Escrevo a coluna de estreia neste espaço — o que muito me alegra e terá o devido reconhecimento mais à frente — com a dor de quem gostaria de tê-la lido há alguns dias, quando a exaustão do meu quarto ciclo de maratona, o must have da corrida de rua, atingiu o auge.

Não era a semana de maior volume, também não era a de maior intensidade ou do período chamado polimento, era só a sétima semana dentro de um ciclo que duraria mais nove. Quem pratica corrida de rua sabe o quanto esse esporte exige dedicação, compromisso e disciplina. Quem já correu — ou quer correr — uma maratona sabe do quanto ela também demanda dedicação, compromisso e disciplina, tudo isso elevado à quarta potência.
A corrida de rua entrou na minha vida em um momento em que eu precisava perder peso, ganhar confiança e me reencontrar. Desde 2022, essa é a coisa que eu mais gosto de fazer e a corrida de rua já me levou a lugares incríveis de diferentes estados, mas, principalmente, dentro de mim mesma.
Eu lembro exatamente da cerração que fazia no dia em que corri pela primeira vez com meu treinador, que me acompanhou de bicicleta durante três intermináveis quilômetros; lembro de como as distâncias curtas se tornaram minhas preferidas graças aos treinos de explosão; lembro das palavras do fisiatra que me tratou quando eu tive uma tendinite no quadril, por excesso de treino, e de como meu treinador me xingou por ser displicente ao correr mais do que a planilha mandava.
Uma vez, sentada debaixo de uma árvore na Orla do Guaíba, em Porto Alegre, disse que não conseguia correr devagar e que se fosse pra correr em pace 6′, preferia nem sair de casa. A juventude consegue ser arrogante até no esporte.
O tempo me mostrou quem, na verdade, é o maior aliado de um atleta, seja ele amador ou profissional. “O pace”, vai pensar o leitor, pois já adianto que não é ele, tampouco a distância, a marca da bermuda ou o tênis de corrida. É a constância, seja ela na forma de repetição, persistência ou humildade. Não tem fórmula mágica, não tem atalho, não tem “jeitinho” quando o assunto é corrida. E para vencer na corrida de rua, é preciso mais do que cruzar a linha de chegada.
Jogo de equilíbrio
Quando eu decidi correr minha primeira maratona, há dois anos, abracei o sonho de uma amiga e, ao longo do processo, fiz disso o meu sonho também. À época, o ciclo foi interrompido pela enchente que atingiu a capital gaúcha. Outros dois aconteceram depois, com corridas cinco vezes na semana e treinos de força outras três ou quatro, sessões quinzenais de fisioterapia e sete a oito horas de sono todos os dias. “Muito custa aquilo que muito vale”, diz o ditado e, em se tratando de maratona, valeu cada segundo.
Apesar do meu desejo profundo e empenho para que a terceira prova fosse possível, a vida lá fora — e aqui dentro — me levou para outros rumos, pessoais e profissionais, nos quais o item de luxo mais cobiçado da modernidade tem sido escasso na minha rotina: o tempo. Trabalho, relacionamento, cachorro, vida social, pós-graduação, descanso e mais um ciclo de maratona?!
Mais cedo ou mais tarde, eu sabia que um dos pratinhos iria cair, eu só precisava escolher sabiamente qual seria e como derrubaria lentamente para que, ao invés de quebrar, apenas lascasse do ladinho. É bem verdade que a canelite que venho tratando desde dezembro, entre idas e vindas à fisioterapia, facilitou essa escolha.
Corrida de rua não pode ser obrigação
Um atleta amador, de acordo com a resposta imediata do Gemini, é aquele que “pratica atividades físicas ou esportes por prazer, saúde ou qualidade de vida, sem depender financeiramente deles”. E, no fim das contas, é isso que eu sou. Caso sejas exigente e competitivo como eu, sei como é doloroso lembrar disso, mas essa é a verdade.
A cobrança por resultados pode até existir, mas no fim do dia, para quem é amador, a corrida de rua é para ser um momento de prazer, entretenimento e diversão, algo simples, leve, feliz. Se fosse para sofrer, eu iria ver o Figueirense disputar a Série C e perder jogando em casa — o que eu também fiz, mas aí eu acho que o problema fui eu mesma e é assunto para outro colunista.
Brincadeiras à parte, encerro este texto agradecendo ao meu amigo e referência jornalística, Upiara Boschi, por abrir este espaço e confiá-lo a mim para falar de corrida, lifestyle e movimento — coisas que me norteiam e são parte de quem eu sou. Na figura dele, estendo à Soledad Urrutia. Espero fazer jus à confiança e trazer conteúdos pertinentes para o leitor catarinense, que é o fundamento e peça-chave deste portal.






