brinde para intervir em sistemas complexos e legados fora do horário comercial, o dia de festa teria terminado em um pesadelo jurídico e operacional. Ter alguém que guarda a sua retaguarda enquanto você foca no crescimento é o que separa as empresas que lideram das que apenas tentam sobreviver aos imprevistos.
Em 2026, a disponibilidade contínua deixou de ser um diferencial para se tornar o requisito mínimo de sobrevivência. No mercado de software como serviço ou na indústria 4.0, o cliente não tolera mais a indisponibilidade. Se o sistema cai e demora a voltar, a experiência do usuário é destruída e a confiança se esvai.
A mensagem para o empresário é: não adianta tentar treinar o exército quando a guerra já começou. A tecnologia invisível da sustentação, aquela que ninguém vê quando tudo funciona bem, é a única que realmente aparece para salvar a empresa quando tudo dá errado. Antes de buscar a próxima grande inovação mirabolante, certifique-se de que a sua base é inabalável. Afinal, no jogo do mercado, ganha quem consegue se manter em campo até o apito final.





