10/02/2026

A política engole os ingênuos. Por Fafá Capela

Artigo de Fafá Capela, cientista política

Desde a entrada do vereador carioca Carlos Bolsonaro como possível candidato ao Senado por Santa Catarina, a direita catarinense passou a viver uma verdadeira “novela política” em torno da definição da segunda vaga na chapa do governador Jorginho Mello. A exposição pública das divergências foi inicialmente protagonizada pela deputada federal Caroline de Toni, a mais votada do estado em 2022, com cerca de 227,6 mil votos, e uma das principais interessadas na disputa.

É inegável que a deputada cumpriu o roteiro esperado de uma pré-candidatura ao Senado. Reuniu lideranças locais, articulou apoios nacionais, inclusive com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e contou com o respaldo de aliadas como a deputada estadual Ana Campagnolo. Contudo, a política opera sob duas premissas fundamentais: ela engole as ingenuidades e é, acima de tudo, conjuntural.

Nesse contexto, causa estranhamento a tentativa de atribuir exclusivamente ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, a decisão de oficializar o pedido de retirada de sua candidatura. Não há cenário plausível em que o governador de um dos principais estados do campo bolsonarista atue sem alinhamento com a direção nacional do próprio partido. Dissociações desse tipo simplesmente não se sustentam; quando ocorrem, costumam resultar em rupturas partidárias.

Com a reorganização provocada pela entrada de Carlos Bolsonaro, a disputa passou a gravitar entre a deputada e o senador Esperidião Amin, deslocando o debate para outro eixo: os acordos políticos entre Amin e Jorginho Mello. Para compreender o momento, é preciso considerar o perfil dos envolvidos. Ex-governador, com partido estruturado no interior e trajetória consolidada no Senado, Amin carrega peso político significativo. Em 2018, na eleição para a presidência da Casa, reuniu 13 votos, superando inclusive o ex-presidente Fernando Collor de Mello.

A ausência de exposição pública também comunica. Não indica necessariamente falta de articulação, mas sugere negociações nos espaços onde as decisões efetivamente são tomadas: as direções partidárias.

Jorginho Mello, governador, ex-senador e ex-deputado, não construiu sua trajetória por acaso. Interpretar seus movimentos como desordem é uma leitura apressada. O que parece caos pode ser, na realidade, um caos organizado: de um lado, manifestações públicas alinhadas ao bolsonarismo; de outro, acordos costurados nos bastidores.

Valdemar Costa Neto, Esperidião Amin e Jorginho Mello representam uma geração política old school, marcada por experiência, pragmatismo e habilidade estratégica. É nesse ambiente que a deputada está inserida. Para que a direita catarinense viabilize a segunda vaga ao Senado, alguém terá de ceder. A eventual consolidação da candidatura de Carlos Bolsonaro tende a ampliar a polarização e pode, inclusive, abrir espaço para o fortalecimento de candidaturas da esquerda.

Diante desse cenário, as alternativas para Caroline de Toni parecem limitadas. Um recuo estratégico, com foco na reeleição à Câmara dos Deputados e na construção de novos acordos políticos, poderia representar um movimento mais vantajoso no médio prazo. Na política, muitas vezes, dois passos atrás significam avanços futuros. O exemplo de Gleisi Hoffmann (PT) ilustra essa lógica: diante da inviabilidade de reeleição ao Senado em 2018, foi eleita deputada federal, assumiu a presidência do PT em um momento adverso, hoje é Ministra da Secretaria de Relações Institucionais e será novamente candidata ao Senado.

É necessário perceber a força das circunstâncias, afinal, a política engole os ingênuos.

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