23/02/2026

Não existe país de primeiro mundo com cidadãos de terceiro. Por Bruno Souza

Bruno Souza (PL) foi deputado estadual e vereador em Florianópolis.

Bruno Souza (PL) foi deputado estadual e vereador em Florianópolis.

Vou machucar alguns corações mais sensíveis. Não o faço por prazer, mas por uma estranha compulsão de dizer o que considero verdadeiro, mesmo sabendo que isso pode custar votos ou simpatias. Em um ambiente político que recompensa a omissão elegante e a mentira piedosa, há algo de quase autodestrutivo em recusar tais confortos. Ainda assim, não resisto.

Repete-se com frequência que o Brasil é um país subdesenvolvido. A reação instintiva é apontar para Brasília. Compreensível. Poucos lugares no mundo produziram escândalos tão monumentais: esquemas que saqueiam aposentados, fraudes financeiras bilionárias que fariam roteiristas de Hollywood parecerem amadores. Diante de cifras obscenas e engrenagens incompreensíveis, o cidadão comum sente indignação misturada à impotência. O centro do poder parece distante demais, complexo demais, inalcançável demais.

Essa indignação costuma vir acompanhada de um sentimento paralisante: nada posso fazer. E talvez isso seja compreensível quando falamos de escândalos federais. Mas será o mesmo sentimento de impotência que nos impede de reagir ao que está literalmente diante de nós?

Por que somos tão tolerantes com o serviço público ruim da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade? Por que aceitamos com cordialidade gestores locais que, apesar da elevada carga tributária, entregam sempre menos do que prometeram e mais narrativas do que soluções?

Participo de um grupo de moradores do meu bairro. Ele se tornou um curioso laboratório de observação política. Todos os dias surgem fotos e vídeos dos mesmos problemas: desordem urbana, furtos, abandono de estruturas públicas e a presença constante de dependentes químicos na praça e nos bancos do bairro. Os registros se repetem há meses.

O que me intriga não são os problemas. O que me intriga é a ausência de reação.

Se fossem fenômenos naturais, como chuva, vento ou ciclones, entenderíamos. Mas são problemas artificiais, criados por decisões administrativas e solucionáveis por políticas já testadas e comprovadas.

Então volto à pergunta: por que, mesmo pagando impostos elevados, mesmo conhecendo políticos locais, mesmo sabendo que existem soluções, toleramos? Por que somos tão dóceis com aquilo que nos envenena, reduz nossa qualidade de vida e nos acostuma à mediocridade?

Não tenho uma explicação absoluta, mas tenho minhas suspeitas.

Em sociedades com cultura cívica mais vigorosa, problemas recorrentes produzem reações recorrentes: mobilizações, pressão, protestos, ações organizadas. Aqui, observamos inertes. Nossa reação cívica limita-se à lamentação. E lamentação não resolve problema algum.

Uma hipótese reside no caráter paternalista do Estado brasileiro. Vivemos sob uma das maiores cargas tributárias do mundo emergente e recebemos, em troca, serviços públicos de padrão subsaariano. Ainda assim, nos acostumamos à promessa estatal de cuidar de todos os aspectos da vida. Poucas coisas seduzem tanto quanto a promessa de nos livrar de responsabilidades incômodas.

Talvez, ao pagar impostos elevados e ouvir continuamente que “o Estado cuidará”, tenhamos internalizado um mecanismo mental de transferência de responsabilidade. Diante de um problema, lamentamos e declaramos: a prefeitura deveria agir, o Estado deveria resolver. E assim nos privamos da cidadania ativa.

Outra explicação pode estar no campo das relações pessoais. No Brasil, o poder tem rosto familiar. Políticos frequentam os mesmos ambientes, são parentes de conhecidos, vizinhos de amigos, pessoas simpáticas com quem cruzamos no supermercado. É difícil confrontar quem nos cumprimenta pelo nome.

É mais fácil indignar-se com figuras distantes em Brasília do que cobrar o prefeito simpático que promete soluções no evento do bairro.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, oferece uma lente útil para compreender esse comportamento. Ao descrever o “homem cordial”, ele não falava de gentileza, mas da primazia das relações pessoais sobre as relações institucionais. No Brasil, a esfera pública frequentemente se submete aos vínculos afetivos. A política deixa de ser impessoal e passa a operar sob a lógica da proximidade, da simpatia, da convivência.

Nesse ambiente, cobrar com rigor pode parecer grosseria. Exigir eficiência pode soar deslealdade. Confrontar pode ser visto como traição.

Assim, a cordialidade substituiu a cidadania e formou entre nós uma combinação particularmente paralisante: ao mesmo tempo em que aprendemos a terceirizar ao Estado responsabilidades cada vez maiores sobre a nossa vida, também nos habituamos a aceitar passivamente quando esse mesmo Estado não entrega o desejado, o esperado ou sequer o justo. Transferimos a responsabilidade e, quando a entrega falha, não reagimos em nome de uma indulgência pessoal que enfraquece a exigência institucional.

Peço desculpas se ofendi sensibilidades. Não o faço por desprezo, mas por desejar algo melhor. Quero um Brasil melhor. Mas também quero cidades melhores. E isso exige uma cidadania mais vigorosa.

Não teremos uma política de primeiro mundo enquanto exigirmos como cidadãos de terceiro mundo. Se aceitamos com flexibilidade aquilo que nos é entregue com baixa qualidade, continuaremos recebendo baixa qualidade.

Afinal, por que um governante seria mais eficiente, cuidadoso e comprometido se a própria população “baixa a régua” daquilo que aceita? Governos raramente superam o nível de exigência de seus governados. Quando a sociedade se contenta com pouco, o poder entrega menos ainda.

E assim seguimos, cordialmente resignados, vivendo sob padrões que jamais aceitaríamos impor a nós mesmos. Talvez o subdesenvolvimento não esteja apenas nas instituições. Talvez ele sobreviva, silencioso, dentro de nossas expectativas.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.