19/06/2026

Epagri devolve R$ 10 por R$ 1 investido; em Brasília, agro vê Ministério da Agricultura sem protagonismo

O investimento que dá retorno

Em Brasília, a discussão da semana girou em torno de custos, impacto fiscal e das chamadas “pautas-bomba” do Congresso. Em Santa Catarina, um número chamou atenção justamente por mostrar o outro lado dessa conta.

Cada R$ 1 investido pelo Governo do Estado na Epagri em 2025 gerou R$ 10,33 de retorno para a sociedade. O resultado está no Balanço Social da empresa e considera os impactos econômicos de 132 tecnologias desenvolvidas e difundidas pela instituição em áreas como agricultura, pecuária, pesca, pesquisa e extensão rural.

Somadas, essas tecnologias produziram um retorno global estimado em R$ 13,32 bilhões. Em tempos de debate sobre gasto público, o levantamento oferece uma resposta objetiva sobre o valor de investir em ciência, inovação e assistência técnica voltadas ao campo.

Epagri amplia resultados e reforça papel estratégico para Santa Catarina

Os números do balanço mostram uma estrutura que vai muito além da pesquisa agropecuária.

Em 2025, a Epagri lançou 20 novas tecnologias e executou 415 projetos de pesquisa. Na extensão rural, foram realizadas 293 mil ações, com atendimento a 135 mil agricultores e pescadores e mais de 4,7 mil entidades. Na área de ensino, a empresa atendeu 1,2 mil alunos, dos quais 814 são filhos de agricultores.

Outro dado relevante foi o apoio à elaboração de projetos de crédito rural. Somente no ano passado, a Epagri viabilizou R$ 610 milhões em financiamentos para produtores rurais e pescadores, beneficiando 10,9 mil pessoas em 289 municípios catarinenses.

Segundo o presidente da empresa, Dirceu Leite, as tecnologias desenvolvidas pela instituição ajudam a elevar a produtividade, reduzir custos, ampliar áreas produtivas e agregar valor à produção agropecuária catarinense.

Epagri alinha pesquisa à Agenda 2030 e padrões internacionais

O Balanço Social 2025 marca também o início do alinhamento da empresa aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).

Pela primeira vez, as 132 tecnologias avaliadas passaram a ser relacionadas diretamente aos indicadores globais de sustentabilidade, permitindo medir seus impactos sociais, econômicos e ambientais.

Outra novidade é o início da adequação aos padrões da Global Reporting Initiative (GRI), metodologia internacional utilizada para mensurar transparência, governança e sustentabilidade corporativa. A iniciativa coloca a Epagri em sintonia com as melhores práticas globais de prestação de contas e gestão pública.

Fazenda mantém alerta sobre renegociação das dívidas rurais

Enquanto Santa Catarina apresenta resultados concretos, em Brasília o debate continua centrado nos custos das políticas públicas voltadas ao agro.

Na quarta-feira, 17, durante audiência conjunta das comissões de Agricultura e de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, voltou a defender uma solução para os produtores endividados, mas com foco apenas nos casos considerados mais críticos.

Segundo ele, aproximadamente 6% das operações de crédito rural estariam em situação que justificaria um tratamento diferenciado.

“O enquadramento atendendo a quem precisa, nós temos acordo. Me preocupo com as próximas gestões fiscais do país. Não posso ficar contratando problema para a frente.”

A declaração ocorre após a aprovação do Projeto de Lei 5.122/2023 pelo Senado. A proposta cria mecanismos para renegociação de dívidas rurais utilizando recursos de fundos públicos, incluindo o Fundo Social do Pré-Sal.

Fazenda mantém cálculo de R$ 140 bilhões e rebate números da FPA

A equipe econômica também detalhou os cálculos que sustentam sua estimativa de impacto fiscal do projeto.

Segundo o Ministério da Fazenda, o custo pode alcançar R$ 139,8 bilhões ao longo de 13 anos, sendo R$ 22,4 bilhões já em 2027. Técnicos da pasta afirmam que o valor pode ser ainda maior devido a passivos ainda não totalmente mensurados e às características dos recursos que seriam utilizados na operação.

A avaliação diverge dos cálculos apresentados por técnicos ligados ao setor agropecuário e por integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que estimam impacto significativamente menor e defendem que o projeto possui caráter autorizativo.

O deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) voltou a afirmar que a proposta não obriga desembolsos automáticos do governo e pode utilizar recursos já existentes nos fundos públicos.

A divergência promete continuar nas próximas semanas e deve influenciar diretamente as discussões sobre o Plano Safra 2026/2027.

Agro vê perda de influência do Ministério da Agricultura

Nos bastidores de Brasília, cresce uma avaliação compartilhada por lideranças do setor produtivo: o Ministério da Agricultura perdeu espaço justamente nas pautas consideradas mais estratégicas para o agro.

Entre os temas citados estão a renegociação das dívidas rurais, os cortes no orçamento do seguro rural, as negociações com a União Europeia e as discussões envolvendo exigências sanitárias internacionais.

A crítica mais recorrente não é direcionada exclusivamente ao ministro André de Paula, mas ao modelo de gestão adotado pela pasta. Representantes do setor relatam excesso de centralização, dificuldade de interlocução e lentidão na construção de soluções para temas considerados urgentes.

Por outro lado, aliados do ministro ponderam que André de Paula assumiu o comando da Agricultura há pouco mais de dois meses e herdou uma estrutura já em funcionamento, além de pautas complexas que dependem de articulação com outras áreas do governo.

Mesmo assim, a cobrança cresce à medida que se aproxima o anúncio do Plano Safra e que temas como endividamento rural, seguro agrícola e exigências internacionais ganham urgência.

Entre o custo e o retorno

A semana termina com duas visões diferentes sobre o mesmo debate.

De um lado, a equipe econômica calcula quanto custa ajudar o setor produtivo. Do outro, Santa Catarina mostra quanto retorna para a sociedade quando há investimento consistente em pesquisa, assistência técnica e inovação.

Os R$ 13,32 bilhões gerados pelas tecnologias da Epagri não aparecem apenas em relatórios. Eles estão na produtividade das lavouras, na renda das famílias rurais, na competitividade das cooperativas e na força das exportações catarinenses.

Num momento em que Brasília discute números, talvez o melhor argumento continue sendo o resultado.

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