19/06/2026

Sem dignidade não há orgulho: A rua convoca, a urna confirma! Por Caê Martins

Artigo de Caê Martins, ativista dos direitos das pessoas LGBTQIA+ e vereador de São José

Orgulho pode ter muitos significados, mas para as pessoas LGBTQIA+ é muito mais que visibilidade e grito de vitória por continuarmos existindo. Orgulho LGBTQIA+ é luta diária e compromisso com a construção de direitos e políticas públicas para todas as pessoas. E nesse ano, em especial, é confirmar nas urnas que queremos ter espaço institucional na política brasileira.

Eleger parlamentares LGBTQIA+ é muito mais que representatividade no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas — é fazer ecoar a luta da nossa comunidade. E antes que nos acusem de identitaristas, ou que acreditem que basta ser LGBTQIA+ para receber automaticamente o título de representante da comunidade, vale lembrar: não basta ser LGBT, é preciso ter compromisso e compreensão.

A pauta LGBTQIA+, assim como a comunidade, é diversa e também urgente. Vale lembrar que nossas conquistas não se tornaram leis. O pouco que temos foram conquistas no judiciário e são tão frágeis quanto volátil é a composição do STF, que passa por ciclos de renovação. Não sabemos como será o amanhã nem quem serão as pessoas que irão sentar na mais alta corte do país. Diante disso, nossa luta é permanente — nas ruas, nos coletivos, nas organizações e movimentos da sociedade civil, e também na ocupação das casas legislativas, em todas as instâncias.

Além de enfrentar a enxurrada de projetos de lei que atacam nossa comunidade, buscamos aprovar uma política nacional que aponte diretrizes para a promoção de políticas e direitos LGBTQIA+ no Brasil. O parlamento é uma arena de debates e construções. O retorno da extrema-direita — em todas as suas formas e matizes — ao campo político em todo o mundo coloca novamente nossa comunidade como alvo. Narrativas de pânico moral se multiplicam, funcionando como cortina de fumaça para afastar debates necessários para a sociedade.

Diante disso, precisamos eleger pessoas LGBTQIA+ e aliadas que compreendam nossas lutas, nossas urgências e que somos parte da classe trabalhadora que clama diariamente por direitos sociais. Queremos trabalho digno, redução da jornada de trabalho sem redução de salários, moradia, segurança, saúde, educação e o que é direito de todo cidadão. Nossos anseios por viver em paz e ter direito a existir somam-se a tantos anseios do povo brasileiro. Temos nossas urgências e necessidades que não excluem os sonhos do nosso povo.

Não existe pauta LGBTQIA+ descolada da pauta do trabalho. A precarização atinge primeiro os corpos mais vulneráveis — e os corpos LGBTQIA+, especialmente os trans, negros e periféricos, estão entre os primeiros a sentir o peso de um país que ainda não garantiu nem o direito de existir. A expectativa média de vida de pessoas trans no Brasil é de apenas 35 anos — menos da metade da média nacional. Esse dado não é apenas uma tragédia humanitária: é também uma denúncia econômica. Apenas 13,9% das mulheres trans e travestis tinham emprego formal, segundo pesquisa da Fapesp. O ciclo é perverso: a expulsão da escola empurra para fora do mercado de trabalho, que empurra para a marginalização, que expõe à violência.

Porém, é fato que, sem pessoas LGBTQIA+ conscientes do compromisso com o povo brasileiro — aquele que acorda na madrugada para dar conta do dia a dia, pagar boletos e buscar viver —, nossa luta pelo direito de ser e expressar quem somos, com segurança, em todos os espaços, não acontece. Nossa comunidade quer ingressar no mercado de trabalho sem sofrer preconceitos. Quer acessar saúde e educação sem as violências cruéis que nos tiram dos bancos da escola e da unidade de saúde. As pessoas LGBTQIA+ querem caminhar nas ruas e andar de ônibus sem medo de morrer por simplesmente sermos LGBTs.

As pesquisas apontam números assustadores da LGBTfobia. Segundo o relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ em 2025 — uma a cada 34 horas —, mantendo o país na liderança mundial desse tipo de crime. E os casos de homofobia e transfobia que não resultaram em morte cresceram 52% entre 2023 e 2024, passando de 1.633 para 2.480 registros. Números que, vale lembrar, estão subnotificados pela ausência de coleta sistemática de dados oficiais — seja nos assassinatos, na expulsão dos lares e famílias, no abandono escolar e na exclusão do mercado de trabalho.

Santa Catarina não está fora dessa realidade. A região Sul registrou 6 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ em 2025 nos dados disponíveis — mas a subnotificação e a ausência de registros sistemáticos impedem que saibamos a dimensão real da violência em nosso estado. Eleger representantes comprometidos em 2026 é também exigir que Santa Catarina enfrente o que escolhe não ver.

Toda essa realidade nos exige enfrentamento e organização social. Por isso, no mês de junho celebramos o orgulho de viver e a necessidade de lutar: ocupamos as ruas com as paradas e marchas e, nesse ano, também ocuparemos as urnas. Por um Congresso Nacional e Assembleias Legislativas representativos — e por um Brasil justo, plural e diverso —, é necessário eleger pessoas LGBTQIA+ e aliadas. Por um Brasil soberano e de todas as cores!

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