Artigo de Eduarda Hillebrandt, jornalista, consultora de comunicação política, com atuação junto a projetos partidários nacionais e campanhas eleitorais em diversos estados do País

Renan Santos tem algo a dizer. Seja radical, ofensivo ou visionário, figura entre os presidenciáveis e carrega o mérito de ter conseguido reunir mais de 570 mil assinaturas para a fundação do Partido Missão — algo que Bolsonaro tentou e não conseguiu.
A sigla foi oficializada em novembro de 2025, após um longo período de incubação no Movimento Brasil Livre (MBL) e tentativas de usar a estrutura de outros partidos.
O Missão é, acima de tudo, uma operação midiática. Ocupa toda a miríade de plataformas disponíveis respeitando sua linguagem nativa. Instagram, YouTube, TikTok, Telegram, WhatsApp, newsletter, loja online, sites paralelos. O investimento foi direcionado para a criação de um ecossistema próprio que reverbera cada passo, como uma câmara de eco. A ramificação para 27 estados foi coordenada, com perfis locais mobilizados de forma ágil.
Renan Santos cresceu jogando com o algoritmo: publica a isca para iniciar a briga digital e coloca o batalhão de seguidores para defender. Os conteúdos capturam a atenção com choque para discorrer sobre as teses — separar o Rio de Janeiro do Brasil e acabar com as favelas, por exemplo (vale registrar: esta análise trata do método comunicacional, não da validade ou concordância com as propostas descritas).
O eleitorado é predominantemente masculino, jovem, conectado. O Missão fala para quem sente que o sistema não funciona e quer respostas rápidas. Está construindo uma vertente de oposição ao bolsonarismo pela direita, com forte marca geracional, calcada numa desilusão com os ciclos democráticos do Brasil — ainda que institucionalizado.
Os números confirmam a velocidade. Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de 25 de março, Renan Santos apareceu em terceiro lugar, com 4,4% das intenções de voto — disputando por um partido que tinha pouco mais de 100 filiados até dezembro. O perfil partidário no Instagram já transita entre a quinta e sexta posição entre os partidos brasileiros, segundo levantamento da bn3 Marketing Baseado em Números.
Para quem acompanha o digital, não é surpresa que uma estrutura mínima consiga aparecer nas pesquisas apenas pela força digital, considerando que essa será a arena das campanhas em 2026.
O partido é alicerce burocrático para dar tração e liberdade à candidatura de Renan Santos e, sobretudo, para impulsionar candidaturas que usam a mesma tática, como Kim Kataguiri — um importante ativo do MBL.
Ou seja, não há nada de ruidoso no Missão. É claro nos princípios e intencional nos métodos, com uma arquitetura digital ágil e quadros que aprenderam a mobilizar no digital.





