08/05/2026

O crédito te conhece? Open Finance do agro promete dinheiro mais barato, mas produtor ainda cobra acesso real; Entre dados, crédito e café catarinense, agro busca previsibilidade;

Entre informação, crédito e risco, o agro tenta virar a chave do financiamento

O crédito rural sempre teve um problema estrutural no Brasil: falta de informação organizada.

Não de dados, esses sempre existiram, mas de integração. Cada banco, cada sistema, cada política pública olhando um pedaço do produtor, sem uma visão completa do risco, da capacidade de pagamento e do histórico produtivo.

Agora, o Congresso começa a mexer exatamente nesse ponto.

A Comissão de Agricultura da Câmara aprovou uma proposta que cria um sistema nacional de compartilhamento de dados voltado ao agro, uma espécie de Open Finance rural. A promessa é ambiciosa: reduzir custo, melhorar análise de risco e, principalmente, ampliar o acesso ao crédito e ao seguro rural.

O que está em jogo não é só tecnologia. É a forma como o sistema financeiro enxerga quem produz.

Open Finance do agro avança na Câmara e pode reduzir custo e inadimplência

A proposta aprovada na CAPADR cria o Sistema Nacional de Gestão de Risco de Crédito Rural (SNGRCR), uma plataforma que reúne dados de diversas bases públicas e privadas para uso de bancos, seguradoras e agentes do agro.

Na prática, o sistema vai integrar informações como o cadastro de produtores, os dados fundiários, as operações de crédito, o histórico de seguro rural e os registros ambientais. Tudo em um único ambiente, com compartilhamento automatizado, desde que autorizado pelo produtor.

O relatório foi lido pelo deputado Rafael Pezenti (MDB-SC), coordenador da Comissão de Meio Ambiente da FPA, que tem defendido maior previsibilidade no crédito rural.

O texto também estabelece a gratuidade no acesso aos dados, a proteção via Lei Geral de Proteção de Dados e as sanções para uso indevido das informações. Também abre espaço para ampliação do sistema, com inclusão de novas bases conforme regulamentação.

A expectativa do setor é que com mais informação, o risco caia e o crédito possa ficar mais barato.

Projeto ainda precisa passar por Finanças e CCJ antes de seguir ao Senado

Apesar do avanço, a proposta ainda precisa cumprir etapas importantes. Na Câmara, o texto segue para a Comissão de Finanças e Tributação e a Comissão de Constituição e Justiça. Se aprovado nesses colegiados, segue para o Senado.

O prazo de implementação, previsto no projeto, é de até 180 dias após sanção. O desafio, agora, deixa de ser conceitual e passa a ser político:
transformar consenso técnico em prioridade legislativa.

Senado aprova fundo bilionário para exportação e amplia crédito ao agro

No Senado, o movimento também é de expansão do crédito, mas olhando para fora.

A Comissão de Assuntos Econômicos aprovou o projeto que cria o Fundo de Crédito à Exportação, relatado pelo senador Esperidião Amin (PP-SC).

A proposta cria um mecanismo permanente de financiamento para empresas exportadoras, com recursos destinados a capital de giro, a modernização produtiva e a operações de pré e pós-embarque.

O fundo será operado pelo BNDES, com possibilidade de atuação de outros agentes financeiros e fintechs.

Amin destacou o caráter estratégico da medida:

“Estamos criando um instrumento permanente de apoio às exportações brasileiras, com mais previsibilidade e capacidade de financiamento.”

O modelo também incorpora compartilhamento de risco com fundos já existentes, reduzindo a dependência direta do orçamento público.

Para o agro, o impacto é direto: mais crédito para exportar, em um cenário cada vez mais competitivo.

CNA lança ferramenta para destrinchar tarifas do acordo Mercosul-União Europeia

Enquanto o crédito avança, o mercado também exige leitura mais técnica. A CNA lançou uma plataforma digital que permite consultar, de forma detalhada, as tarifas do acordo entre Mercosul e União Europeia.

O sistema mostra o cronograma de redução tarifária, a existência de cotas e condições específicas por produto. A ferramenta, chamada BI Simulador do Acordo, permite ao produtor entender como as tarifas vão evoluir ao longo do tempo algo essencial para planejamento de exportação.

Mas a própria entidade faz o alerta: informação ajuda, mas não substitui estratégia comercial.

Fecoagro negocia marca própria de defensivos e busca reduzir custo no campo

No campo da produção, Santa Catarina volta a puxar soluções práticas. A Fecoagro negocia a criação de uma marca própria de defensivos agrícolas, em parceria com a indústria paraguaia Tecnomyl.

A proposta envolve herbicidas, inseticidas e fungicidas. Todos com foco em reduzir custo para os produtores associados às cooperativas. A estratégia inclui o levantamento de demanda, a criação de marca própria, o registro nos órgãos reguladores e a negociação direta de preços.

O objetivo é claro: diminuir dependência de grandes fornecedores e aumentar a rentabilidade no campo.

Café catarinense? Pode começar a se acostumar com a ideia.

Enquanto o cenário nacional gira em torno de crédito e custo, Santa Catarina abre uma nova frente de oportunidade.

O projeto Café+SC, conduzido pela Epagri e financiado pela Fapesc, busca estruturar a produção de café especial no estado como alternativa real de diversificação para a agricultura familiar.

A iniciativa combina pesquisa e extensão para mapear risco climático, avaliar variedades de Coffea arabica e desenvolver sistemas de cultivo sustentáveis, especialmente em modelo agroflorestal.

A pesquisadora Valeria Pohlmann, coordenadora do projeto, destaca o objetivo central:

“A integração entre as análises permitirá elaborar mapas de aptidão e protocolos técnicos para o cultivo de café sombreado em Santa Catarina.”

O trabalho já envolve propriedades em diferentes regiões do estado, com coleta de dados de campo, análise de solo e clima e uso de sensores para entender o desempenho das plantas em diferentes condições.

Mais do que testar uma cultura, o projeto aponta para uma mudança de lógica: diversificar renda, agregar valor e reduzir dependência de cadeias tradicionais.

Mais dados, mais crédito, mas o agro ainda cobra previsibilidade

A semana mostra um avanço importante e o crédito rural começa a mudar de lógica: sai o modelo baseado apenas em garantia e entra um sistema baseado em informação.

Mas o setor ainda aponta o principal gargalo: previsibilidade.

Porque, no fim, não basta ter dados, não basta ter ferramenta, não basta ter crédito disponível, é preciso ter regra clara e acesso real. E isso, o agro ainda está cobrando.

Bom fim de semana, Agroamigos e parabéns a todas as mamães do agro, da política e de Santa Catarina.

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