14/05/2026

Congresso perde prazo e agricultura familiar fica sem R$ 190 milhões; Europa fecha a porta para o agro brasileiro

O agro brasileiro entrou em uma fase em que não basta produzir muito, exportar bem e ser competitivo no preço. A disputa agora também passa por rastreabilidade, controle sanitário, previsibilidade política e capacidade de resposta institucional.

A coluna desta terça-feira mostra exatamente esse novo padrão de exigência. De um lado, a União Europeia endurece as regras para produtos de origem animal e coloca em alerta um mercado bilionário para as proteínas brasileiras. De outro, dentro do país, a falta de vacinas veterinárias expõe uma fragilidade sanitária preocupante nas fazendas.

Enquanto isso, o Congresso deixou perder validade a Medida Provisória que liberaria R$ 190 milhões em crédito extraordinário para a agricultura familiar, justamente em um momento de aperto na renda, custo alto e dificuldade de acesso a financiamento.

No mercado internacional, a China pode aliviar parte da pressão sobre a carne brasileira, mas o recado é claro: o jogo do agro mudou de nível. Quem não comprovar origem, sanidade, regularidade e resposta rápida corre o risco de perder espaço. E quem falha na política interna deixa o produtor, especialmente o pequeno, ainda mais vulnerável.

Europa fecha a porta e o agro brasileiro entra em alerta máximo

A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal, com entrada em vigor prevista para setembro de 2026, acendeu um alerta imediato no setor produtivo e no governo.

Mais do que uma barreira pontual, a medida revela uma mudança de patamar nas exigências sanitárias internacionais e coloca o país diante de um desafio que vai além da adequação técnica: trata-se de preservar acesso a um dos mercados mais exigentes e estratégicos do mundo.

O bloco europeu, segundo maior destino das carnes brasileiras em valor, justificou a decisão com base no não cumprimento integral das regras relacionadas ao uso de antimicrobianos na pecuária. A exigência não se limita à ausência de resíduos no produto final, mas alcança todo o ciclo de vida do animal, o que eleva o nível de controle exigido dos países exportadores.

Na prática, isso impõe ao Brasil a necessidade de avançar em rastreabilidade, padronização sanitária e comprovação contínua de conformidade, pontos que ainda apresentam assimetrias dentro da cadeia produtiva.

Governo e entidades reagem

A reação do setor foi imediata, mas cuidadosa. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) destacou que não há suspensão imediata das exportações e que o prazo até setembro permite ajustes. Em nota, a entidade afirmou que “o Brasil segue habilitado e está trabalhando em conjunto com o Ministério da Agricultura para atender plenamente às exigências europeias”, reforçando que a medida ainda depende da comprovação formal das garantias solicitadas.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) adotou linha semelhante ao afirmar que “o país cumpre os protocolos internacionais e prestará todos os esclarecimentos necessários para garantir o retorno à lista”.

O governo, por sua vez, reagiu com um tom mais direto. Em nota oficial, manifestou “surpresa” com a decisão e indicou que já iniciou articulação diplomática para reverter o quadro. Uma reunião emergencial com autoridades sanitárias europeias foi agendada, numa tentativa de entender os critérios aplicados e restabelecer o diálogo técnico em nível mais elevado.

O ponto que mais preocupa, no entanto, não é apenas a perda potencial de mercado estimada em quase US$ 2 bilhões anuais, mas o efeito reputacional.

A União Europeia não é um destino qualquer: é um selo de exigência. Estar fora dessa lista significa, na prática, operar sob questionamento sanitário em um ambiente global cada vez mais rigoroso.

China pode aliviar pressão enquanto mercado global da carne se reconfigura

Se a Europa eleva o nível de exigência, o cenário asiático começa a apontar em outra direção. A discussão sobre a salvaguarda chinesa sobre a carne bovina brasileira ganhou novos contornos diante da escalada dos preços internacionais e de problemas sanitários em países estratégicos.

Segundo o analista Felipe Fabbri, da Scot Consultoria, “o cenário atual passou a favorecer mais o Brasil do que uma manutenção rígida das restrições”, especialmente diante da combinação de oferta global apertada e demanda aquecida. A própria China enfrenta desafios internos, com registros de febre aftosa e necessidade crescente de abastecimento, o que tende a reduzir o espaço para medidas restritivas prolongadas.

Esse movimento não resolve o problema europeu, mas ajuda a reposicionar o Brasil no tabuleiro internacional da proteína animal, reforçando sua condição de fornecedor estratégico em um momento de escassez global.

Falta de vacinas acende alerta sanitário dentro das fazendas

Enquanto o Brasil enfrenta pressões externas, um problema interno começa a ganhar dimensão bem preocupante. A escassez de vacinas veterinárias já provoca registros de mortalidade em rebanhos, especialmente em sistemas de recria e confinamento.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) encaminhou ofício ao Ministério da Agricultura solicitando medidas emergenciais para garantir o abastecimento de imunizantes. No documento, a entidade alerta que “já há registros de perdas em propriedades rurais em função da indisponibilidade de vacinas essenciais”, o que eleva o risco sanitário justamente em um momento crítico da produção.

Especialistas reforçam a gravidade da situação. O pesquisador Flávio Caldeira relatou que casos de mortalidade já começam a aparecer em diferentes regiões e que o cenário tende a se agravar conforme a proteção vacinal anterior perde efeito. “O problema pode crescer rapidamente se não houver reposição adequada das vacinas”, afirmou.

Novo marco da pesca avança no Senado e reforça exigência por rastreabilidade

Em meio à pressão internacional por maior controle sanitário e transparência nas cadeias produtivas, o Senado avançou em uma pauta que dialoga diretamente com esse novo cenário global e com o setor pesqueiro. A Comissão de Meio Ambiente aprovou o projeto que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Pesca, reorganizando o setor e estabelecendo diretrizes mais rígidas de controle e rastreabilidade.

O texto propõe separar de forma mais clara as atividades de pesca e aquicultura, além de fortalecer instrumentos de monitoramento, combate à pesca ilegal e certificação de origem. A intenção é alinhar o Brasil às práticas exigidas por mercados internacionais cada vez mais criteriosos.

Na avaliação do relator, o projeto busca “garantir segurança jurídica ao setor e, ao mesmo tempo, atender às exigências ambientais e sanitárias que hoje são determinantes para o acesso a mercados”. A medida ganha relevância justamente no momento em que o país enfrenta questionamentos externos, como o da União Europeia, reforçando a necessidade de organizar a base produtiva com padrões mais claros e auditáveis.

Agricultura familiar perde R$ 190 milhões em crédito porque Congresso perdeu prazo

Se por um lado o Congresso avança em marcos estruturais, por outro, expõe fragilidade na execução de políticas emergenciais. A medida provisória que previa a liberação de R$ 190 milhões em crédito extraordinário para a agricultura familiar perdeu validade sem ser votada, interrompendo um reforço importante em um momento de pressão sobre renda e produção no campo.

A MP tinha como objetivo ampliar o acesso a financiamento para pequenos produtores, especialmente aqueles mais vulneráveis a oscilações climáticas e de mercado. A perda de validade, no entanto, evidencia um problema recorrente na política agrícola: a dificuldade de transformar anúncio em política efetiva.

Entidades do setor avaliam que a ausência desses recursos agrava a situação de produtores que já enfrentam custos elevados e acesso restrito ao crédito. “O problema não é apenas a falta de recursos, mas a instabilidade das políticas que deveriam garantir previsibilidade ao produtor”, aponta representantes da cadeia produtiva.

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