A seleção brasileira ainda nem estreou na Copa (o sofrimento começará neste sábado, contra o Marrocos) e a desconfiança já é grande em cima do trabalho do técnicoCarlo Ancelotti.
Mas esporte é assunto, neste site, para o competente colunista Allison Francisco.
Eu quero falar da contribuição que o italiano pode dar, involuntariamente, à comunicação política. E isso, na minha opinião, merece muito mais atenção do que qualquer debate sobre a escalação ou o futuro da seleção.
O UOL publicou recentemente uma reportagem sobre o chamado Método Ancelotti, com a seguinte manchete: “Curto e direto, Ancelotti tem receita pra passar tática aos jogadores”.
Um detalhe no texto me chamou a atenção: segundo pessoas que trabalham com ele, o treinador costuma transmitir suas orientações aos jogadores de forma curta, visual e extremamente objetiva.
Ele é extremamente sintético e didático ao transmitir informações para seu público-alvo: os atletas.

Antes das partidas, utiliza vídeos curtos para sugerir táticas e procura deixar cada atleta com apenas três ou quatro instruções específicas na cabeça. Você leu certo, apenas três ou quatro instruções.
Pelo pouco que entendo de futebol, a metodologia do italiano vai no caminho inverso da maioria dos técnicos, que costumam ser prolixos nas preleções e acreditam que quanto mais informação o jogador receber, melhor ele vai desempenhar sua função dentro de campo. Ledo engano.
Que bom que Ancelotti parece acreditar exatamente no contrário.
Quando li isso, imediatamente pensei na comunicação política.
Coincidentemente, ou não, minhas últimas colunas foram sobre microatenção e também sobre uma fala do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, que defendeu que 30 segundos são suficientes para transmitir uma mensagem política.
Quando terminei a leitura da reportagem, pensei que tudo isso fazia parte da mesma linha de reflexão.
Porque Ancelotti parece compreender, intuitivamente ou não, algo que boa parte do mundo político ainda resiste em aceitar: mais informação não significa necessariamente mais compreensão.
Aliás, muitas vezes significa exatamente o contrário.
Talvez porque exista uma diferença enorme entre transmitir informação e produzir compreensão. Ou, para usar a linguagem do futebol, entre ensinar e fazer executar.
A política brasileira, e estou nela há mais de trinta anos, foi construída, historicamente, sobre uma espécie de cultura da explicação.
Políticos acreditam que precisam explicar tudo e, o que é pior, acreditam que as pessoas estão interessadas nessas explicações.
Quem está neste momento trabalhando em alguma pré-pré-campanha vivencia isso praticamente todos os dias.
Eles explicam a obra, o projeto, o contexto, os motivos, os números e, se sobrar tempo, explicam a explicação.
O resultado em termos de comunicação todos nós conhecemos: discursos longos, vídeos que parecem longa-metragem e entrevistas confusas e cheias de detalhes.
E audiência? Cada vez menor.
Deixa eu dar uma péssima notícia para vocês.
O cérebro humano, infelizmente, não funciona como imaginamos. Nós não organizamos as informações sobre nossa realidade por meio de planilhas mentais.
Organizamos por imagens, percepções e narrativas simplificadas.
Como eu costumo dizer nas palestras e mentorias, para espanto de algumas pessoas, políticos deveriam aprender a conversar com os eleitores da mesma forma que mães conversam com crianças de cinco anos: desenhando, traduzindo e tornando compreensível aquilo que é complexo.
É por isso que as campanhas mais marcantes da história costumam caber em poucas palavras. Posso citar “Lula lá”, o global “Yes We Can”, de Obama, o mais atual “Make America Great Again” e o antiquíssimo “O caçador de marajás”.
Essa última referência os mais novos talvez não captem. Trata-se do slogan da campanha presidencial de Fernando Collor.
Eu cito esses exemplos porque nenhuma dessas mensagens explicava um plano de governo ou detalhava políticas públicas.
A função delas era outra.
Era produzir uma imagem imediata na cabeça das pessoas.
E talvez seja exatamente isso que Ancelotti esteja fazendo quando conversa com seus jogadores.
Um lateral não consegue entrar em campo pensando em vinte instruções diferentes. Se fizer isso, provavelmente vai travar no meio da atuação. Ele entra pensando em três ou quatro pontos que realmente importam.
Com o eleitor, e até mesmo com o cidadão comum, não é muito diferente.
Embora a política adore acreditar no contrário, a maioria das pessoas não vota depois de analisar um plano de governo de oitenta páginas.
As pessoas votam a partir de percepções e imagens mentais que foram construídas ao longo do tempo. No caso, ao longo da pré-campanha e da campanha.
E aqui cabe um esclarecimento importante para que eu não seja mal interpretado.
Sintetizar uma ideia ou um conteúdo não significa superficialidade. Muito pelo contrário: síntese é precisão.
Na real mesmo, falar pouco costuma dar muito mais trabalho do que falar muito.
É relativamente fácil gravar um vídeo de cinco minutos.
Difícil mesmo é gravar um vídeo de trinta segundos que diga exatamente o que precisa ser dito.
Quem nunca viveu isso?
É relativamente fácil fazer uma palestra de uma hora.
Agora tente transformar a mesma ideia em uma apresentação no estilo TED, com apenas 18 minutos. Dá um trabalhão.
Por isso gostei tanto do exemplo do Ancelotti.
Porque ele não está simplificando o futebol. Ele simplesmente está tornando suas instruções executáveis.
E talvez esteja aí a principal lição que trago para a política.
Muitos líderes comunicam para demonstrar conhecimento. Ancelotti parece comunicar para produzir comportamento.
Ele não precisa provar que entende de futebol, pois ostítulos já fizeram isso por ele.
O que ele precisa é que o lateral marque, que o volante cubra espaço e que o atacante pressione a saída de bola.
A propósito, nem lateral temos para a Copa. Mas isso é outro assunto rs.
Uma coisa é transmitir informação; outra, completamente diferente, é fazer alguém agir.
Ancelotti não precisa demonstrar o conhecimento que possui, pois seu objetivo é fazer com que o jogador execute melhor aquilo que precisa fazer.
Na política deveria ser parecido.
Comunicação não existe para despejar informação sobre a cabeça das pessoas.
Ela existe para gerar compreensão e confiança.
Confiança gera apoio, que eventualmente, gera voto.
Talvez o maior erro da comunicação política contemporânea seja acreditar que mais informação produz mais entendimento.
Ancelotti parece acreditar exatamente no contrário.
Vídeos curtos, poucas instruções e mensagens específicas.
Nada além do necessário.
Talvez seja por isso que tenha conquistado tantas Champions Leagues.
E talvez seja por isso que tantos políticos continuem perdendo eleições enquanto tentam explicar tudo.
No futebol, como na política, nem sempre vence quem fala mais.
Gol do italiano.





