13/02/2026

BMW, Europa e Santa Catarina: lições para o Acordo Mercosul UE. Por Paulo Bornhausen

Artigo de Paulo Bornhausen, Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina

Há pouco mais de uma década, a chegada da BMW a Santa Catarina marcou um grande investimento industrial e demonstrou, na prática, que o estado tinha condições de evoluir em suas capacidades institucionais, industriais e logísticas para operar em padrões globais que hoje estruturam o Acordo Mercosul-União Europeia.

A decisão da BMW foi técnica e baseada em fatos. Santa Catarina apresentou condições de organizar e desenvolver segurança jurídica, ambiente regulatório previsível, logística competitiva, capital humano qualificado e uma base industrial preparada para padrões europeus. Esse processo exigiu liderança pública clara e uma coordenação de alto nível dentro do governo do Estado.

À época, estive à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico Sustentável e estruturamos uma atuação integrada do Estado para responder às exigências de uma decisão industrial global. A articulação institucional, o alinhamento entre licenciamento, infraestrutura, formação e o diálogo direto com a matriz do BMW Group criaram um ambiente de confiança e previsibilidade para um investimento de longo prazo.

Posicionamento industrial: ir para as cadeias globais de valor
A escolha de Araquari sintetizou esse modelo de desenvolvimento coordenado, pela localização estratégica, a integração logística com o Sul e o Sudeste, a força da indústria metalmecânica e a disponibilidade de mão de obra qualificada. Formou-se um ambiente altamente competitivo. A decisão refletiu critérios técnicos, sustentados por uma visão estratégica de posicionamento industrial do estado.

O resultado foi um investimento inicial de mais de R$ 600 milhões, mais de 1 bilhão em investimentos previstos para a planta de Araquari até 2028, cerca de 1.500 empregos diretos altamente qualificados, milhares de postos indiretos e a implantação da primeira fábrica premium da BMW na América do Sul.

O maior legado foi estrutural. A BMW acelerou a consolidação de um cluster automotivo premium, atraiu fornecedores, difundiu tecnologia, elevou padrões industriais e conectou Santa Catarina a cadeias globais de valor. A indústria local avançou em automação, qualidade e integração com universidades e centros técnicos, fortalecendo competências produtivas no território.

Santa Catarina chega preparada ao debate Acordo Mercosul-UE
Essa experiência ajuda a explicar por que Santa Catarina chega preparada ao debate do Acordo Mercosul–União Europeia. O estado já desenvolveu e consolidou, ao longo daquele ciclo de política pública, capacidades para operar sob a lógica que o acordo amplia: integração produtiva com a Europa, aplicação de requisitos técnicos europeus em território brasileiro e geração de valor em indústria, engenharia e serviços.

Essa trajetória segue orientando a agenda atual do governo do Estado, agora, na visão do governador Jorginho Mello, com foco em escalar capacidades já construídas. Investimentos em infraestrutura logística, modernização regulatória, formação técnica alinhada à indústria global e diplomacia econômica ativa com a Europa dão continuidade a uma visão estratégica iniciada naquele período.

O case BMW consolidou a reputação internacional de Santa Catarina como território confiável para investimentos de longo prazo. Essa credibilidade sustenta a ambição atual: escalar competitividade, aprofundar conexões e posicionar o estado como plataforma de produção, inovação e exportação para o mercado latino-americano, com a Europa como parceira estratégica central.

Santa Catarina já percorreu o caminho do desenvolvimento institucional e industrial. Agora, amplia escala, fortalece ativos e transforma experiência acumulada em política de Estado.

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