Artigo de Kalil de Oliveira Rodrigues, jornalista

Dois corpos já estão no chão. As mãos para trás e a inexpressividade dos rostos revelam o tombo causado pelas escopetas. Encostados no paredão, estão cerca de 11 homens magros, sem camisas, vendados, com marcas de sangue no corpo, que esperam com angústia pela execução. Alguns apontam os queixos para baixo, como quem aceita o destino. Outros dois inclinam a cabeça para cima, em possível súplica a Deus. Apenas um encara os executores. Ao centro, três oficiais de fardas cinzas apontam as armas. No plano inferior esquerdo, quatro mulheres de negro – mães, viúvas – lamentam: duas se consolam, uma enxuga o rosto e a quarta olha para o céu. No cenário, fortalezas já envelhecidas. No plano superior, vê-se o mar ensanguentado de um lado e, do outro, o céu vermelho.
O quadro “Anhatomirim ano 1894” (óleo sobre tela), pintado por Juarez Machado (Joinville, 1941), em 1997, em Paris, revela o maior trauma de Florianópolis. Ao longo da Revolução Federalista, revolta do Sul por mais independência administrativa, o presidente Floriano Peixoto usou a Ilha de Anhatomirim, na Baía Norte da Ilha de Santa Catarina, para executar adversários políticos. Foi um verdadeiro massacre que marcou o início da República e, de certa forma, orientou a relação que os estados sulistas desenvolveriam com o Brasil, marcada por ressentimento político diante da constante frustração com seu lugar no projeto nacional. Cerca de 200 homens foram assassinados ali. A brutalidade rendeu ao ditador homenagem no próprio nome da cidade: antes Vila de Nossa Senhora do Desterro, passou a se chamar Florianópolis – cidade de Floriano.
O fato histórico é relevante. Guardadas as proporções, é possível compará-lo com guerras civis da Argentina, Uruguai e até mesmo da Espanha. São episódios que geram narrativas, construções que constituem – como sempre, artificialmente – certo espírito nacional ou ao menos regionalista. Surgiram, então, romances, quadros e óperas que evocam os valores em disputa nos conflitos. Portanto, ignorar a história também é um ato político.
Toda identidade compartilhada é fruto de esforços culturais. Portugal, por exemplo, teve sua ética baseada em “Os Lusíadas”, poema épico de Luís de Camões que narra a viagem de Vasco da Gama à Índia. O próprio Rio Grande do Sul, ao lado de Santa Catarina, é rico nesse sentido. Por isso, os gaúchos, de modo geral, são bairristas, valorizam sua história e ostentam grandes artistas. Os poemas de João da Cunha Vargas são centrados na Revolução Farroupilha, ainda que a referência esteja oculta em alguns textos. Em “Deixando o pago”, mais tarde musicado por Vitor Ramil, esses valores idealizados são expostos.
“Tosca”, de Giacomo Puccini, por exemplo, mostra os desdobramentos da Batalha de Marengo, opondo os republicanos Mario Cavaradossi e Angelotti ao chefe da polícia Scarpia, representante da Inquisição restaurada. Do lado republicano, há valores, ideais e amor. Do outro, violência, inclusive sexual, e corrupção. Narrativas moldam identidades.
Grandes nações, ou povos, são produto de políticas culturais, para o bem e para o mal. A Alemanha nazista e a Itália fascista sabiam disso. “A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica… ou então não será nada”, discursou Joseph Goebbels em 1933. No caso italiano, o futurismo é o movimento mais concreto nesse sentido, ao cultuar a agressividade. A União Soviética também utilizava a arquitetura brutalista para denotar sua potência.
Os setores mais olavistas do bolsonarismo também demonstraram compreender isso. Prova é o pronunciamento de Ricardo Alvim, então secretário especial de Cultura, que reproduziu a fala de Goebbels. Como aponta Theodor Adorno, os nazistas eram eruditos, e essa erudição cínica permitiu a construção de sua hegemonia. Por sorte, é praticamente impossível encontrar esse mesmo grau de elaboração intelectual na extrema direita brasileira contemporânea.
Voltemos a Santa Catarina. O conjunto da obra de Juarez Machado me interessa pouco. Há, claro, trabalhos interessantes, mas, de modo geral, são rasos, com técnica irrelevante. “Anhatomirim 1894”, porém, é outra história. O que nos olha na imagem, como diria George Didi-Huberman, é o horror enfrentado pelos federalistas, ou talvez a perda da promessa dos ideais sulistas.
A Revolução Federalista é apenas um marco da nossa história. A Guerra do Contestado dizimou cerca de 8 mil pessoas, em sua maioria pobres, na região Norte de Santa Catarina. Até hoje, os municípios onde ocorreram as batalhas apresentam altos índices de pobreza extrema. Há ainda outros acontecimentos relevantes esquecidos, como as invasões espanholas, ataques de piratas, a Revolução de 1930 e a Novembrada.
Mesmo assim, quando visitamos museus, vemos pinturas de uma bucólica Nossa Senhora do Desterro, com representações da arquitetura açoriana e, no máximo, da Ponte Hercílio Luz. Paisagem e trabalho, quase nenhuma política – ainda que isso também seja político.
A política está presente também nessas escolhas. Após o Museu de Arte de Santa Catarina (MASC) permanecer meses fechado por goteiras, sua reinauguração trouxe uma exposição sobre Santa Catarina de Alexandria, com obras de artistas como Vera Sabino. Muitas telas, é preciso dizer, de baixa qualidade. A presença e o discurso da vice-governadora Marilisa Boehm evidenciaram uma curadoria voltada ao regime ético das artes, que busca educar e moralizar o público, como explica Jacques Rancière.
O governador Jorginho Mello também propôs a construção de uma estátua de 30 metros de Santa Catarina para atrair peregrinos, atrás do Centro Integrado de Cultura, onde está localizado o MASC. Diante desse cenário, a cultura catarinense continua sendo moldada por interesses políticos e comerciais, historicamente dominados por grupos de direita.
A Oktoberfest, por exemplo, é uma construção recente, criada em 1984 com fins turísticos. É preciso assumir as rédeas do discurso artístico. Barcelona é rica nesse aspecto porque sua intensa vida intelectual produziu obras que imaginam uma Catalunha modernizada. O republicanismo espanhol, aliás, possui um projeto estético consolidado.
Enquanto nossos museus e artistas representarem apenas colônias bucólicas, seremos apenas isso: colônias bucólicas.





