
Quando o presidente Diego Machado encerrou a tensa sessão da última segunda-feira (08), que cassou o mandato de Cleiton Profeta (PL), quem mais respirou com tranquilidade não estava no plenário da Câmara de Vereadores naquela manhã. A prefeita Rejane Gambin colhia de longe o fruto de uma articulação discreta, trabalhada nos bastidores num claro sinal de quem sabe que jogo político se ganha com muita conversa, articulação e algumas promessas.
Foi realmente silencioso o feito do governo Rejane Gambin, que conquistou sua primeira grande vitória política desde que assumiu o comando da cidade com a renúncia de Adriano Silva. Profeta construiu ao longo dos últimos anos uma atuação marcada por críticas contundentes à administração municipal e ao grupo político que governa Joinville desde 2021. Sua presença no Legislativo representava um dos focos mais ativos de oposição ao projeto político hoje liderado por Rejane.
Com a cassação, a prefeita vê desaparecer da Câmara uma das vozes mais combativas contra o governo. O resultado reduz a pressão política diária sobre o Executivo e enfraquece um dos personagens que mais mobilizaram embates públicos, especialmente nas redes sociais.
Vitória silenciosa e construída com articulações nos bastidores
O governo se movimentou bastante pela cassação. Reuniões foram realizadas na véspera e durante o feriado, inclusive em casa de um vereador. O quórum qualificado, dois terços dos 19 vereadores, é uma régua alta e deliberadamente difícil. Para chegar no número de 13 votos a favor da cassação foi preciso trabalho. A base governista chegou a afirmar, minutos antes da sessão começar, que tinha 14 votos. O placar final de 13 a favor, três abstenções e dois contrários diz muito sobre a articulação nos bastidores.
Rejane não precisou aparecer. Neste tipo de operação, aparecer seria um erro. O desgaste é para quem vota, não para quem articula nos bastidores. Mas a engenharia da maioria necessária para cassar um vereador de oposição à sua gestão dentro da própria câmara, num placar milimétrico, tem digitais de quem tem domínio da base de sustentação do governo na Câmara
O erro estratégico de não ter aliados

Profeta era oposição barulhenta. As palavras que constam no processo, como “canalha”, “bunda mole” e “tanso”, podem parecer folclore do palanque, mas o padrão reiterado de tumulto que o relatório de Érico Vinicius descreveu ao longo de 2025 e 2026 desenha um vereador que usava o plenário como palco para desgastar adversários. O Executivo estava entre os alvos naturais desse estilo. Com ele fora, a Câmara fica, ao menos por ora, com um ruído a menos. O problema do Profeta foi não ter escolhido um adversário por vez. Preferiu brigar com todos e ficou sem aliados. Erro estratégico.
Apesar dos sustos, base ainda continua sólida

A votação pela cassação evidenciou que a maioria construída nos últimos anos continua sólida mesmo após a mudança de comando na Prefeitura. Para Rejane Gambin, o resultado tem valor simbólico. Desde que assumiu a administração municipal, havia dúvidas sobre sua capacidade de manter a coesão da base política herdada e exercer liderança própria. A crise envolvendo Cleiton Profeta acabou servindo como um primeiro grande teste de ambiente político.
E quem entra no lugar reforça essa leitura. Cassiano Ucker, médico e servidor público municipal, primeiro suplente do PL com 3.017 votos, já passou pelo legislativo entre 2021 e 2024. Seu perfil é descrito como moderado e até mais alinhado com o tipo de governabilidade que Rejane precisa. Um PL que briga menos e vota com mais previsibilidade é um PL que serve melhor ao governo municipal no momento em que o cenário estadual já está sobrecarregado de tensões. Porque a tormenta estadual é real e ainda circula a coligação Jorginho–Adriano Silva.
Nesse contexto, o que aconteceu na Câmara de Joinville não foi apenas a cassação de um vereador inconveniente e, por vezes, mal educado. Foi a demonstração de que Rejane Gambin construiu, em silêncio, uma câmara mais domesticada e que soube usá-la quando precisou.





